Projetos sociais de Fortaleza apostam no acolhimento para mudar destino de pessoas vulneráveis

Num momento em que a pobreza, a insegurança alimentar e a violência seguem no centro do debate público, iniciativas comunitárias em Fortaleza procuram responder a desafios que as estatísticas não conseguem captar. No São João do Tauapé e no Grande Jangurussu, dois projetos atuam em frentes distintas, mas movidos pelo mesmo objetivo: oferecer acolhimento a pessoas invisíveis às políticas públicas, entre elas adolescentes, idosos, moradores de rua e famílias em extrema vulnerabilidade social.

2 out 2026 - 10h49
(atualizado às 11h12)
Resumo
Em Fortaleza, projetos sociais enfrentam bolsões de miséria e violência camuflados por bons indicadores econômicos. No São João do Tauapé, o Instituto Sanitas combate a fome e a invisibilidade com cozinha comunitária e serviços de saúde. Já no Grande Jangurussu, o Instituto Meninos de Deus atende 800 jovens com foco na prevenção da violência e fortalecimento de vínculos familiares. Ambas as ONGs suprem falhas do poder público ao oferecer acolhimento, proteção e dignidade a populações vulneráveis.

Márcia Bechara, enviada especial da RFI a Fortaleza

Frei Nailson (esq.) e Paulinho Uchôa (dir.) lideram iniciativas sociais de acolhimento que mudam a realidade de pessoas em situação de vulnerabilidade em Fortaleza.
Frei Nailson (esq.) e Paulinho Uchôa (dir.) lideram iniciativas sociais de acolhimento que mudam a realidade de pessoas em situação de vulnerabilidade em Fortaleza.
Foto: © RFI / Marcia Bechara / RFI

A poucos quilômetros da avenida Beira Mar, cartão-postal da capital cearense, indicadores de desenvolvimento social considerados elevados convivem com uma realidade menos visível. Em bairros oficialmente inseridos em áreas de alta renda ou de bom desempenho socioeconômico, moradores enfrentam insegurança alimentar, moradia precária, dependência química e dificuldades de acesso a serviços públicos. Em outros pontos da cidade, a violência segue moldando trajetórias de crianças e adolescentes.

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É nesse cenário que atuam o Instituto Sanitas, no São João do Tauapé, e o Meninos de Deus, no Grande Jangurussu. Com perfis distintos, as duas iniciativas lidam diariamente com consequências de problemas estruturais que atravessam décadas.

No São João do Tauapé, o trabalho desenvolvido pelo Instituto Sanitas nasceu de uma decisão que alterou a trajetória de Frei Nailson. "Quando eu fundei a iniciativa, a minha ordem religiosa não acolheu a ideia e desejou me transferir, desejou me enclausurar, então eu abri mão desses direitos religiosos para ficar com o Sanitas."

A instituição está localizada numa região com indicadores positivos de desenvolvimento. Para o religioso, no entanto, os números escondem realidades bastante distintas dentro do mesmo território. "Quando você olha o IDH, é alto. Mas quando você adentra as comunidades, você olha verdadeiros bolsões de miséria."

Na avaliação dele, essa discrepância produz um efeito direto sobre a formulação de políticas públicas. "Essas pessoas acabam sendo invisibilizadas, porque não têm dados estatísticos que comprovem pobreza."

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O instituto atende diariamente entre 250 e 300 pessoas por meio de uma cozinha solidária que distribui refeições pela manhã e sopa no período da tarde, para um público de moradores de rua, idosos, mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade. Ao redor do serviço de alimentação, foram sendo incorporadas outras atividades, como atendimento psicológico, qualificação profissional e ações na área da saúde.

A expansão dessa atuação ocorreu sobretudo a partir da pandemia. Frei Nailson associa aquele período ao agravamento da fome e da exclusão social observadas nos bairros atendidos pelo projeto. "Nós não queremos voltar de onde viemos, do Brasil que estava no mapa da fome, das pessoas que não tinham o que comer."

Recentemente, a cozinha foi selecionada para participar de um projeto-piloto nacional voltado à sustentabilidade ambiental de equipamentos comunitários. A iniciativa prevê o uso de energia solar, biodigestor para reaproveitamento de resíduos orgânicos e produção de biofertilizante destinado a uma horta urbana. O programa envolve parceria entre a Cáritas Brasileira, órgãos do governo federal e a Itaipu Binacional. 

Apesar da estrutura ampliada, o ponto mais sensível do trabalho continua sendo o atendimento de pessoas que encontram poucos espaços de acolhimento. Entre elas estão usuários de álcool e outras drogas. "Eu prefiro eles aqui dentro, bêbados, tendo uma oportunidade, do que eles na esquina abandonados."

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Violência como ponto de partida

Se no São João do Tauapé a principal demanda gira em torno da insegurança alimentar e da exclusão social, no Grande Jangurussu a violência aparece como o ponto de partida da história contada por Paulinho Uchoa. Há cerca de 30 anos envolvido com ações comunitárias, ele afirma que o trabalho que mais tarde daria origem ao Instituto Meninos de Deus nasceu da convivência com um grupo de adolescentes envolvidos em conflitos territoriais. O desfecho daquela experiência moldaria toda a sua atuação posterior. "Eram 43 adolescentes e jovens com idade de 12 a 25 anos. Desses 43 que aterrorizavam a região, 36 deles foram mortos, assassinados", afirma.

As mortes ocorreram em disputas entre gangues e conflitos ligados ao controle de territórios numa região historicamente marcada por altos índices de vulnerabilidade social. A sequência de homicídios levou Paulinho a direcionar sua atuação para a prevenção da violência entre crianças e adolescentes.

Mais do que uma atividade temporária, diz ter transformado a experiência numa missão pessoal. "Eu disse que mais ninguém iria morrer."

O Instituto Meninos de Deus hoje mantém quatro núcleos em Fortaleza. Segundo o fundador, cerca de 800 crianças e adolescentes participam regularmente das atividades desenvolvidas pela organização. O trabalho busca criar vínculos duradouros num território onde a presença de referências positivas nem sempre ocorre.

Uma das estratégias adotadas consiste em estimular os jovens a assumirem responsabilidades dentro do próprio projeto, à medida em que crescem. "Aqui, quando eles completam 12, 13 anos, eles têm uma missão: virarem voluntários. É entregar aquilo que recebeu", diz Paulinho. 

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Ausência de referências

A fragilidade dos laços familiares aparece como um dos elementos mais recorrentes entre as crianças acompanhadas pela instituição. Advogado, servidor público federal e voluntário do projeto há cerca de um ano, Igor afirma que boa parte dos jovens atendidos convive com situações de abandono, encarceramento ou ausência de figuras parentais. "Cerca de 90% dessas crianças, eu ousaria dizer, talvez um pouco mais, ou não tem pai, ou não tem mãe, ou não tem pai e mãe, ou o pai está preso, ou a mãe está presa", afirma.

Segundo ele, a busca por pertencimento ajuda a explicar a importância que o instituto assume na rotina desses adolescentes. Em muitos casos, o espaço funciona não apenas como local de atividades esportivas e convivência, mas como ambiente de construção de referências pessoais. Ao descrever o que observa no cotidiano da organização, Igor afirma que muitas crianças chegam "querendo procurar um norte, procurar alguém com quem elas possam se identificar".

A observação ajuda a compreender por que iniciativas como o Meninos de Deus e o Instituto Sanitas acabaram assumindo funções que ultrapassam seus objetivos originais. Em contextos marcados pela sobreposição entre pobreza, insegurança alimentar, violência e desestruturação familiar, as organizações passaram a funcionar também como pontos de apoio social, orientação e proteção cotidiana para populações frequentemente ausentes das estatísticas que orientam parte das políticas públicas no estado.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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