Enchentes repentinas devastadoras no Nepal deixaram centenas de mortos e mais de 1.300 desaparecidos, isolando aldeias inteiras e destruindo dezenas de pontes e barragens. O governo realiza resgates aéreos emergenciais com apoio da Índia e da China, enquanto sobreviventes enfrentam a falta de energia e comunicação. Especialistas apontam que a tragédia foi provocada por avalanches e pelo colapso de geleiras na fronteira com o Tibete, e alertam para o risco de novas inundações na região.
A DW conversou com sobreviventes nas regiões devastadas pelas enchentes repentinas. Eles fornecem detalhes sobre a magnitude do desastre e a busca por informações sobre familiares desaparecidos.Com o número de mortos no Nepal já ultrapassando a casa das centenas e aumentando, a extensão total da destruição deixada pelas enormes enchentes repentinas desta quarta-feira (26/08) ainda não está clara.
Moradores das áreas afetadas relataram à DW que muitas aldeias permanecem isoladas e sem comunicação com a capital, Katmandu.
Bidhya Rajput, jornalista residente na capital, contou que sua casa na aldeia de Sole, no distrito de Nuwakot, foi arrastada pela correnteza do rio Trisuli. "Pelo que sabemos, apenas quatro ou cinco pessoas da aldeia conseguiram se salvar fugindo para as montanhas. Outras não conseguiram escapar, pois a enchente chegou de repente", disse ela à DW.
O governo declarou Nuwakot, juntamente com os distritos de Rasuwa e Dhading, como os mais afetados pelas enchentes mortais. Rajput disse à DW que os pais de seu marido continuam desaparecidos. Seu sogro, um professor, pode ter sido pego pela enchente enquanto voltava para casa depois do trabalho, de acordo com o diretor da escola.
O marido de Rajput foi para a aldeia em busca de notícias de seus familiares, apesar de as estradas estarem danificadas e destruídas em muitos pontos. Rajput disse que não é possível receber atualizações da aldeia, pois não há energia elétrica nem sinal de telefonia móvel desde o início da manhã desta quinta-feira.
"Os esforços de resgate e socorro do estado têm se concentrado principalmente nas cidades maiores", disse ela, acrescentando que "a assistência do Estado ainda não chegou a Sole".
Os moradores disseram que a mesma área foi afetada por enchentes no ano passado, mas muitos conseguiram chegar a terrenos mais altos e a água não subiu tanto quanto nesta terça-feira.
"Se os moradores tivessem recebido informações de alerta com antecedência, [e] pudessem ter presumido que desta vez as enchentes seriam tão grandes, eles poderiam ter fugido para locais seguros como no ano passado", disse Rajput. "Desta vez, eles não tiveram nem essa chance."
Muitos "não deram importância" aos alertas
Usha Kiran Timsena, uma política da oposição em Nuwakot, disse que a polícia e as autoridades locais emitiram um alerta sobre a chegada de uma grande enchente. No entanto, muitas pessoas na região simplesmente não levaram em conta a escala e a velocidade da massa de água.
"Muitos dos que estavam um pouco distantes das margens dos rios não deram a devida importância e não conseguiram fugir quando a enchente chegou às suas casas", disse ela à DW.
"Dois dos meus parentes próximos estão desaparecidos desde ontem de manhã. Não houve nenhuma atualização ou contato desde então."
As autoridades disseram que mais de três dezenas de pontes, incluindo pontes rodoviárias e suspensas, bem como uma dúzia de barragens hidrelétricas, foram destruídas pelas enchentes.
Sujan Lohani, de Dhading, disse à DW que nunca imaginou que a enchente e a destruição causadas pelo rio Trishuli pudessem ser tão grandes e generalizadas.
A principal ponte sobre o rio Trishuli, que liga a sede do distrito à capital, Katmandu, foi levada pela correnteza. "Estou preocupado porque meu primo está agora na aldeia", disse ele à DW. "Estamos isolados de Katmandu."
As autoridades do Nepal correm contra o tempo para alcançar os sobreviventes nas áreas afetadas. Com mais de 1,3 mil pessoas ainda desaparecidas, incluindo centenas de estrangeiros, os vizinhos do Nepal, Índia e China, estão coordenando com Katmandu a resposta ao desastre.
País "não estava preparado" para as dimensões da tragédia
Equipes de resgate transportam por via aérea pessoas ilhadas e feridas para a capital, enquanto policiais, militares e cidadãos comuns constroem abrigos temporários.
"Fazemos todos os esforços para resgatar pessoas com vida", disse o ministro da Informação e Comunicação do Nepal, Bikram Timilsina, à DW.
Timilsina representa o distrito eleitoral de Nuwakot-1, atingido pelas enchentes, na Câmara dos Representantes nepalesa. Ele estava na região afetada quando conversou com a DW e descreveu a destruição como devastadora.
"Vilas inteiras foram varridas. Muitos perderam tragicamente suas vidas. Muitos estão incomunicáveis", disse Timilsina. "Não acho que nosso sistema estatal jamais tenha imaginado uma enchente e um desastre de tal magnitude."
Ao mesmo tempo, ele afirmou que o Estado mobilizou todos os seus recursos, incluindo mais de uma dúzia de helicópteros, para transportar os sobreviventes para locais seguros e fornecer ajuda. Pelo menos 414 pessoas ilhadas, incluindo 164 estrangeiros, foram resgatadas por via aérea até o meio-dia desta quinta-feira, segundo o ministro.
O que dizem os especialistas sobre a causa do desastre?
Os cientistas ainda debatem a causa exata do desastre natural, embora especialistas chineses afirmem que a enchente foi desencadeada pelo colapso de uma geleira em uma região montanhosa de grande altitude.
Sudip Thakuri, cientista climático e professor associado do Departamento Central de Ciências Ambientais da Universidade Tribhuvan, no Nepal, disse à DW que as avaliações preliminares indicam que a inundação provavelmente foi desencadeada por uma avalanche no lado nepalês da fronteira entre o Nepal e a China.
"Até agora, concluímos que uma enorme avalanche bloqueou inicialmente um rio que fluía para o sul a partir da Região Autônoma do Tibete, na China. Quando a barragem natural formada pelos detritos da avalanche se rompeu, ela também pode ter arrastado um lago subglacial rio abaixo, desencadeando inundações massivas", disse o especialista.
Outro cientista climático, Rijan Raj Kayastha, que leciona na Universidade de Kathmandu, alertou para a possibilidade de novas inundações devido a outros lagos glaciais na área.
Separadamente, as autoridades chinesas também alertaram que outro lago em Gyirong, no Tibete, em uma região acima da área inundada no Nepal, já estava transbordando e que outros 3 milhões de toneladas de água deveriam entrar no lago nos próximos três dias.
---------
Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro.