A TV Globo cancelou o debate presidencial após uma série de reviravoltas judiciais e políticas horas antes da transmissão. O evento foi inviabilizado pela recusa de Lula, decisões do TSE e do STF que impuseram a inclusão de candidatos e vetaram o púlpito vazio para ausentes, além da desistência de Flávio Bolsonaro. Pela primeira vez desde 2002, a emissora não exibiu o encontro no 1º turno, apontando insegurança jurídica e interferência indevida na liberdade de imprensa para organizar o evento.
Após desistência de Flávio Bolsonaro e decisões judiciais que alteraram formato de debate, Globo decidiu cancelar o evento. Entenda a sequência de eventos.A TV Globo cancelou o debate presidencial que ocorreria nesta quinta-feira (01/10) após o candidato Flávio Bolsonaro (PL) desistir em cima da hora de participar do evento, na esteira de uma série de decisões judiciais que alteraram o formato inicialmente previsto pela emissora.
O debate, que já vinha sendo anunciado desde a semana passada, seria o último antes do primeiro turno das eleições presidenciais e estava previsto para começar às 21h30. A decisão do cancelamento foi anunciada às 20h40, menos de uma hora do início. É a primeira vez desde 2002 que a Globo não transmite um debate no primeiro turno
Veja como foi a sequência de eventos que precipitaram o cancelamento:
Quarta-feira (23/09): Globo convida apenas quatro candidatos ao debate
A TV Globo divulga que convidou quatro candidatos para o debate dos presidenciáveis a ser realizado em 1º de outubro: Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Augusto Cury (Avante) e Ronaldo Caiado (PSD).
Anteriormente, apenas Cury e Caiado haviam participado de um debate, na TV Bandeirantes, em 23 de agosto, que foi ignorado tanto por Lula quanto por Flávio. Posteriormente, dois debates, um da Record e outro de um consórcio de veículos, também foram cancelados após Lula e Flávio informarem que não participariam.
Ao elaborar a lista de convidados, a Globo levou em conta uma regra prevista na legislação eleitoral que garante a participação apenas dos candidatos de partidos que tiverem elegido ao menos cinco parlamentares federais na última eleição.
Pela avaliação da emissora, Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) não se enquadravam na regra. Mas a Globo também informou que caso um dos candidatos convidados faltasse, a emissora poderia chamar um substituto.
Sem o convite, o partido Missão de Renan Santos divulgou que pretendia organizar um protesto na frente da emissora no dia do debate. Em agosto, Renan havia sido convidado para o debate da Band mesmo sem seu partido atender ao critério de cinco representantes no Congresso.
Domingo (27/09): Flávio confirma que vai ao debate
Após faltar o primeiro debate na TV Band, a exemplo do presidente Lula, Flávio Bolsonaro confirmou que pretendia participar do encontro organizado pela Globo. A decisão foi tomada em meio a pesquisas que apontam empate técnico nas intenções de voto dos dois candidatos, com uma ligeira vantagem para o petista.
"Vou no debate da Globo. Está confirmado. Ele [Lula] que lute. Eu quero ir para lá debater com ele. Eu estou chamando o Lula para o debate: 'Lula, eu quero você no debate da Globo, vem debater comigo porque eu vou esfregar verdade na sua cara e vou mostrar que o meu projeto de Brasil é melhor que o seu", disse Flávio no domingo.
Na ocasião, Flávio garantiu que iria ao debate mesmo que Lula desistisse.
Terça-feira (29/09): Zema garante na Justiça participação no debate
Inicialmente não convidado para o debate na Globo, o presidenciável Romeu Zema (Novo) conseguiu assegurar sua participação após uma decisão do ministro Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A decisão atendeu a um pedido do Novo, que havia argumentado que atendia à representação mínima de cinco representantes no Congresso para assegurar a presença de candidatos do partido em debates. No caso, a Globo havia entendido que o critério não se aplicava por que dois desses cinco representantes haviam se filiado ao partido após o pleito de 2022. Nunes Marques, no entanto, acatou a argumentação do Novo que devia prevalecer o número atualizado de parlamentares.
Quarta-feira (30/09): campanha de Lula anuncia que petista não vai
Após dias em silêncio, a campanha de Lula informou à TV Globo que ele não compareceria ao debate.
Nos bastidores, aliados do petista vinham tentando convencer Lula a comparecer, mas prevaleceu a avaliação de que o encontro de que o presidente poderia ser alvo dos demais candidatos, e que, com sua ausência, Flávio poderia acabar entrando na mira em seu lugar.
Em vez de comparecer ao debate, Lula optou por participar de uma entrevista ao podcast Flow no mesmo horário.
Quinta-feira (01/10), 3 horas antes do debate: ministra do TSE manda retirar púlpito vazio de Lula
Nos dias que antecederam o debate, representantes de campanhas dos candidatos convidados, inclusive do PT, assinaram uma ata atestando que estavam de acordo com uma regra que previa que o púlpito reservado para os candidatos seria mantido mesmo com ausência.
"Se algum candidato convidado faltar ao debate, o seu lugar permanecerá vazio, com uma placa que o identifique pelo nome. Na vez em que, pelo sorteio, faria a pergunta, seu lugar será mostrado com mais destaque e o mediador lembrará que ele não compareceu ao debate", dizia a regra.
No entanto, na quarta-feira, a Coligação Brasil Pronto Pra Mais, da qual o PT faz parte, acionou o TSE para que o púlpito fosse retirado. No debate da Band, em agosto, os púlpitos vazios de Lula e Flávio Bolsonaro foram exibidos normalmente. Na ocasião, a imagem de ausência foi explorada pelos candidatos que compareceram, especialmente Renan Santos, que chegou a tentar colocar um cartaz com a palavra "ladrão" no espaço reservado a Lula.
O pedido para retirar o púlpito do debate da Globo foi atendido pela ministra Estela Aranha, do TSE.
Segundo a ministra, a exibição da cadeira vazia, "associada à identificação nominal do candidato e ao destaque específico de sua ausência durante a transmissão, pode produzir efeitos que transcendem a simples informação ao eleitorado acerca do não comparecimento". Ela ainda entendeu que manter o púlpito vazio de candidatos que escolhem não ir ao debate os impele a comparecer, tirando qualquer caráter de escolha.
Cerca de 2 horas antes do debate: Gilmar Mendes, do STF, manda incluir Renan no debate
Após ter pedidos para ter sua participação assegurada no debate negada pelos ministros Nunes Marques, do TSE, e Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), Renan Santos finalmente conseguiu uma decisão favorável pelas mãos do ministro Gilmar Mendes, em decisão monocrática. A decisão atendeu a um pedido feito pelo partido Solidariedade.
"No caso concreto, de fato me parece que a exclusão do candidato Renan Santos do debate presidencial a ser realizado pela Rede Globo se mostra indevida", escreveu Gilmar, que entendeu ainda que a participação de Renan no debate deveria "ser assegurada em atenção aos postulados da liberdade de expressão e do pluralismo político".
Anteriormente, Nunes Marques havia rejeitado pedido semelhante entendendo que a Globo não seria obrigada a convidar um candidato que não atendesse critérios de representatividade. Cármen Lúcia, por sua vez, não analisou o mérito, apontando apenas que o instrumento jurídico utilizado no pedido não era apropriado para esse caso.
Notícias sobre a potencial decisão de Gilmar já haviam começado a surgir na imprensa cerca de três horas e meia antes do início do debate, mas só foram confirmadas duas horas antes.
2 horas antes do debate: Flávio desiste
Após a decisão sobre púlpito e a divulgação na imprensa de que Gilmar pretendia garantir a presença de Renan, Flávio Bolsonaro anunciou que estava desistindo de participar do debate.
No anúncio, Flávio se referiu apenas à decisão do TSE sobre o púlpito. "Acabo de tomar a decisão de não ir ao debate da Globo em função da censura imposta ao evento pelo TSE. A imprensa tem que ser livre e as eleições limpas", escreveu o candidato na rede X.
Segundo veículos da imprensa, a campanha de Flávio havia desenhado sua estratégia em expor a ausência de Lula e explorar a imagem do púlpito vazio.
Mas alguns jornalistas apontaram que a presença inesperada de Renan também teria pesado na decisão de Flávio. "O Flávio Bolsonaro pode ser acusado de fugir do Renan Santos, porque sabidamente viria para instigá-lo? Sim. Pode ser sim, ele tinha exigido antes que não viria por causa do Renan Santos, aí vem o Renan Santos e ele saiu. Isso também é verdade", disse a jornalista Malu Gaspar no canal Globo News.
50 minutos antes do debate: Globo cancela o debate
Após as reviravoltas judiciais e a desistência de Flávio Bolsonaro, a TV Globo anunciou que estava cancelando o debate.
Em nota, a emissora disse que "as sucessivas decisões judiciais tomadas momentos antes da realização do debate causam insegurança jurídica e representam uma interferência indevida na liberdade que os veículos de imprensa têm de organizar os debates eleitorais".
Na mesma nota, a TV Globo especificou que as decisões judiciais que "interferiram nas regras" incluíram a proibição da exibição do púlpito vazio pela ministra Estela Aranha, do TSE, e as medidas tomadas por Nunes Marques e Gilmar Mendes para garantir as presenças de Zema e Renan.
Mais tarde, um editorial publicado pelo jornal O Globo, do mesmo grupo da TV Globo, foi mais direto em criticar Estela Aranha, destacando que ela foi "indicada ao cargo pelo próprio Lula" e que sua decisão teria criado "um desequilíbrio em favor do candidato petista, em detrimento dos demais postulantes ao Planalto".
Na sequência do cancelamento, jornalistas da TV Globo também concederam microfone para que Flávio, Cury e Caiado criticassem as reviravoltas judiciais. Zema, que garantiu sua presença graças a uma decisão dessas, também foi ouvido. "O que nós estamos vendo é a politização total do Judiciário", disse. Renan não foi ouvido e reclamou que não teve sua entrada autorizada na sede da Globo.
21h30, horário previsto para o debate: Lula fala em podcast; Flávio faz live; Renan lidera protesto
Às 21h30, horário que havia sido originalmente previsto para o início do debate, três dos candidatos acabaram participando de outros eventos.
Lula, que já havia dito que não participaria na quarta-feira, usou o horário para falar ao podcast Flow. Na conversa, ele criticou o formato dos debates. "Quando você tem debate com cinco ou seis candidatos, você fala um minuto e espera dez. Esses debates são infrutíferos e não produzem nada. Aí, o pessoal começa a fazer gracinha e quando você está num debate pela Presidência, você está discutindo o país, é sério", disse Lula.
Paralelamente, Flávio fez uma transmissão em suas redes na qual chamou Lula de "fujão" e disse que o presidente "usou seus amigos no Judiciário para impor a censura a esse debate".
Já Renan liderou um protesto com apoiadores em frente à sede da emissora, no Rio de Janeiro. "Que país é esse em que os dois primeiros colocados fogem como o diabo foge da cruz da droga de um candidato? A real é a seguinte: foi armado um jogo de cartas marcadas chamado de debate", disse Renan. Duas horas depois, vídeos mostraram PMs avançando sobre os participantes para dispersar a manifestação.
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