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Como faculdades da área de comércio e indústria influenciam o ensino superior

Avanço de instituições conectadas ao setor produtivo reflete novas demandas do mercado e o novo perfil dos estudantes

30 abr 2026 - 05h43

Instituições historicamente associadas à formação profissional, como o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), vêm ampliando a atuação no ensino superior e conquistando espaço em um cenário que é tradicionalmente dominado por instituições acadêmicas.

O movimento acompanha transformações no mercado de trabalho e na própria demanda dos estudantes, que buscam cursos mais conectados à prática profissional e com maior potencial de inserção no emprego.

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A expansão dessas instituições ocorre em um contexto de reconfiguração do ensino superior brasileiro, marcado pela diversificação de modelos formativos.

Nos últimos anos, cursos com metodologias baseadas em resolução de problemas, projetos e simulações de ambientes reais passaram a disputar espaço com formatos mais tradicionais, centrados em aulas expositivas e conteúdo teórico.

No Centro Universitário Senac, a estratégia tem sido aproximar a formação acadêmica das dinâmicas do mercado. Segundo o coordenador de graduação Alexandre Santos, a proposta pedagógica busca desenvolver competências aplicadas. "O modelo está centrado no protagonismo do estudante e na aplicação prática do conhecimento, com metodologias que estimulam a autonomia e a resolução de problemas reais", afirma.

De acordo com ele, essa abordagem se diferencia do padrão tradicional ao integrar teoria e prática de forma contínua. "O estudante é constantemente exposto a situações que simulam desafios profissionais, seja em laboratórios especializados, seja em projetos integradores", diz. A lógica se estende ao ensino a distância, com uso de plataformas digitais e atividades interativas.

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A conexão com o mercado aparece como um dos principais eixos do modelo. "Há um diálogo permanente com setores produtivos para identificar competências emergentes e atualizar os currículos", afirma Santos. De acordo com ele, essa proximidade contribui para a inserção profissional dos estudantes e para a adaptação dos cursos às transformações econômicas.

Novo modelo

Para quem está em sala de aula, a diferença em relação a modelos mais tradicionais é perceptível. O estudante Vinicius Silva, de 33 anos, ingressou no curso de Gestão de Hospitalidade após já atuar na área. "Eu buscava uma formação que tivesse ligação direta com o mercado. O Senac sempre foi uma referência nesse sentido", afirma.

Ele relata que o formato das aulas tem impacto direto no aprendizado. "Os professores têm experiência profissional e trazem exemplos concretos. As atividades práticas ajudam a entender melhor os conceitos e a aplicar no dia a dia", diz.

Segundo ele, a mudança já pode ser percebida na rotina de trabalho. "Desde que comecei o curso, passei a enxergar minha área de outra forma e já consegui aplicar algumas práticas que melhoraram a relação com clientes."

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No campo industrial, o UniSENAI SP adota abordagem semelhante, com foco direto nas demandas da produção. A instituição reúne dezenas de unidades no Estado de São Paulo e oferece cursos voltados a áreas como engenharia, tecnologia e processos industriais.

Segundo o professor e coordenador de áreas das Engenharias Mateus Botani, o ponto de partida do modelo é a necessidade do setor produtivo. "A formação é estruturada para desenvolver competências que respondam a problemas reais da indústria, com foco na aplicação prática e na tomada de decisão", afirma.

Ele explica que a integração entre teoria e prática ocorre desde o início dos cursos. "Os conteúdos conceituais dão base para a compreensão dos processos, enquanto as atividades práticas permitem aplicar esse conhecimento em situações reais", diz. "Os laboratórios simulam operações industriais, o que aproxima o estudante do ambiente profissional."

A metodologia também influencia a forma de avaliação. "O objetivo não é apenas medir memorização, mas verificar se o aluno consegue aplicar o conhecimento, resolver problemas e atuar com postura profissional", afirma Botani. Segundo ele, essa abordagem responde às exigências do setor, que demanda soluções rápidas e eficientes.

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A experiência dos estudantes reforça essa dinâmica. Pedro Sanchez, de 24 anos, aluno de Ciência de Dados, afirma que o curso é estruturado a partir de projetos conectados a demandas reais. "A teoria serve como base para as decisões que a gente toma nos projetos, que muitas vezes são desenvolvidos em parceria com empresas", diz.

O estudante destaca que o contato com situações concretas aproxima o ambiente acadêmico do mercado. "A gente trabalha com prazos, pressão e problemas reais, o que torna o aprendizado mais próximo do dia a dia profissional", afirma. Segundo ele, essa vivência contribuiu para a entrada no mercado ainda durante a graduação. "Hoje já atuo na área e consigo aplicar o que aprendo no curso."

Mercado de trabalho

Especialistas avaliam que o avanço dessas instituições está ligado a mudanças mais amplas no mundo do trabalho. Para o economista Naercio Menezes Filho, há uma crescente valorização de formações mais alinhadas às demandas produtivas. "O Brasil historicamente teve um descompasso entre o que se ensina e o que o mercado demanda. Modelos mais aplicados tendem a reduzir esse desalinhamento", afirma.

Segundo ele, há evidências de que cursos com maior conexão prática podem favorecer a inserção profissional. "Formações que desenvolvem competências diretamente utilizáveis no trabalho tendem a gerar retorno mais rápido em termos de empregabilidade, especialmente em áreas técnicas."

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O economista ressalta que o desafio está em equilibrar formação específica e capacidade de adaptação. "Não se trata de substituir a base teórica, mas de integrá-la a experiências práticas que preparem o aluno para diferentes contextos ao longo da carreira", afirma.

Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) reforçam essa avaliação. Segundo o gerente de Estudos e Prospectiva Industrial da entidade, Rafael Silva e Sousa, mais de 70% dos egressos de formações com forte ênfase prática conseguem emprego formal em até um ano após a conclusão do curso.

O índice ultrapassa 85% quando se considera também o mercado informal.

"A ênfase prática, combinada com uma leitura antecipada das demandas tecnológicas e produtivas, encurta a distância entre sala de aula e chão de fábrica", afirma ele.

Na avaliação de Priscila Claro, diretora de Graduação do Insper, o movimento representa uma mudança em curso no sistema. "O ensino superior brasileiro está evoluindo para um modelo mais orientado ao desenvolvimento de competências, no qual a aplicação prática do conhecimento ganha mais espaço. Isso não significa substituir a formação acadêmica tradicional, mas aprimorá-la com experiências aplicadas", diz.

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Mudança de perfil

Além da formação técnica, empresas têm ampliado a demanda por competências comportamentais. Habilidades como comunicação, trabalho em equipe e pensamento crítico aparecem com frequência entre as exigências do mercado, especialmente em setores dinâmicos como indústria e serviços.

Outro fator que impulsiona a expansão dessas instituições é a mudança no perfil dos estudantes. Cresce o número de pessoas que retornam aos estudos após ingressar no mercado de trabalho ou que buscam requalificação profissional. Esse público tende a valorizar cursos mais flexíveis e com aplicação imediata.

Segundo a coordenadora do Insper, esse movimento está ligado à consolidação da aprendizagem ao longo da vida. "O ensino superior deixa de atender apenas o estudante recém-saído do ensino médio e passa a incorporar, de forma mais estruturada, perfis em transição de carreira, que demandam maior flexibilidade e conteúdos com aplicação mais imediata", afirma.

Para atender a essa demanda, instituições têm ampliado a oferta de ensino a distância, cursos noturnos e formas alternativas de ingresso, como o uso da nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). A flexibilidade aparece como elemento central para atrair estudantes que conciliam estudo e trabalho.

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Apesar do avanço, o modelo também enfrenta desafios, como a necessidade de atualização constante de infraestrutura e tecnologia, a formação de docentes com experiência prática e a manutenção da qualidade acadêmica. Ainda assim, mesmo com diferenças em relação ao modelo universitário tradicional, as instituições ligadas à indústria e ao comércio continuam sob regulação do Ministério da Educação e têm ampliado sua atuação também em pesquisa aplicada e inovação.

Para a CNI, essa aproximação entre formação e mercado tende a ganhar ainda mais relevância nos próximos anos. "A formação superior, especialmente a de tecnólogo, tem papel central diante da necessidade de mão de obra qualificada para implementar novas tecnologias. Cursos mais próximos da prática e alinhados às demandas do setor aumentam a empregabilidade e a eficiência das empresas", afirma Silva e Sousa.

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