Não é hora de Réveillon e Carnaval, diz Natalia Pasternak

Pelo menos 19 capitais, incluindo São Paulo, já cancelaram festas públicas de ano-novo após surgimento de nova variante do coronavírus

3 dez 2021 - 05h10
(atualizado às 08h03)
Natalia Pasternak
Natalia Pasternak
Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Independentemente da presença da variante Ômicron do coronavírus, o Brasil ainda não está pronto para a realização de festas com grandes aglomerações. Essa é a avaliação da bióloga Natalia Pasternak, doutora em microbiologia pela USP e presidente do Instituto Questão de Ciência (IQC). Em entrevista ao Estadão, ela destaca que, apesar da melhora de indicadores da pandemia, o cenário no País ainda exige cuidados.

A diminuição do número de casos, hospitalizações e mortes por covid-19 no Brasil no último trimestre deste ano, desde que a vacinação avançou, levou a uma onda de otimismo pelo fim dos protocolos sanitários. Mas, com o aparecimento da variante Ômicron e sua chegada ao Brasil, ao menos 19 capitais cancelaram os eventos de fim de ano esta semana, e outras dezenas de municípios desistiram de não realizar o carnaval.

Publicidade

No entanto, na avaliação da especialista, o cenário anterior não era propício à realização destas festas. "Precisamos esperar para ver como o vírus vai se comportar com a população vacinada. Não podemos retroceder no que avançamos até agora", disse.

Muitas cidades cancelaram as festas públicas de réveillon e várias também suspendram o carnaval com a confirmação da Ômicron. A decisão foi acertada?

Independentemente da Ômicron, não é o momento da realização de festas públicas com grande aglomeração. Estamos em um momento de controle para colher as pequenas conquistas que o Brasil tem no combate à pandemia, graças à vacinação em massa. Chegamos ao fim de 2021 com uma situação muito melhor do que víamos no ano passado, quando o recomendado era não fazer sequer festas de família. Isso agora é possível, mas não significa que festas tão calorosas como réveillon e carnaval já possam ser feitas de maneira desmedida. Precisamos esperar para ver como o vírus vai se comportar com a população vacinada. Não podemos retroceder no que avançamos até agora.

Apesar do cancelamento das festas públicas, os eventos privados ainda irão acontecer. É eficaz, no combate ao vírus, cancelar festas públicas e manter as privadas?

Publicidade

O cancelamento das festas públicas, mesmo com a manutenção das festas privadas, é eficaz para o controle da pandemia porque as festas públicas atraem pessoas de todas as idades, de todos os lugares e que estão vacinadas ou não. Nas festas privadas é possível estabelecer um controle de entrada, com protocolos como a exigência do comprovante da vacinação, do teste de covid-19 e de um número máximo de pessoas no espaço. O ideal, no entanto, é que não haja festas privadas com aglomeração, como boates e grandes shows. Isso é muito arriscado e pode comprometer.

O Estado de São Paulo anunciou nesta quinta-feira, 2, a antecipação da dose de reforço para quatro meses. A medida tem algum efeito prático no combate a uma nova variante?

Antecipar o período das doses de reforço é uma estratégia logística para defender a população melhor em menos tempo. Entretanto, não dá para antecipar para menos que quatro meses porque esse é o período mínimo necessário para uma boa dose de reforço imunológico. Do ponto de vista de estratégia imunológica, é melhor aumentar o período entre as doses porque quanto mais tempo, melhor o reforço na defesa. Entretanto, na condição que estamos hoje, com uma nova variante, a estratégia de reforçar a população o mais rápido possível faz sentido.

E o que o Brasil deveria estar fazendo a nível federal para conter a disseminação da nova variante?

O governo brasileiro precisa instituir o passaporte de vacinação. Não podemos transformar o Brasil num destino turístico de pessoas anti-vacinas, e é isso que vai acontecer se o passaporte não for instituído. O Brasil é um destino turístico interessante e, na hora que o mundo perceber que não está exigindo certificado de vacina, uma população que é contra a vacina pode ser atraída para cá.

Publicidade

O passaporte da vacinação precisa acontecer, assim como a exigência do teste, do rastreamento de contato, da quarentena para quem vem de fora. Isso tudo precisa ser instituído desde o início, mas nunca foi. E isso faz mais sentido que fechar fronteiras para alguns países específicos.

"Questão de tempo", diz especialista sobre ômicron no Brasil
Video Player
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se