A campanha presidencial para o primeiro turno chega à reta final polarizada entre Lula e Flávio Bolsonaro, sem que a terceira via ganhasse força. Marcada pela rivalidade nas redes sociais e disputas judiciais, a corrida teve o debate da TV Globo cancelado após a desistência de Flávio, motivada pela inclusão de Renan Santos, e a recusa prévia de Lula. Enquanto o petista foi a um podcast defender sua gestão, o candidato do PL focou em ataques em transmissão online, em um cenário eleitoral ainda dividido.
Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília
Quem anda pelas ruas da capital federal não sente bem o clima da eleição. Diferentemente de quatro anos atrás, quando eleitores vestiam camisetas e exibiam a bandeira do Brasil e faixas em suas janelas, a eleição desta vez empolgou menos as ruas e se acirrou mesmo nas redes sociais e no poder Judiciário.
Mas isso não significa que a rivalidade diminuiu. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) polarizaram a disputa mostrando que o Brasil continua dividido e que não houve nomes do meio capazes de impactar a disputa dos dois.
O candidato do Missão, Renan Santos, surpreendeu angariando apoio de jovens, especialmente na internet, mas não deslanchou nas pesquisas.
Já Augusto Cury, do Avante, chegou a atrair os holofotes atingindo 10% das intenções de voto, mas logo desidratou. Ao mesmo tempo, nomes conhecidos da política como Ronaldo Caiado, do PSD, e Romeu Zema, do Novo, não avançaram.
Debate cancelado
O sonho desses coadjuvantes de ocupar um espaço ao vivo na reta final da campanha em um canal aberto de televisão acabou caindo por terra. A desistência em cima da hora de Flávio Bolsonaro e um "vai e vem" de decisões judiciais acerca das regras e dos participantes levaram a TV Globo a cancelar o debate com os presidenciáveis que movimentaria a noite desta quinta-feira.
Lula já havia comunicado dias antes que não estaria presente. Os memes nas redes sociais sobraram para Flávio, que havia confirmado, mas cancelou sua participação assim que a presença de Renan Santos, um ávido crítico dos dois principais candidatos, foi assegurada por decisão de Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal.
"O medo que Flávio Bolsonaro tem de mim o levou a cancelar a participação no debate apenas três minutos depois que minha presença foi confirmada", falou em vídeo o candidato do Missão.
O PL organizou uma transmissão pela internet com presença de vários aliados políticos onde a tônica foram os ataques ao adversário do PT.
"O povo nordestino e o povo brasileiro abriu o olho e não acredita mais nas suas promessas. Você já deu. O povo está cansado de você. Vai para casa descansar, Lula. Deixa o Brasil em paz", declarou Flávio Bolsonaro.
Já Lula participou de uma entrevista ao vivo no podcast Flow no mesmo horário do debate da TV, onde focou em programas desenvolvidos por sua gestão. Também se defendeu de acusações do passado.
"Os meus princípios continuam os mesmos. Eu sei de onde eu vim, sei para onde vou. Quando eu estava sendo acusado na Lava Jato, eu cansei de desafiar empresário, banqueiro, meus inimigos. Mostre um telefonema meu. Mostre um centavo depositado na minha conta. E nunca teve", ressaltou Lula.
A voz do eleitor
A dois dias da eleição, o clima é de uma esquerda um tanto apreensiva e de uma direita um pouco mais confiante. A RFI conversou com eleitores nas ruas de Brasília.
"Só de pensar que a família Bolsonaro pode voltar ao poder, dá um certo medo. A gente viu o que aconteceu com quatro anos de Bolsonaro. E o Flávio todo submisso ao governo dos Estados Unidos, dá uma apreensão", disse o estudante de arquitetura João Martins, que vai votar eleitor em Lula.
"Eu estou muito esperançoso, gostando bastante do atual cenário. Eu vou votar no Flávio Bolsonaro e a gente espera mudar o Brasil daqui pra frente. Acho que ele tem muita chance de vencer, muita mesmo. Acho que agora vai", declarou o analista de sistema Bruno Luís.
Mas tem eleitor com menos convicção. É o caso da diarista Terezinha Moreira, que afirma não ter candidato. "Não sei, acho que porque não confio mais em ninguém. Acho que vou votar tudo nulo".
Mesmo tom do eleitor Alef de Oliveira, proprietário de um lava jato em Brasília. "Eu estou um pouco indeciso ainda, estudando mais sobre os candidatos, mas já vi muita coisa que de Flávio e Lula que me desanimou. E até o momento meu candidato é o Caiado. Num segundo turno tendo a ficar com Lula. Ainda preciso escolher deputado e senador, ainda não decidi."