Segurança, religião, estagnação: como a classe C virou um eleitorado essencial do bolsonarismo

Muitos deles ascenderam economicamente graças às políticas sociais dos governos da esquerda, mas agora querem mais: as populações urbanas de renda média e baixa, a chamada classe C, estão cada vez mais à direita no Brasil. Não à toa, este eleitorado decisivo foi o principal alvo das campanhas dos dois candidatos à presidência no segundo turno, disputado neste domingo (25).

24 out 2026 - 14h34
Resumo
Pesquisas mostram a preferência da classe C por Flávio Bolsonaro frente a Lula, reflexo da adesão aos discursos de direita por eleitores de renda intermediária. Segundo analistas, a identificação se apoia na sensação de estagnação econômica e no apelo ao esforço individual, além da demanda por segurança pública mais rigorosa nas periferias afetadas pela violência. O conservadorismo moral e religioso consolida esse apoio, impondo à esquerda o desafio de rever suas pautas de segurança e costumes.

Lúcia Müzell, enviada especial da RFI a São Paulo

No primeiro turno, pesquisas de opinião mostraram que os eleitores com renda de dois a cinco salários mínimos tendem a preferir eleger Flávio Bolsonaro, do PL, à reeleição do atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, ícone do combate às desigualdades sociais no país. 

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Levantamento do instituto Meio/Ideia constatou que nas seções eleitorais frequentadas por votantes da classe C, principalmente nas periferias das grandes metrópoles, o resultado de Flávio disparou a 53% dos votos, 16% a mais do que para Lula, com 37%. Nesta semana, o Datafolha previu que o candidato da direita deve ficar com 54% no segundo turno nesta faixa da população, contra 39% para Lula. 

Os dados não são vistos com surpresa por especialistas ouvidos pela RFI. "Uma parte majoritária do grupo de nível de renda intermediário tem apoiado as últimas candidaturas à direita e extrema direita, seja do Jair Bolsonaro, seja agora do Flávio Bolsonaro", afirma o sociólogo Leonardo Fontes, professor da Unicamp e reconhecido pelas pesquisas sobre o perfil socioeconômico dessas populações e a ascensão da extrema direita nas periferias urbanas. 

Fontes explica que os mais conservadores não necessariamente ascenderam na mobilidade social, mas permaneceram nesse grupo ao longo dos últimos 15 anos. Ao mesmo tempo, essas pessoas viram brasileiros das classes mais baixas se aproximarem do seu padrão de vida e os de classes médias altas e superiores se afastarem, rumo à riqueza. Ou seja, sentem-se estagnadas.

'Uber de direita'

"As estatísticas não nos permitem dizer que necessariamente foi quem ascendeu socialmente que teve essa mudança no voto", aponta o professor da Unicamp e coordenador do Núcleo de Etnografias Urbanas do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). 

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"Mesmo que não seja uma estagnação de um ponto de vista objetivo, afinal elas podem ter tido algumas melhoras em termos econômicos ou de acesso à educação superior, a melhores postos de trabalho, mas elas sentem, de um ponto de vista subjetivo, que não estão melhorando ou que estão até piorando, na comparação com o estrato social inferior", complementa.

Foi nesta brecha que os candidatos de direita tiveram sucesso ao trazerem o discurso crítico aos benefícios sociais, cujo acesso é minoritário na classe C, e de estímulo ao empreendedorismo - com a emergência da figura do "motoboy" ou o "Uber de direita".

Em São Paulo, eleitores acompanham debate de candidatos a dois dias do segundo turno das eleições no Brasil. (23/10/2026)
Em São Paulo, eleitores acompanham debate de candidatos a dois dias do segundo turno das eleições no Brasil. (23/10/2026)
Foto: RFI

Em São Paulo, maior colégio eleitoral do Brasil e motor econômico do país, esse perfil é fácil de encontrar. "O Lula só sabe gastar com pobre porque é o que dá voto. Para a gente, autônomos, não tem nada. Só os preços de tudo subindo", comentou o motorista de aplicativo Rodrigo.

"Os caras estão no governo há quase 20 anos e a gente não sai do lugar", disse à RFI o artista Deivid, enquanto assistia ao segundo debate entre os candidatos em um bar dos arredores da Avenida Paulista. "Eu sou de direita porque tudo que conquistei foi pelo meu esforço. Nunca precisei da ajuda de governo nenhum, nem da Lei Rouanet", frisou.

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O sociólogo Leonardo Fontes sublinha que a ascensão da própria família Bolsonaro ao poder - que jamais fez parte das elites políticas e econômicas do país - é vista como um exemplo e é um fator determinante para a identificação das classes populares com o discurso do PL. 

Bairros populares são os mais atingidos por crimes violentos

O segundo aspecto igualmente importante para a adesão ao bolsonarismo é a segurança pública. Nesta eleição, que se anuncia como a mais apertada da história da era democrática, o PT volta a pagar o preço de ter menosprezado o combate ao crime.

"A classe C é muito importante para a origem do movimento que eu tenho chamado de um movimento totalitário) que avança no Brasil e pensa a segurança como o seu núcleo duro", resume o cientista social Gabriel Feltran, um dos maiores especialistas em violência nas periferias urbanas brasileiras. "A retórica de guerra ao crime funciona para quem está sentindo a criminalidade perto."

As facções criminosas que controlam territórios urbanos pelo país contratam os jovens das favelas para fazerem roubos e eles atuam perto, nos bairros populares, e não nos de elite, que contam com a proteção da segurança privada. A classe C é a mais atingida pela insegurança e os crimes violentos - e não vê resultados na ação do Estado para conter as estatísticas.

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"Essas pessoas vão buscar uma solução para a segurança e ela é pensada como uma guerra, e não mais uma área de política pública. Ela é vista como um lugar de voluntarismo, de ser soldado nessa guerra contra o bandido e se eu ganhar, eu vou ser um herói", detalha Feltran, pesquisador do Centro de Estudos Europeus e Políticas Comparadas da Sciences Po Paris.

Assim, "uma essência boa por pressuposto" é atribuída à polícia, independentemente dos abusos que possam cometer em ação, e "uma essência má" é associada aos criminosos. "A polícia pode entrar na favela e matar 120 pessoas, porque ela está do lado certo e ela está limpando a sociedade dos maus", resume.

É por isso que, neste segmento do eleitorado, as acusações de ligações de Flávio com milicianos não surtem efeito. "Na cabeça de quem está ideologizado, não é ruim de ser miliciano. O miliciano está do lado bom: ainda que ele cometa crimes, ele comete crimes pelo lado certo contra o bandido, porque ele é amigo da polícia", aponta o especialista.

Conservadorismo religioso

Leonardo Fontes chama a atenção ainda para uma terceira vertente que completa a tríade do voto da classe C em Flávio: as pautas conservadoras de costumes, difundidas tanto por templos evangélicos, quanto por igrejas católicas nas grandes cidades e subúrbios. 

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"O conservadorismo religioso não está só ligado às igrejas evangélicas, como se fala muito. Toda a história do Brasil, de ser um país de tradição católica religiosa, com valores bastante conservadores, de família tradicional, pesa bastante", afirma o sociólogo. "É essa dimensão moral de que quem se comporta de determinada maneira merece mais, então um bom pai de família, que é trabalhador e não é bandido, que trabalha, se esforça muito, deveria receber mais recompensas por parte da sociedade", completa.

Os dois especialistas salientam que a reconexão da esquerda com esse segmento da sociedade deverá passar por políticas efetivas de segurança pública, como Lula tem prometido entre os dois turnos. 

"A esquerda acreditou em um consenso muito equivocado de que o ideal de segurança pública é não ter segurança pública, e sim dizer que é um problema social. Aí você abandona o campo para que a direita e a extrema direita ocupem", diz Feltran. "A gente tem problemas muito sérios que deveriam ser tratados tecnicamente, a partir de evidências, de especialistas, de dissenso e da experiência de outros lugares."

Também nas pautas de costumes o discurso precisaria ser remodelado, em especial sobre as minorias que, da forma como ocorre hoje, acentua a rejeição da classe C à esquerda, lembra Leonardo Fontes.

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"No campo moral, acho que terá de reenquadrar o discurso sobre diversidade de gênero, sexual, de orientação sexual, por uma lógica da liberdade em que as pessoas possam viver a vida como elas quiserem, mas que isso não signifique um ataque aos seus valores tradicionais. Que elas possam acreditar nos seus valores morais e religiosos e não serão atacadas por isso", pontua o professor da Unicamp.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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