Oferecimento

Pesquisa atrasada, biblioteca fechada e exames adiados: como a greve afeta 54 universidades federais

Servidores reivindicam acordo assinado em 2024; governo diz que compromissos assumidos estão sendo implementados

24 abr 2026 - 05h41
(atualizado às 07h43)
Greve de servidores da Unifesp afeta hospitais universitários ligados à instituição.
Greve de servidores da Unifesp afeta hospitais universitários ligados à instituição.
Foto: Werther Santana/Estadão / Estadão

BRASÍLIA - A greve de servidores que atinge mais de 50 universidades federais não paralisou aulas, mas tem impactado serviços relevantes prestados pelas instituições, como a concessão de bolsas, abertura de bibliotecas e laboratórios e funcionamento de hospitais.

Cinquenta e quatro universidades enfrentam greve total ou parcial de servidores, de acordo com levantamento da Federação de Sindicatos de Trabalhadores Técnico-administrativos em Instituições de Ensino Superior Públicas do Brasil (Fasubra). Os servidores afirmam que o governo não cumpriu parte do acordo celebrado com a categoria em 2024.

Publicidade

Em nota, o Ministério da Educação (MEC) afirmou que os compromissos assumidos "já foram cumpridos ou se encontram em fase de implementação", de acordo com as etapas de tramitação no Executivo e no Legislativo. Já o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) afirmou que tem mantido o diálogo e incorporado os compromissos assumidos (leia mais abaixo).

A greve atinge as universidades de forma desigual. Em algumas, apesar da paralisação, o cenário é de normalidade, sem prejuízo aos serviços. Em outras, os impactos já são sentidos na ponta.

A Universidade Federal de Lavras (Ufla), em Minas Gerais, tem registrado atrasos em processos relacionados à concessão de bolsas e moradia universitária. Essas políticas são fundamentais para garantir a permanência de populações mais vulneráveis na universidade.

Outro problema verificado na Ufla é a redução do atendimento com intérpretes de Libras, fundamentais para a comunidade surda. A instituição também vive um quadro de interrupção ou funcionamento parcial em atendimentos de saúde mental, serviço social e parte do ambulatório médico.

Publicidade

"A Ufla segue monitorando a situação e adotando medidas para mitigar impactos à comunidade acadêmica e à sociedade", afirmou a universidade em nota.

Laboratórios fechados

Também em Minas Gerais, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) é uma das instituições mais impactadas, de acordo com membros da Fasubra. Um dos pontos mais preocupantes é o fechamento de laboratórios, que tem impactado a aprendizagem dos alunos.

"Laboratórios estão em sua maioria fechados. Algumas aulas e pesquisas têm atraso em seu cronograma com a paralisação dos laboratórios", explica Flávio Sereno, coordenador jurídico e de relações de trabalho da Fasubra.

Segundo o dirigente, demandas emergenciais estão sendo atendidas, mas novos processos estão suspensos. "Serviços de planejamento, gestão financeira, tecnologia da informação, programação de compras, viagens, todos estão de alguma forma suspensos ou reduzidos", relata.

Bolsas seguem sendo pagas, mas sem inclusão de novos estudantes. Como é um serviço essencial, o Hospital Universitário também segue em funcionamento, mas com funções reduzidas.

Publicidade

A reportagem questionou a UFJF sobre a greve, mas ainda não obteve resposta.

No Nordeste, a Universidade Federal de Sergipe (UFS) registra impactos parciais no funcionamento. A instituição destaca que aulas práticas têm sido "diretamente afetadas", sobretudo as que dependem do suporte oferecido pelos servidores.

"Em cursos como Química, Biologia e Engenharia, por exemplo, houve reorganização de aulas em laboratório devido à ausência de técnicos responsáveis pela preparação de reagentes, organização dos equipamentos e garantia das condições de segurança. Sem esse suporte, determinadas práticas não podem ser realizadas conforme os protocolos exigidos", afirmou a universidade.

Aulas que utilizam laboratórios de informática também têm sofrido impacto. Segundo a UFS, em alguns casos professores adaptaram o conteúdo, tornando-o teórico uma vez que não pode utilizar os computadores. Aulas que demandam projetores e sistemas de som também enfrentam obstáculos quando há necessidade de suporte técnico.

"Outro ponto observado envolve bibliotecas universitárias, onde a redução no quadro de atendimento pode afetar empréstimos, devoluções e acesso a materiais físicos. Isso impacta indiretamente aulas que exigem consulta imediata a acervos específicos", disse a UFS.

Publicidade

Questões burocráticas estão entre as mais afetadas pela greve. Procedimentos como emissão de documentos, trancamento de disciplinas e ajustes de matrícula têm atrasado, o que impacta na rotina das turmas.

Na Universidade Federal Fluminense (UFF), a greve se estende desde 23 de fevereiro. Secretarias acadêmicas, atendimento ao público e rotinas como matrículas, emissão de documentos e tramitação de processos estão prejudicados. As bibliotecas estão em sua grande maioria com funcionamento paralisado, mantendo inacessíveis ao público acervos e serviços de apoio ao ensino e à pesquisa.

Impacto nos hospitais

Câmpus do Fundão da UFRJ, no Rio, tomado por vegetação.
Foto: Pedro Kirilos/Estadão / Estadão

Na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a greve tem repercutido no hospital universitário, onde técnicos administrativos trabalham em escala reduzida de 30%. Devido a isso, consultas, exames eletivos estão sendo adiados ou remarcados. Cirurgias não emergenciais também foram suspensas temporariamente.

Em São Paulo, a Unifesp informou ao Estadão que o movimento grevista envolve alguns servidores e até o momento "não houve prejuízo em nenhuma atividade." A reportagem apurou, no entanto, que a paralisação afeta os dois hospitais universitários da instituição, além de alguns ambulatórios.

Publicidade

O impacto também é sentido no câmpus Diadema, onde há laboratórios impactados, e em serviços de infraestrutura nos câmpus de Guarulhos e São Paulo.

Maior universidade federal do País, a UFRJ afirmou que não tem um "levantamento quanto aos serviços impactados pela greve dos técnicos".

Em nota, o MEC afirma que respeita o direito de greve dos servidores e mantém diálogo permanente com as categorias da educação federal. A pasta disse ainda que "permanece atuando para concluir pontos remanescentes na dinâmica das mesas setoriais observados os cronogramas estabelecidos em regramento próprio da mesa."

Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se