Jornal alemão afasta colunista que usou IA em artigos

22 jun 2026 - 14h26

Principal colunista político do jornal berlinense "Tagesspiegel" admitiu uso de inteligência artificial em textos opinativos, sem alerta aos leitores, e teve sua coluna suspensa por tempo indeterminado."Para nossa redação, a IA é uma ferramenta que ajuda a simplificar e também a melhorar certas etapas do processo editorial. No entanto, não se trata de uma ferramenta autorizada a assumir o núcleo do nosso trabalho."

Os principais meios de comunicação da Alemanha estão debatendo as diretrizes editoriais para o uso da inteligência artificial
Os principais meios de comunicação da Alemanha estão debatendo as diretrizes editoriais para o uso da inteligência artificial
Foto: DW / Deutsche Welle

Foi assim que o jornal berlinense Tagesspiegel explicou os motivos para suspender a coluna de um de seus mais conhecidos comentaristas políticos - Stephan-Andreas Casdorff, ex-editor-chefe e ex-publisher do jornal (executivo encarregado dos assuntos empresariais de um veículo de comunicação).

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Uma investigação apontou que alguns de seus artigos de opinião foram escritos por inteligência artificial, o que foi admitido pelo próprio executivo e colunista, de 67 anos.

"Cometi um erro enorme, prejudiquei a reputação do jornal e a minha própria", disse Casdorff. "Por isso, peço sinceras desculpas. Usei IA nos textos. Eu deveria ter deixado isso claro e, portanto, não deveria ter permitido que fossem publicados."

Além do afastamento das funções jornalísticas, a direção editorial removeu vários artigos de Casdorff do site do jornal. "Decidimos retirar temporariamente os textos em questão do ar até que uma análise detalhada seja concluída", afirmaram.

O caso ampliou um debate já acalorado sobre o uso de inteligência artificial no jornalismo. Poucos dias antes, foi revelado que um artigo de opinião assinado pelo primeiro-ministro do estado da Turíngia, Mario Voigt, publicado no Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ), também foi produzido com ajuda de IA. O jornal afirma que só descobriu isso após a publicação.

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IA no "núcleo do trabalho jornalístico"

A pesquisadora de mídia Vera Katzenberger, da Universidade de Leipzig, considera o caso do Tagesspiegel especialmente grave por abalar a confiança no jornalismo.

"Não se trata de apoio em brainstorm ou pesquisa, mas do núcleo do trabalho jornalístico", disse à DW.

Leitores compram ou assinam jornais por conta da expertise e das perspectivas de determinados autores, observa a especialista. "Se artigos de opinião são gerados por IA sem que isso seja revelado, o público pode entender isso como uma forma de engano."

Como a IA pode influenciar a opinião pública

Katzenberger levanta ainda a questão dos perigos à democracia impostos pelo uso da IA em artigos de opinão. "Eles [artigos de opinião] nos oferecem orientação em um mundo cada vez mais complexo e nos ajudam a formar nossas próprias opiniões. Se são gerados por IA, isso interfere diretamente na formação da opinião pública."

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O problema, segundo ela, é que a IA não tem valores, posicionamento político nem senso de responsabilidade. Ainda assim, Katzenberger vê um aspecto positivo no episódio: "Isso mostra que as redações levam muito a sério suas próprias regras e que violações têm consequências."

Os editores do Tagesspiegel afirmaram que retiraram os textos do ar enquanto investigam o caso porque Casdorff infringiu diretrizes editoriais claramente estabelecidas e obrigatórias para todos. "O julgamento jornalístico, a ponderação das informações, a classificação analítica e a escrita devem sempre ser responsabilidade dos autores."

O Frankfurter Allgemeine Zeitung também adotou posicionamento semelhante e removeu de seu site o artigo supostamente gerado com IA do premiê da Turíngia.

A decisão do FAZ foi criticada por Mathias Döpfner, CEO do influente grupo de mídia Axel Springer. A resposta dele veio na forma de um artigo de opinião em que acusou o jornal de rejeitar tecnologias modernas, classificando a atitude como "uma tentativa desesperada do 'lobby das carroças' de proibir o automóvel". O texto, segundo Döpfner, foi elaborado pela IA, com um prompt que pedia ataques em tom polêmico.

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Para Katzenberger, a questão tem dois lados. "Quem escreve ou envia um artigo deve declarar se e como utilizou IA", afirma. "Ao mesmo tempo, os editores não podem confiar apenas no que dizem os autores."

A pesquisadora aponta que a IA está transformando profundamente os processos de trabalho no jornalismo, e defende que as redações precisam adaptar seus métodos de verificação e estabelecer regras claras. "Quais formas de apoio da IA são permitidas? Quando há obrigação de rotular conteúdos gerados por IA? Qual nível de contribuição pessoal é esperado?"

A Alemanha tem regras para IA no jornalismo?

O Conselho de Imprensa Alemão, órgão de autorregulação da mídia impressa e digital no país, afirma que a responsabilidade por todo conteúdo editorial, independentemente de como foi produzido, é integralmente das redações. "Essa responsabilidade também se aplica a conteúdos gerados artificialmente", diz a entidade.

Ainda assim, o Conselho considera desnecessária a obrigatoriedade de rotular textos produzidos por IA. A justificativa é que, para a avaliação ética de eventuais denúncias, não importa quem ou o que produziu o conteúdo, mas sim a sua veracidade e qualidade. Há, porém, situações que podem configurar violações graves de diligência e compromisso com a verdade.

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Em março, o site Business Insider, pertencente ao grupo alemão Axel Springer, foi publicamente censurado por publicar um texto gerado por IA sobre uma mãe que trabalhava em casa com um filho pequeno, atribuindo a autoria a uma jornalista. A reportagem foi posteriormente removida.

Para Katzenberger, episódios como esse exigem ações urgentes diante de violações tão claras das normas editoriais. Para muitos jornalistas, o uso de IA já se tornou algo tão comum quanto ferramentas de busca ou corretores ortográficos. "A linha entre apoio válido e autoria por IA que precisa ser informada está cada vez mais borrada", afirmou.

Ela também acredita que o cenário tende a melhorar com treinamentos regulares e discussões abertas sobre casos-limite no uso da tecnologia. Aos seus alunos, recomenda encarar a IA como ferramenta, e não como substituta de suas capacidades: "Sempre existe o risco de que seu próprio desenvolvimento profissional fique em segundo plano se a IA fizer o trabalho de pensar por eles."

A pesquisadora ressalta ainda que é fundamental que os veículos lidem com erros de forma transparente: "A confiança não se constrói nem se perde por um único incidente." Segundo ela, as redações não vão recuperá-la recusando totalmente o uso da IA, o que seria ilusório. "A IA veio para ficar", conclui.

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Uso de IA nas redações gerou polêmica também no Brasil

No Brasil, a Folha de S.Paulo, um dos diários nacionais de maior prestígio no país, viu-se envolvida em polêmica semelhante com a colunista Natália Beauty, influenciadora do mercado de beleza, após ela admitir que usa inteligência artificial para escrever seus artigos de opinião. O caso veio à tona em fevereiro, quando leitores apontaram indícios de uso de IA em seus textos, como um estilo automatizado.Natália argumentou que o recurso era necessário para otimizar sua produtividade: "Meus textos usam IA; meu pensamento, não".

A Folha decidiu manter a colunista em atividade, e foi criticada à época pela ombudsman do jornal, Alexandra Moraes. Para ela, o veículo "erra ao considerar supérflua a transparência no reconhecimento desse uso, ainda mais se a primeira e única admissão até agora só existiu após provocação do leitorado". A direção do jornal respondeu que a IA é um recurso para produção de textos e que, "no caso de colunistas, ademais de decisão final humana em qualquer conteúdo para publicação, esperam-se argumentação, escrita e estilo originais e pessoais".

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