Economia britânica sofreu impactos negativos, e migração continua no centro da pauta política. Segundo pesquisa, cerca de metade dos eleitores hoje gostaria de voltar ao bloco europeu.Dez anos depois do referendo do Brexit, a saída britânica da União Europeia (UE) continua a dividir o Reino Unido. Para alguns, foi a concretização da vontade democrática dos eleitores. Para outros, a decisão histórica, cujo aniversário se completa nesta terça-feira (23/06), roubou oportunidades.
Foram 17 milhões de eleitores (52% dos que compareceram às urnas) que saíram vitoriosos da votação naquele 23 de junho de 2016. Apesar da margem estreita, a decisão levou à mudança mais drástica na economia e na sociedade britânicas desde a Segunda Guerra Mundial.
Concretizado passo a passo ao longo de cinco anos, o divórcio abalou um projeto de meio século de aproximação entre o Reino Unido e o resto da Europa. Enquanto isso, a cisão entre opositores e defensores se tornou tão demarcada quanto aquela entre direita e esquerda, moldando alianças políticas desde 2016.
"Até hoje não vivi nem vi nenhum benefício concreto, nem para mim nem para o país. Então, valeu a pena? Não. Obviamente não," diz a artista Madeleina Kay, parte do Movimento Jovem Europeu, que quer facilitar a vida, os estudos e o trabalho de jovens no espaço da UE. Eles entregaram recentemente uma petição ao agora ex-primeiro-ministro Keir Starmer, antes da sua renúncia na segunda-feira.
O Brexit nasceu de um crescente sentimento de frustração não apenas com a UE, mas também com a crise financeira global de 2008. Seus defensores souberam apelar a esse descontentamento, argumentando que o Reino Unido, sozinho, poderia se revitalizar, dedicar-se às suas prioridades domésticas e economizar centenas de milhões de libras esterlinas.
O impacto do Brexit na economia do Reino Unido
Os opositores, por sua vez, alertaram que o Brexit causaria disrupturas econômicas e colocaria em risco a posição internacional do país.
De fato, desde então, os bolsos dos britânicos sentiram o impacto: especialistas calculam que a economia britânica está entre 4% e 8% menor do que se o país tivesse permanecido na UE.
Isso significaria padrões de vida mais altos e bilhões a mais para serviços públicos, incluindo o sistema de saúde, que havia sido prometido como beneficiário de 350 milhões de libras por semana durante a campanha do Brexit.
"O Brexit tornou a economia do Reino Unido menor do que ela seria", afirma Jonathan Portes, professor do King's College London. "O efeito não foi um colapso repentino, mas um enfraquecimento gradual e cumulativo do comércio, do investimento e da produtividade."
Já as exportações de bens do Reino Unido para a UE - de longe, ainda o principal parceiro comercial britânico - caíram 14% em seis anos. Embora não haja tarifas para produtos britânicos que entram na UE, existem diversas barreiras não tarifárias, como burocracia aduaneira, certificações e restrições de visto.
"Não houve vencedores nos últimos 10 anos", afirmou Richard McKenna, diretor de uma empresa de horticultura. "Ficou mais difícil, mais caro e mais burocrático negociar com a Europa."
Também as vendas para países fora da UE diminuíram, já que a Grã-Bretanha deixou de ser uma porta de entrada para o mercado europeu. Muitos acordos comerciais prometidos pelos defensores do Brexit, especialmente com os Estados Unidos, não se concretizaram.
Defensores do Brexit afirmam que seus efeitos não podem ser avaliados no curto prazo e que uma fase inicial de ajuste era inevitável em troca de maior controle sobre políticas, especialmente na temática da migração.
O efeito do Brexit na migração
O Brexit encerrou a livre circulação entre o Reino Unido e a UE, e os resultados no controle de fronteiras são mistos. Reduzir a imigração foi uma promessa central dos defensores do divórcio com o bloco europeu para o eleitorado conservador.
A migração líquida da Europa caiu, enquanto aumentou significativamente a de países fora da UE, em parte devido a mudanças nas regras de visto para suprir a falta de mão de obra em setores específicos, como o de cuidados para idosos.
Ainda assim, há sinais de redução: o saldo migratório caiu de mais de 900 mil em 2023 para 171 mil no ano passado. Enquanto isso, a chegada irregular de migrantes por pequenas embarcações pelo Canal da Mancha continua gerando forte reação pública e tornou-se uma questão política central.
Para o maquinista de trem Neil Connelly, que fez campanha em favor do Brexit, a saída foi a escolha certa. Ele continua a atribuir os problemas econômicos à imigração. "Parece que eles estão decididos a colocar o maior número possível de pessoas na região, sem nenhum plano de integração. Mais gente, sem levar em conta as instalações necessárias, como o hospital."
Metade dos eleitores quer voltar à UE
Nos anos seguintes ao Brexit, o cenário político britânico fragmentou-se, com queda no apoio aos partidos tradicionais, o Conservador e o Trabalhista.
Segundo pesquisas do Ipsos, 52% dos britânicos gostariam de reingressar na UE, enquanto 33% são contrários. Outros levantamentos apontam que 48% avaliam o Brexit como pior do que o esperado, contra apenas 9% que o consideram melhor.
O Partido Trabalhista, no governo desde 2024, tentou equilibrar posições. No seu mandato recém-encerrado, o primeiro-ministro Keir Starmer descartou reverter o Brexit, mas buscou redefinir relações com a UE, especialmente para facilitar o comércio.
Agora, o país deverá eleger o sétimo primeiro-ministro em dez anos. Antes de Starmer, ocuparam o cargo os conservadores Rishi Sunak, Liz Truss, Boris Johnson, Theresa May e David Cameron.
ht/ra (AP, DW, ots)