Dia do Trabalhador em Cena

1º de Maio: entre memória histórica e os desafios contemporâneos do mundo do trabalho

30 abr 2026 - 22h15

Por Álvaro Nicotti*

Foto: Divulgação / Porto Alegre 24 horas

O dia 1º de maio é feriado em diversos países e marca internacionalmente o Dia do Trabalhador. A data é tradicionalmente dedicada tanto ao descanso quanto à mobilização popular, sendo lembrada com manifestações em países da América do Sul e do México, em grande parte da Europa Ocidental, além de nações como Rússia, Índia, China e diversos países africanos.

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A origem da data remonta ao dia 1º de maio de 1886, quando trabalhadores dos Estados Unidos foram às ruas das principais cidades do país reivindicar a redução da jornada máxima de trabalho. O epicentro dos protestos ocorreu em Chicago, mas mobilizações semelhantes tomaram diversos centros urbanos. O crescimento das manifestações passou a representar forte enfrentamento às elites econômicas e políticas da época, culminando em violentos confrontos entre manifestantes e forças policiais, que deixaram centenas de feridos e trabalhadores mortos.

No Brasil, o Dia do Trabalhador assumiu ao longo do século XX uma dimensão também simbólica e institucional. Durante o período Vargas, a data foi incorporada como momento de celebração popular e anúncio de medidas trabalhistas. Nesse contexto, foram oficializadas importantes conquistas como a criação da Justiça do Trabalho, em 1941, e da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em 1943. O conjunto de 922 artigos consolidou e atualizou a legislação trabalhista brasileira, estabelecendo direitos fundamentais como jornada de trabalho regulamentada, férias remuneradas, previdência social, segurança no trabalho e salário mínimo.

Entretanto, o cenário contemporâneo aponta para profundas transformações no mundo do trabalho. Na histórica disputa de forças entre trabalhadores e elites econômicas — industriais, financeiras e oligárquicas —, observa-se um avanço contínuo sobre direitos historicamente conquistados, seja por meio de reformas legislativas, seja pela precarização das relações laborais e pela mudança cultural em torno da ideia de trabalho.

Ao mesmo tempo, cresce entre trabalhadores brasileiros a percepção de deterioração das condições materiais de vida. O aumento no custo de itens básicos, como alimentação e combustíveis, somado à estagnação do poder de compra, tem produzido sensação generalizada de sufocamento financeiro mesmo entre trabalhadores formais. Para muitos, chegar ao fim do mês sem sobras tornou-se realidade comum, inclusive entre famílias que dependem exclusivamente de serviços públicos.

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Nesse contexto, ganha força também o debate sobre o fim da escala 6×1, modelo em que o trabalhador atua seis dias consecutivos para apenas um de descanso. Críticos do sistema apontam que a jornada impõe desgaste físico e mental excessivo, reduz a convivência familiar e dificulta qualquer perspectiva de qualidade de vida, especialmente em setores de baixa remuneração. A discussão tornou-se símbolo de uma nova geração de reivindicações trabalhistas que busca não apenas melhores salários, mas também tempo, dignidade e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.

Diante desse novo cenário, analistas apontam que governos progressistas enfrentam o desafio de compreender e dialogar com uma classe trabalhadora cada vez mais pressionada economicamente e inserida em uma realidade política marcada pelo crescimento e aliança global da extrema direita e do neofascismo. Em um contexto de rearranjo político internacional, discursos tradicionais já não bastam para responder às complexidades do mundo do trabalho contemporâneo.

Mais de um século após Chicago, o 1º de Maio permanece atual: menos como celebração protocolar e mais como lembrete de que direitos trabalhistas nunca foram concessões espontâneas — sempre foram fruto de luta, organização e conflito social.

A seguir, indicação de filmes sobre esse tema

Você Não Estava Aqui

Ano: 2019

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Direção: Ken Loach

Resenha: Retrata a rotina brutal de uma família inglesa esmagada pela lógica da "uberização" do trabalho. Um entregador autônomo e sua esposa cuidadora enfrentam jornadas exaustivas, endividamento e o colapso da vida familiar. É uma das obras mais contundentes sobre precarização contemporânea.

Eu, Daniel Blake

Ano: 2016

Direção: Ken Loach

Resenha: Um carpinteiro adoecido enfrenta a burocracia do Estado de bem-estar britânico ao tentar acessar benefícios sociais. O filme mostra como até sistemas de proteção podem se tornar mecanismos de humilhação e exclusão.

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Tempos Modernos

Ano: 1936

Direção: Charlie Chaplin

Resenha: Clássico absoluto sobre alienação no trabalho industrial. Chaplin satiriza o fordismo, a mecanização da vida e a desumanização do operário nas linhas de montagem.

Parasita

Ano: 2019

Direção: Bong Joon-ho

Resenha: Embora não trate diretamente de relações trabalhistas formais, é um retrato poderoso sobre desigualdade estrutural, exploração econômica e mobilidade social impossível no capitalismo contemporâneo.

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Que Horas Ela Volta?

Ano: 2015

Direção: Anna Muylaert

Resenha: Analisa as relações de trabalho doméstico, hierarquia social e desigualdade estrutural no Brasil a partir da história de uma empregada doméstica e sua filha.

Eles Não Usam Black-Tie

Ano: 1981

Direção: Leon Hirszman

Resenha: Marco do cinema político brasileiro sobre greves operárias, sindicalismo e conflitos entre geração de trabalhadores e juventude periférica no final da ditadura.

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Germinal

Ano: 1993

Direção: Claude Berri

Resenha: Adaptação do romance de Émile Zola sobre mineiros franceses do século XIX. Um retrato brutal da exploração operária e da organização coletiva.

*Professor e editor do portal TemQueVer

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