Quando se pensa em uma floresta tropical na América do Sul, provavelmente não se imagina ventos cortantes, geadas intensas e temperaturas congelantes. Mas nas montanhas do sul do Brasil é exatamente isso que se pode encontrar. Nesse planalto, longe da Amazônia, na região mais fria do país, cresce um dos ecossistemas mais intrigantes do mundo.
Há milhões de anos, essa região abriga uma mosaico biodiverso de florestas de araucárias (Araucaria angustifolia) e campos de gramíneas. As araucárias que caracterizam essa região são intimamente relacionadas às araucárias chilenas (Araucaria araucana), amplamente cultivadas na Grã-Bretanha, e seus parentes já serviram de alimento para dinossauros em todo o mundo.
Hoje, porém, essa paisagem está em perigo — 150 anos de exploração madeireira e expansão agrícola destruíram a maior parte do mosaico de floresta e campos, e as condições frias e úmidas de que ela necessita estão desaparecendo rapidamente.
Mas lições do passado podem nos ajudar a conservar esse ecossistema antigo. Com uma equipe internacional, minha pesquisa recente recuou séculos e revelou as formas inesperadas pelas quais os seres humanos e as mudanças climáticas se combinaram para moldar as florestas de araucárias do Brasil nos últimos 6.000 anos. Longe de serem inerentemente destrutivas, essas mudanças foram fundamentais para moldar o caráter do ecossistema.
A região da floresta de araucárias no Sul do Brasil está repleta de sítios arqueológicos, incluindo muitos pertencentes ao povo Jê do Sul. Após chegarem à região há cerca de 2.000 anos, eles transformaram a paisagem, construindo desde aldeias com casas subterrâneas nas florestas até realizando terraplenagens funerárias em alturas dominantes.
Arte rupestre do povo Jê em Avencal, Urubici.FMPortella/ShutterstockAo mesmo tempo, as florestas de araucárias, tão essenciais para seu modo de vida, parecem ter se expandido. Inicialmente, os pesquisadores acreditavam que as expansões florestais acompanhavam as mudanças climáticas, mas estudos mais recentes sugerem que foram os próprios Jê do Sul que espalharam a floresta. Nossa pesquisa mais recente sugere um quadro com mais nuances.
Utilizamos uma combinação de diferentes abordagens para compreender os últimos 6.000 anos da história da floresta de araucárias. Pólen e minúsculos fragmentos de carvão preservados em camadas de lama de pântano mostraram como a vegetação e a atividade de incêndios da área circundante mudaram ao longo do tempo. Comparamos esses resultados com achados arqueológicos e um registro de chuvas passadas de uma caverna próxima, bem como com modelos computacionais que previam como a floresta teria se comportado se apenas o clima tivesse determinado sua dinâmica. Juntos, os resultados revelaram uma surpresa.
Uma história inesperada
Meus colegas e eu descobrimos que, quando as florestas se expandiram, isso geralmente ocorreu nos momentos e locais que havíamos previsto com base nas condições climáticas. Estranhamente, porém, a mudança na vegetação foi muito desigual em toda a região.
A maioria dos registros de pólen — incluindo três novos perto de sítios arqueológicos — mostrou apenas pequenas expansões florestais, se é que houve alguma. Mas alguns sítios apresentaram aumentos drásticos no pólen florestal — mesmo quando locais vizinhos próximos não apresentaram. Essa resposta irregular sugere que a dinâmica florestal foi impulsionada por algo mais complexo do que apenas mudanças climáticas em grande escala.
A resposta está na interação entre as mudanças climáticas e a dinâmica dos incêndios. O fogo é uma parte natural da região da floresta de araucárias. As pastagens dos campos pegam fogo facilmente, matando mudas de árvores e impedindo a expansão florestal, embora as áreas maduras de floresta de araucárias sejam bastante resistentes ao fogo.
No passado, mudanças para condições climáticas mais quentes e úmidas, que favoreceram ligeiramente as florestas e reduziram os incêndios, tiveram efeitos limitados na maioria dos locais. Onde ocorreram alterações significativas, parece ter sido porque a paisagem já estava próxima de um ponto de inflexão. Nessas áreas, bastou um pouco mais de floresta e um pouco menos de incêndios para desencadear uma reação em cadeia que fez com que o crescimento da floresta barrasse o fogo e invadisse as pastagens.
As florestas de araucárias do Brasil foram moldadas pelo clima e pelos povos indígenas ao longo de milhares de anos.Ponevina/Wikimedia Commons, CC BY-NC-NDAlguns registros de pólen, no entanto, contrariaram essa tendência geral de as florestas evitarem os incêndios. Esses locais — principalmente os três próximos a sítios arqueológicos — passaram por períodos com alta atividade de incêndios e uma cobertura relativamente alta de floresta de araucárias. Também registraram cultivo de plantações e ligeiros aumentos no pólen das árvores de araucária. Essas são as marcas deixadas na floresta, a primeira evidência direta de como os Jê do Sul moldaram esse ecossistema nos últimos 2.000 anos.
Nossos dados não podem nos dizer exatamente como era essa situação, mas nos dão pistas. O carvão vegetal provavelmente resultou de uma combinação entre a vida cotidiana e o manejo da terra, com incêndios abrindo espaços para o plantio de culturas. Não há sinais de que isso tenha levado à perda de floresta, porém pode até ter sido um sistema agroflorestal, com milho e feijão crescendo sob a copa de árvores culturalmente úteis, incluindo as araucárias. Em um local, essa influência criou uma paisagem diferente de qualquer outra observada em estudos anteriores, que se desenvolveu e mudou ao longo dos séculos acompanhando os ritmos da aldeia vizinha. Os Jê do Sul podem não ter espalhado árvores amplamente pela paisagem, mas certamente moldaram as florestas ao redor dos locais onde viviam.
Embora nossas descobertas se concentrem no passado, elas são inestimáveis para o futuro desse ecossistema. Ver como as mudanças climáticas levaram a dinâmica entre floresta e pastagem a pontos de inflexão de maneiras imprevisíveis é preocupante: à medida que as condições climáticas no Sul do Brasil continuam a ficar mais quentes e úmidas, isso tornará mais difícil conservar tanto as florestas de araucárias quanto as pastagens dos campos.
E as revelações sobre a história humana da região também são importantes. O sul do Brasil ainda abriga comunidades Jê do Sul - os Kaingang e os Laklãnõ Xokleng. Nossos resultados destacam que não há conflito inerente entre as pessoas e a floresta de araucária. À medida que essas comunidades indígenas continuam lutando por seus direitos às terras ancestrais, a conservação faria bem em aprender com elas e estabelecer maneiras melhores de conectar as pessoas às florestas - antes que seja tarde demais.
Oliver Wilson recebe financiamento do NERC, INQUA e da University of Reading.