Zuzu Angel: o legado da estilista morta pela ditadura há 50 anos

13 abr 2026 - 11h11

Brasilidade em tempos de eurocentrismo da moda e uso das passarelas como forma de expressão política marcaram carreira da brasileira que se engajou contra o regime autoritário que comandava o país.A sede do consulado brasileiro em Nova York se tornou palco de um pioneiro desfile-protesto em setembro de 1971. O ousado evento em desagravo à violência da ditadura militar que vigorava no Brasil foi concebido pela estilista Zuleika de Souza Netto, a Zuzu Angel (1921-1976), quatro meses depois do desaparecimento de seu filho, o estudante universitário Stuart Edgart Angel Jones (1946-1971), preso, morto e torturado pelas forças repressores a serviço do governo brasileiro.

"Ela chegou toda de preto, com véu preto", conta a jornalista Hildegard Angel Bogossian, a Hilde, filha de Zuzu e presidente do Instituto Zuzu Angel de Moda - instituição criada em 1993 para preservar o legado da estilista. "Minha irmã também foi de preto e tocou no violão 'Tristeza, por favor vá embora…'." Era o samba Tristeza, obra de 1963 composta por Nilton de Souza (1936-2018) e Haroldo Lobo (1910-1965).

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Autora do livro Marketing de Luxo Contemporâneo e professora de moda na Escola Superior de Propaganda e Marketing, a consultora Maya Mattiazzo situa este evento como o marco inicial do uso da moda como ferramenta de posicionamento político.

A essa altura Zuzu Angel já era visada pelos órgãos de repressão da ditadura - e seguiria tendo seus passos acompanhados de perto até o fim da vida. Um relatório do Serviço Nacional de Informações (SNI) datado de abril de 1974, por exemplo, a qualifica como uma costureira que não acreditava "no fato" de que seu filho havia sido morto "em face de um choque entre subversivos e a polícia". Segundo o documento, ela realizava "desfiles de modas nos Estados Unidos" com o objetivo de "causar um grande impacto" na opinião pública ao apresentar trajes com motivos "exóticos".

Em 14 de abril de 1976, há exatos 50 anos, Zuzu Angel sofreu um acidente de carro depois de derrapar seu Karmann Ghia TC na saída do túnel Dois Irmãos, no Rio. Uma semana antes ela havia deixado uma carta na casa do seu amigo Chico Buarque de Hollanda dizendo que se aparecesse "morta, por acidente ou outro meio", teria sido por "obra dos assassinos do meu amado filho".

No ano seguinte, Chico Buarque lançaria a música Angélica, em homenagem à Zuzu Angel e sua luta contra a ditadura. Em 2014, na Comissão Nacional da Verdade, um ex-agente da repressão que atuou como delegado do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) confirmou que o acidente foi causado por agentes da ditadura. Cinco anos depois, a filha Hilde conseguiu o atestado de óbito reconhecendo que a estilista morreu de forma "não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro, no contexto da perseguição sistêmica e generalizada à população identificada como opositora ao regime ditatorial".

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Costureira inovadora

Zuzu nasceu em Curvelo, no interior de Minas Gerais. Ainda pequena, ajudava a mãe a costurar para fora e, no tempo livre, gostava de brincar com retalhos fazendo roupinhas para bonecas suas e das primas. Ela se mudou para o Rio aos 18 anos, sozinha, trabalhando por conta própria como costureira.

Em 1940, conheceu o empresário americano Norman Angel Jones. Três anos depois eles se casariam. Da união, nasceriam os três filhos do casal, Stuart, Hilde e Ana Cristina. O casal se separou em 1960 - como não havia divórcio no Brasil, desquitaram-se.

A fase criativa de Zuzu Angel começou na década de 1950. A partir de então ela não mais se limitava a apenas copiar modelos - passou a desenhar roupas. Em vez de reproduzir os consagrados estilos europeus que ditavam as tendências, passou a usar elementos, cores, materiais e estampas que tivessem a ver com o Brasil.

"Ela se insurgiu contra a colonização da moda brasileira", comenta Hilde. "Achava que o Brasil tinha fontes de inspiração muito mais legítimas e interessantes do que simplesmente repetir o que os estrangeiros faziam."

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A filha conta que a Zuzu usava materiais como renda, bambu, conchas e tecidos extremamente simples - comprados em feiras-livres do Rio ou mesmo em lojas populares. "Transformava o simples em coisas luxuosas", afirma Hilde.

"Ela era a contramão da estética sofisticada da época", complementa a especialista Mattiazzo. Se parte da clientela e os estilistas concorrentes costumavam torcer o nariz para isso, ela acabou ganhando notoriedade entre artistas e uma visibilidade internacional. Dali em diante, Zuzu passou a circular como uma respeitada designer de moda nos Estados Unidos e a realizar desfiles expondo suas criações lá.

Celebridades se tornaram suas clientes, como as atrizes americanas Joan Crawford (1906-1977), Kim Novak e Liza Minnelli e a canadense Yvonne De Carlo (1922-2007).

Bem-relacionada, ela também chegava à elite brasileira. Mulher do presidente que instituiu o famigerado Ato Institucional Número Cinco (AI-5), a primeira-dama Yolanda Barboza da Costa e Silva (1907-1991) usou um vestido feito por Zuzu Angel quando recepcionou a rainha da Inglaterra, Elizabeth 2ª (1926-2022), em visita ao Brasil.

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Das cores ao luto

Depois do desaparecimento de seu filho Stuart, houve uma guinada na carreira criativa de Zuzu Angel. As cores e a alegria deram lugar ao luto e à denúncia ao regime autoritário que vigorava no Brasil.

"Seu trabalho não se limitou ao vestuário. Configurou-se como forma de expressão crítica", pontua a consultora de imagem Janice Accioli Ramos Rodrigues, professora de design de moda na Universidade Anhembi Morumbi.

Nas estampas, os anjinhos alusivos ao seu sobrenome-marca também passavam a representar seu filho morto. Gaiolas eram indicativo da violência, do controle, da censura. Sangue, tanques de guerra e canhões foram incluídos entre os motivos. Tudo em tons mais sóbrios - ela própria comumente vestia preto, como no histórico desfile-protesto ocorrido no consulado de Nova York.

Legado

"Sua obra permanece relevante e influencia estilistas e estudantes atuais, gente que busca nela inspiração estética e conceitual. Tornou-se referência para se pensar a moda brasileira", diz Rodrigues.

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Para quem trabalha ensinando novas gerações de estilistas e especialistas em moda no país, o legado de Zuzu Angel transcende o ativismo político. Ela é vista como precursora de uma estética decolonial do vestir, assumindo a brasilidade em tempos de hegemonia eurocêntrica no setor. E também uma ousada mulher que enxergou nas passarelas uma plataforma de expressão contra a censura que tentava calar os opositores. Com talento e genialidade.

A professora Rodrigues avalia que o legado de Zuzu Angel conseguiu ultrapassar "a dimensão estética" alcançando os campos "político, cultural e simbólico".

"Ela elevou o nome do Brasil e levou o país para o universo internacional da moda", destaca Mattiazzo.

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