Edifício histórico no centro de São Paulo vira território para a arte contemporânea

Sob curadoria de Ana Carolina Ralston, exposição "Vestígios: cartografias de gestos" reúne 33 artistas que mantêm seus ateliês no Espaço República. Bairro está na lista dos mais descolados na edição mais recente de um ranking da revista britânica Time Out

21 set 2026 - 23h15
Resumo
O Espaço República, polo artístico sediado em um prédio histórico no centro de São Paulo, recebe a mostra coletiva "Vestígios: cartografias de gestos". Com curadoria de Ana Carolina Ralston, a exposição reúne obras de 34 artistas para destacar processos criativos em linguagens diversas, além da intensa convivência nos ateliês. Criado por Philip Haji-Touma, o centro cultural consolida a efervescência artística da República, bairro recentemente citado pela revista Time Out entre os mais descolados do mundo.

O que permanece depois que uma obra de arte termina? Uma marca na matéria, um gesto interrompido, uma memória, uma transformação provocada pelo tempo. É a partir dessa pergunta que a curadora, jornalista e diretora artística Ana Carolina Ralston constrói Vestígios: cartografias de gestos, exposição coletiva que reúne 33 artistas residentes e um convidado no Espaço República, no centro de São Paulo. A mostra abre ao público a partir de 30 de setembro, depois da vernissage marcada para o dia 24. 

Artista visual Jaques Faing, que tem uma obra em “Vestígios”
Artista visual Jaques Faing, que tem uma obra em “Vestígios”
Foto: Divulgação / Perfil Brasil

A proposta é menos fazer um inventário da produção dos artistas que ocupam o edifício e mais observar o que seus trabalhos revelam sobre o momento atual de cada pesquisa. Para chegar às obras que integram a segunda edição de Vestígios, Ralston mergulhou nos portfólios e nos processos individuais dos artistas, buscando pontos de contato entre trabalhos realizados em linguagens distintas, da pintura e do desenho à fotografia, escultura, vídeo e instalação. 

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"A gente faz uma leitura de portfólio e uma análise da produção atual de cada artista para escolher a obra que vai compor a coletiva. Porque, na verdade, toda obra é sobre processo", explica Ralston. 

O interesse pelo processo atravessa a própria trajetória da curadora. Ralston construiu sua carreira entre arte, cultura e comunicação e já esteve à frente de exposições de artistas como Louise Bourgeois e Tracey Emin no Museu Fama, em Itu, no interior de São Paulo. Em Vestígios, entretanto, seu olhar se desloca para uma produção que acontece de maneira cotidiana, nos ateliês distribuídos pelos seis andares do Espaço República. 

É nesse deslocamento, do circuito de grandes exposições para um território de produção contínua, que a curadora encontra o ponto de partida para a coletiva. "Toda criação produz rastros. Eles estão na matéria, mas também no tempo, na memória e nas relações que atravessam o trabalho. No Espaço República, os vestígios não estão somente nas obras: estão também na convivência entre os artistas, nos atravessamentos e nas transformações que acontecem quando diferentes pesquisas dividem o mesmo espaço", afirma Ralston.

A exposição, assim, funciona também como um recorte de um determinado momento da produção de cada artista. Em vez de apresentar uma trajetória encerrada, a curadoria procura registrar pesquisas ainda em movimento, trabalhos que carregam marcas do que já foi feito, mas também apontam para aquilo que ainda está por vir. 

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Para o artista visual Jaques Faing, que participa da mostra com uma obra da série Olho cósmico Psi, de 2026, a presença de um olhar externo é justamente o que permite que pesquisas individuais estabeleçam novas relações. 

"Em um coletivo com tantas pesquisas, esse olhar externo ajuda a construir diálogos, aproximações e também novos sentidos para o trabalho. Acho que a riqueza está justamente nessa diversidade: poder compartilhar processos, conhecer outras maneiras de pensar e perceber como o meu trabalho também se transforma quando entra em contato com o trabalho dos outros artistas. A bagagem e a sensibilidade da Ana são fundamentais para conduzir esse encontro e criar um espaço de troca", comenta Faing.

A diversidade de pesquisas é uma das características da produção reunida em "Vestígios". Entre os artistas residentes está o paulista Igor Romana, que retomou seus estudos visuais em 2021, no ateliê de José Paulo Latorre, onde aprofundou processos e técnicas de pintura e desenho. 

Sua pesquisa parte da figura negra e de um rigoroso estudo de observação para investigar formas de visibilidade de corpos e subjetividades frequentemente atravessados pela dinâmica racial. Em "Vestígios", Romana apresenta Green Goddess Calla Lily, realizada em 2026 e pertencente à série Flores no meu atelier. A obra marca, segundo o próprio artista, uma mudança de direção em sua produção recente.

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"É a proposta de uma mudança energética, tão intensa quanto o início de uma primavera que se impõe sobre o inverno rotineiro das minhas produções", afirma Romana. Para ele, a participação no coletivo também representa um momento importante de abertura de sua pesquisa para novos interlocutores. "Ter possibilidade de ter esse diálogo com as pessoas, nesse momento da minha carreira, é magnífico", completa Igor.

A troca entre os artistas é um dos grandes diferenciais de "Vestígios". Convivência essa que, para a artista visual Maria do Carmo Verdi, residente do Espaço, faz diferença na forma como os trabalhos chegam ao público. "Reunir trabalhos tão diversos, realizados em diferentes técnicas e materiais, permite acompanhar um pouco das questões que nos movimentam, nossas investigações e as reflexões que surgem no processo de criação. A convivência entre as diferentes poéticas é uma oportunidade de fortalecer os laços entre nós artistas. A exposição estabelece laços entre os artistas e o público", afirma a artista que apresenta sua obra da série Chuvisco, sua mais recente criação.

Um edifício transformado em território de criação 

A exposição acontece dentro de um projeto que, desde 2023, vem transformando um edifício tradicional do centro paulistano em um espaço de convivência e produção artística. 

Localizado na avenida São Luís, o prédio de 21 andares foi construído em 1957 pelo bisavô de Philip Haji-Touma, para ser o escritório da Companhia Real de Navegação Aérea, considerada a primeira empresa aérea privada do Brasil. Em dezembro de 2023, Haji-Touma criou o Espaço República, inicialmente com oito ateliês. A ideia surgiu em meio ao esvaziamento dos conjuntos comerciais da região na pandemia de Covid-19. Foi a partir deste cenário, que Philip, artista e empreendedor, decidiu transformar os andares do prédio num espaço de arte, incluindo ateliês que funcionam 24 horas. O projeto de arte também inclui apoio em curadoria, fotografia, montagem de mostras e assessoria, reunindo tudo que um artista precisa para desenvolver seu trabalho.

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Hoje, são 51 ateliês, uma galeria, uma sala de cursos e um programa de residência artística, ocupando 1.985 m² distribuídos por seis dos andares do edifício. Um andar do espaço abriga cursos e workshops, outro é totalmente voltado à exibição de obras, disponíveis para serem visitadas sempre de quinta-feira a sábado, inclusive com visitas guiadas. O objetivo é aproximar o público do processo de criação e reforçar a ideia de que a arte pode ocupar o cotidiano urbano. Desde a inauguração, já foram feitas 18 exposições de arte e cerca de 6 mil pessoas circularam pelo espaço em ativações e mostras. 

É nesse ambiente de convivência que a curadoria de Ralston procura identificar não apenas obras de arte isoladas, mas os possíveis diálogos entre diferentes pesquisas que dividem o mesmo endereço. O bairro da República aparece na lista dos 40 mais legais na edição mais recente de um ranking da revista britânica Time Out. Os editores avaliaram cada bairro com base em critérios como gastronomia e bebidas, vida noturna, comércio local, qualidade de vida e senso de comunidade. A lista traz uma mistura entre bairros residenciais e centros históricos e a República ocupa a 25ª posição.

A publicação destaca ainda o Espaço República. "A cena artística também está em alta, com instituições culturais imperdíveis como o recém-inaugurado Espaço República — um polo artístico com ateliês e espaços de exposição que atrai visitantes curiosos", diz a revista Time Out.

Para Haji-Touma, "Vestígios" ajuda a tornar visível uma produção que normalmente permanece restrita aos próprios ateliês. "Não existe outro espaço que consiga unir tantas pontas importantes da arte assim, de um jeito tão orgânico. A vontade é mostrar o Espaço República como um território de produção artística contínua, e a exposição é uma maneira de tornar esse percurso visível e criar um registro da produção que acontece aqui. Ter a Ralston com a gente nesta edição é fundamental. O olhar dela dá exatamente a maturidade que essa produção pede agora", diz o artista plástico Philip.

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Em sua segunda edição, "Vestígios: cartografias de gestos" acaba por registrar também um instante da cena artística que se desenvolve naquele trecho do centro de São Paulo. É um retrato necessariamente provisório: os artistas continuam trabalhando, os processos seguem se transformando e novas obras substituirão aquelas que, por algumas semanas, ocupam o espaço expositivo. A primeira edição da exposição, em setembro de 2025, reuniu obras de 19 artistas residentes do Espaço República. 

Talvez esteja aí o sentido mais amplo do título escolhido por Ralston. Um vestígio é aquilo que permanece de algo que passou, mas também a evidência de que alguma coisa continua acontecendo. 

SERVIÇO 

Vestígios: cartografias de gestos 

Vernissage: 24 de setembro, das 17h às 21h — para convidados e jornalistas Visitação: de 25 de setembro a 10 de outubro, de quarta-feira a sábado, das 12h às 18h Entrada: gratuita 

Ateliês abertos: 26 e 31 de setembro, das 12h às 18h (3º, 5º, 7º, 13º e 17º andares) Local: Espaço República — avenida São Luís, 86, República, São Paulo (SP) 

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