Motivados pela reclamação de um pai, agentes da Polícia Militar entraram armados em uma escola na Zona Oeste de São Paulo no ano passado. O questionamento era sobre um desenho, feito por uma criança de quatro anos, que retratava a orixá Iansã. Desde então, o caso vêm ganhando novos contornos e impactando a vida de Liu Olivina, a autora de Ciranda em Aruanda’, que foi o livro lido em sala de aula que inspirou a criança na atividade. Em entrevista ao Terra, Liu relata ter virado alvo de ataques e racismo religioso. Mas, para além do medo, também recebeu apoio, e agora se vê mais fortalecida para colocar uma nova obra sobre o assunto no mundo.
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“Livros que falam sobre as religiões afro-indígenas são necessários dentro da sala não só pelo papel de incomodar, mas de trazer essa cultura que é importante para que as crianças, quando crescerem, não serem essas pessoas que chamam a polícia por causa de um desenho de orixá, que rasgam um desenho. É importante ensinar a respeitar, ensinar o que é racismo religioso”, declarou a autora à reportagem.
O caso aconteceu na EMEI Antônio Bento, no bairro Caxingui. No dia 12 de novembro, quatro policiais armados entraram na escola e questionaram a diretora da escola sobre o ocorrido. Na ocasião, o Sindicato dos Profissionais em Educação (Sinpeem) denunciou ter sido um caso de intimidação, com abordagem hostil. Imagens de câmeras corporais dos agentes passaram a circular neste ano, mostrando um dos agentes acusando a diretora de “ditar sua ideologia” enquanto ela tenta explicar que abordar a cultura Afro-Brasileira é uma obrigatoriedade estabelecida em lei nacional -- Lei nº 10.639/2003.
A situação ganhou repercussão nacional e, com isso, o nome de Liu Olivina começou a circular na internet. Foi aí que, vinculada à história, ela se viu alvo de ataques. “Foi bem difícil pra mim, tive que me afastar de tudo por uns dias”, relembra.
Ela conta pessoas falavam que ela estava “ensinando macumba para crianças” e que também recebeu ataques misóginos. Por estar muito abalada emocionalmente, diz não ter registrado algum tipo de ocorrência sobre as ofensas. “Eu simplesmente bloqueei. Nem guardei essas mensagens, apaguei e parei de ver também. Minha vontade era que o caso abafasse o mais rápido possível”, conta.
O tom mudou quando passou a circular o vídeo das câmeras corporais dos policiais que revelaram, de forma direta, como se deu a abordagem na escola. “As pessoas ficaram revoltadas, porque viram o quanto foi absurdo um policial dentro de uma escola questionando a diretora da forma como foi. Foi super machista, não foi nada tranquilo”, relembra.
Nisso, por mais que ainda tivessem pessoas apoiando a forma como a polícia lidou com a ocorrência, o que Liu mais recebeu foram mensagens de apoio – e que isso a deu mais forças para continuar.
“Eu fiquei com medo, porque é isso que acontece. A gente vê terreiros sendo queimados, quebrados… Isso acontece há muito tempo e não é uma coisa que parou de acontecer. É uma coisa que continua viva e crescendo. Eu fiquei com medo de verdade. Mas quando foi apaziguando a situação, eu fui me sentindo muito melhor para falar sobre, e também recebi muitas mensagens de apoio. Isso me forteleceu muito, de verdade. Isso me deu mais vontade ainda de fazer [um novo livro]”, relata a artista.
Ela está trabalhando no livro Aruanda em terra, que será uma continuação de Ciranda em Aruanda. Ainda não há previsão de lançamento.
No que deu o caso?
Ao Terra, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) afirmou que o caso na escola foi investigado pelas Polícias Civil e Militar.
No âmbito do Inquérito Policial Militar (IPM), afirmam que "foram analisadas as imagens captadas pelas câmeras corporais, colhidos os depoimentos dos envolvidos e adotados os procedimentos apuratórios previstos na legislação. O IPM foi encaminhado pela Corregedoria ao Tribunal de Justiça Militar para análise".
Já a Polícia Civil apurou o caso por meio do 34º Distrito Policial (Vila Sônia), que indiciou o investigado pelo crime de intolerância religiosa. "O inquérito policial foi concluído e relatado ao Poder Judiciário em fevereiro de 2026, não retornando mais à unidade", afirmou o órgão.
A reportagem também acionou a Prefeitura de São Paulo, que esclareceu por meio da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo (SME) que a EMEI Antônio Bento está sendo acompanhada pelo Núcleo de Apoio e Acompanhamento para a Aprendizagem (NAAPA), composto por psicólogos e psicopedagogos, pela Divisão de Educação Infantil e pelo Núcleo de Educação para as Relações Étnico – Raciais (NEER).
"A Diretoria Regional de Educação do Butantã permanece à disposição da comunidade escolar e auxiliou na produção de plano institucional para assegurar a continuidade das ações pedagógicas e formativas de Educação Antirracista alinhadas ao Currículo da Cidade", afirmou a pasta.
O Terra também tentou contato diretamente com a direção da escola, que não quis se manifestar.
Mais sobre Ciranda em Aruanda
O livro Ciranda em Aruanda, publicado pela Editora Quatro Cantos, tem feito barulho desde que surgiu. No caso, o livro logo tornou uma obra premiada -- recebendo o selo ‘Altamente Recomendável’ da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e de ‘Acervo Informativo de Qualidade’ da Cátedra Unesco de Leitura, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC - Rio).
Para Liu, pessoalmente, o livro representa um pouco de sua história. Por mais que escrever um livro seja uma vontade que tem desde criança, foi sua trajetoria com a religiosidade que a fez criar o projeto. A virada de chave para entender isso foi uma conexão com Oxum, relata.
“Fiz o livro durante a pandemia. E, a todo momento, eu pensava muito na minha infância, que foi muito censurada em relação às religiões de matriz africana. Eu cresci dentro da igreja e se falava muito sobre essas religiões serem do demônio, que orixá era demônio. Eu cresci nesse ambiente de racismo religioso”, conta a autora.
Para ela, escrever esse livro foi uma forma de se curar desses medos que foram impostos a ela enquanto criança. E, para além disso, vê a obra como uma forma de ajudar outras crianças a não passarem por isso.
Assim, em Ciranda em Aruanda, ela diz ter tido o cuidado de trazer a relação dos orixás com a natureza para aproximar os leitores da história das divindades. Foram selecionados 10 orixás para a obra, onde é feita uma espécie de apresentação de cada um deles e escrito um pedido. “Eu falo o nome do orixá, onde ele habita e a força dele, qual é o valor que ele traz de bom”.
“Quando eu fiz o livro eu não imaginei os caminhos que ele ia tomar. Eu pensei: ‘Ah, pode chegar numa escola, através de alguma atividade..’. Mas eu não imaginava que um dia ia ser distribuído nas creches, ia ganhar prêmio e tudo mais. E também não imaginava que um dia ia ser caso de polícia dentro da escola. A gente faz uma coisinha e não sabe a dimensão que pode tomar, né”, conta Liu.
Conforme explica Rosana Martinelli, da Editora Quatro Cantos, o livro foi distribuído para creches da capital, após a obra ser escolhida por professores em projeto da Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura de São Paulo. O livro foi comprado nos anos de 2022 e 2023, totalizando cerca de 14 mil exemplares direcionados para bibliotecas e salas de leitura da educação infantil.