Candidatos a presidente trazem desafios, mas propostas para melhorar aprendizagem no Brasil são frágeis, apontam especialistas

Analistas ouvidos pelo Terra também destacaram os pontos de atenção na área de Educação para o próximo mandato

3 set 2026 - 04h58
Especialistas avaliam propostas dos presidenciáveis para a educação
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Os desafios da aprendizagem no Brasil aparecem com "muita força" nos planos de governo para a área de Educação dos candidatos à Presidência da República nas eleições deste ano. No entanto, as propostas para melhorar a aprendizagem ainda são frágeis, apontam especialistas ouvidos pelo Terra.

  • Essa reportagem faz parte da série O Brasil Que Eles Querem, que vai destrinchar os planos de governo dos candidatos à Presidência sobre Tecnologia, Educação, Segurança, Economia,  Meio Ambiente, Saúde, Relações Internacionais,  Esporte,  Cultura e Diversidade

"Os planos trazem um diagnóstico de que o foco precisa ser melhorar os indicadores de aprendizagem, isso é um avanço, porque, em eleições anteriores, você tinha candidatos, por exemplo, que colocavam que o foco da agenda deveria ser a questão da discussão de gênero, da ideologia dos professores. Assim, você tem um avanço; você tem uma certa convergência de que a aprendizagem é o desafio para o próximo ciclo. Isso é muito importante", afirma Ivan Gontijo, gerente de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação.

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Segundo o especialista, porém, o diagnóstico que cada candidato faz no próprio plano -- alguns mais aprofundados e outros menos -- e os caminhos propostos para enfrentar as barreiras variam bastante.

"Por mais que todos tragam o desafio da aprendizagem, as propostas para melhorar ainda são frágeis", destaca. "Poucos falam, por exemplo, sobre mudanças no currículo, mudanças de avaliação, que são importantes para melhorar a aprendizagem. Por mais que tenha um bom diagnóstico, os caminhos ainda faltam bastante", acrescenta Gontijo.

Outras propostas em comum para a maioria dos candidatos são estratégias para alfabetização, escolas em tempo integral como prioridade e foco em educação profissional e tecnológica, que são vistas como positivas. Já alguns planos também apostam em escolas cívico-militares. Os especialistas criticam a adoção desse último ponto e dizem que não é o caminho para a educação.

"Não é colocando policial militar dentro de escola que a gente vai garantir a disciplina; é tendo um ensino significativo, coerente com o século 21 e com professores valorizados e bem preparados", pontua Cláudia Costin, especialista em políticas educacionais e ex-diretora global de Educação do Banco Mundial. Mozart Neves Ramos, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto (SP), concorda: 

"O modelo cívico-militar não atende à realidade e o mundo que a gente está vivendo, o mundo real, e que o custo dela também não se justifica. Eu, particularmente, entendo que em alguns lugares talvez tenha tido sucesso, mas o sucesso em relação a situação de fracasso do próprio Estado", ressalta. Ele ainda lembra que "não há modelo cívico-militar em nenhum lugar desenvolvido". 

Candidatos a presidente trazem desafios, mas propostas para melhorar aprendizagem no Brasil são frágeis, apontam especialistas
Candidatos a presidente trazem desafios, mas propostas para melhorar aprendizagem no Brasil são frágeis, apontam especialistas
Foto: Pixabay

Pontos de atenção no próximo governo

Educação infantil

Ramos avalia que, para essa etapa, é necessário aumentar a oferta de creches, uma vez que a meta do Plano Nacional de Educação (PNE) não foi alcançada, mas também oferecer uma educação infantil que esteja vinculada ao desenvolvimento integral. "Essa fase é estratégica para o futuro do País. Educação infantil é a base de tudo. E precisa não só se preocupar com a oferta, mas com a qualidade dessa oferta, que tem que ser pautada no desenvolvimento pleno da criança."

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Gontijo ainda lembra da importância da alfabetização nessa etapa. Conforme o especialista, o Brasil encontrou o rumo nesse desafio e os indicadores vêm melhorando, mas é preciso dar continuidade nessa agenda, além de "subir a barra do que a gente exige como alfabetização na idade certa no Brasil".

Especialistas citam a importância de ampliar a oferta de creches e da alfabetização na educação infantil
Foto: Tiago Queiroz/Estadão / Estadão

Ensino fundamental

Para esse nível de ensino, Cláudia diz que a escola em tempo integral deve ser "prioridade absoluta" para o próximo governo: "Não tem bala de prata, tem educação, mas se tem uma coisa próxima disso é educação em tempo integral".

"Mas não é educação em tempo integral, como se pensava no passado, com aulas em dois turnos e no contraturno tem oficinas. Não, tem que ser como funciona em todos os países com bons sistemas educacionais: 7 horas de aula e depois, se quiser, mais oficinas, pode. Mas tem que ser aulas e oficinas nos dois períodos, com tempo para fazer recuperação de aprendizagem, com o tempo de ter aulas mais dialogadas, uma educação mais mão na massa, isso é muito importante e também organiza o vínculo do professor", explica.

Outras agendas que precisam de atenção, de acordo com os especialistas, são a alfabetização, que levaria a uma equidade entre os estados, e um trabalho de maior colaboração entre estados e municípios para resultados mais eficazes de aprendizagem, além de melhorar a prática da formação docente, especialmente em Matemática.

Especialistas afirmam que escola em tempo integral deve ser "prioridade absoluta" para o próximo governo
Foto: Freepik

Ensino médio

Nessa etapa, expandir as escolas em tempo integral e seguir monitorando e acompanhando como estão sendo implantadas as reformas do ensino médio e ajudar estados e municípios a fazerem os ajustes são tópicos importantes para melhorar a qualidade, segundo Gontijo.

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Ramos também menciona a necessidade de mudanças no currículo: "O novo ensino médio mal começou a ser implementado, mas vai precisar de ajustes para entender esse novo cenário das novas tecnologias, das disrupções que nós estamos vivendo, para que esse jovem consiga estar conectado com ele. O jovem quer uma escola que caiba na vida. Quando ele não encontra essa escola, não vai ser Pé-de-Meia que vai segurar esse jovem. Ele pode até estar na escola, mas talvez ele já esteja olhando para uma outra coisa fora da escola. Então essa escola precisa estar antenada com esse futuro da juventude".

Outro ponto de atenção destacado são os cursos técnicos. "Fazer um ensino médio junto com a educação profissional. Isso está crescendo muito no Brasil, só que de forma muito desigual. Você tem estados, por exemplo, em que o Piauí tem 100% das matrículas em tempo integral e ensino com cursos técnicos no ensino médio. Mas tem outros estados que tem patamares muito mais baixos", afirma o especialista do Todos Pela Educação. Ele ainda pontua que é preciso rever os incentivos que existem hoje para combater a evasão.

No ensino superior, é essencial focar na formação do professor e valorizar a carreira, dizem especialistas
Foto: Unsplash

Ensino superior

Cláudia avalia que, para esse nível, é essencial focar na formação do professor nas universidades e valorizar a carreira, tornando-a mais atrativa com melhores condições de trabalho. "A carreira de professor é complexa, porque não basta o futuro professor ser especialista numa área, ele tem que ser especialista em como a criança e o adolescente aprende também. A formação que o professor recebe na universidade é muito importante."

Além disso, Ramos cita a importância de se fazer uma reforma nos cursos do ensino superior, "olhando menos conteúdo e olhando mais quais são as competências e habilidades que os alunos precisam desenvolver para exercer o mundo do trabalho com qualidade e com a demanda que precisa".

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"A gente precisa estar mais integrado com esse mundo do trabalho. Eu criaria um observatório dos egressos, onde faria reformas nos currículos do ensino superior mais articuladas com as necessidades reais do mundo do trabalho", detalha o especialista.

Fonte: Portal Terra
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