Projeto acolhe mulheres mais velhas em situação de prostituição em SP

6 abr 2026 - 12h15

Coletivo "Mulheres da Luz" oferece rede de apoio a profissionais mais velhas que trabalham nas ruas. Saída definitiva, contudo, ainda esbarra em diculdade para acessar o mercado de trabalho formal."Não é um trabalho normal. É um ambiente muito carregado e, muitas vezes, você atende de 10 a 15 pessoas por dia. Tem hora que você se sente um objeto." É assim que Ana Moreira, de 41 anos, define a vida de mulheres em situação de prostituição.

Ela conta que começou a se prostituir aos 18 anos, em São Paulo (SP). Foi uma forma de sair de casa, já que enfrentava problemas familiares e não tinha um bom relacionamento com a mãe. "Eu sofri vários abusos na infância e não tive uma mãe presente. Fui conhecê-la só mais tarde", diz.

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No início, chegava a receber R$ 20 por atendimento. "Na primeira semana eu ganhei o que ganhava como doméstica em um mês. Morava na região da Santa Cecília", diz. Depois de alguns anos, foi para um prédio com um clube famoso na região central da capital paulista, onde chegava a receber de R$ 400 a 500 por dia.

Embora conte com naturalidade tudo que passou ao longo dos anos atuando como "profissional do sexo", Ana diz que não era uma rotina fácil e que tinha que arcar com todas as despesas sozinha. "Tinha que comprar comida, comprar preservativo. Tem que pagar a diária do lugar e ir embora. Eram muitos gastos pessoais", relembra.

Em 2018, diante das dificuldades e da violência no centro da cidade, e precisando de uma cesta básica, Ana encontrou no projeto Mulheres da Luz uma rede de apoio voltada a mulheres em situação de prostituição e vulnerabilidade social.

O coletivo foi criado em 2013 a partir da atuação de Cleone Santos, que também passou pela prostituição após deixar o trabalho formal. Ela teve contato com a Pastoral da Mulher Marginalizada e com grupos feministas, e decidiu levar esse tipo de apoio para outras mulheres. Ao lado da freira Regina Celia Coradin, cofundadora do coletivo, com quem atuou na pastoral, passou a realizar abordagens em pontos de prostituição de rua na região central de São Paulo. Cleone morreu em maio de 2023, mas o trabalho iniciado por ela segue funcionando.

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O grupo adota o termo "mulher em situação de prostituição" para se referir ao público atendido, como forma de indicar que se trata de uma condição e não de uma identidade fixa. "Para o coletivo, a prostituição é entendida como uma situação transitória, e não como um trabalho como outro qualquer", explica Lais Pereira, voluntária e responsável pela comunicação do coletivo.

Como o coletivo atua na prática

Atualmente, o Mulheres da Luz atende cerca de 120 mulheres por semana. As atividades incluem rodas de conversa e encontros definidos a partir das demandas das próprias participantes.

O trabalho se organiza a partir de ações de acolhimento e escuta no centro de São Paulo. As atividades acontecem em um espaço localizado no porão do Parque da Luz, onde as mulheres participam de encontros coletivos e atendimentos individuais. "A gente tem um momento de sentar à mesa, conversar, trocar, mas também temos uma equipe de psicólogos e psicanalistas que oferecem sessões individuais", afirma Pereira.

Além do suporte em saúde mental, a iniciativa mantém ações voltadas à educação. Uma delas é a chamada Escola da Luz, que oferece alfabetização, letramento e reforço escolar para mulheres em situação de prostituição e outros grupos vulneráveis. A proposta segue o modelo de educação popular e busca ampliar o acesso a ferramentas básicas de aprendizagem.

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Outra frente envolve geração de renda. O grupo organiza uma cooperativa de artesãs, com cursos e oficinas de trabalhos manuais. Os produtos confeccionados são vendidos e o valor arrecadado é dividido entre as participantes. Segundo a cofundadora Regina Celia Coradin, 27 mulheres já receberam certificação recente e passaram a integrar a iniciativa, que hoje funciona como uma alternativa de renda coletiva.

A organização também atua com a distribuição de itens básicos. Entre as ações estão a entrega de cestas básicas, kits de higiene e a realização de bazares solidários, onde roupas e outros itens são disponibilizados gratuitamente. A oferta, no entanto, depende de doações. "Tem momentos em que a gente consegue oferecer mais, e outros em que não, porque depende dos parceiros", diz Pereira.

Na área da saúde, o projeto mantém parcerias para atendimento médico, testagem e prevenção de infecções sexualmente transmissíveis. Há colaboração com a Faculdade de Medicina da Santa Casa e com a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, por meio de uma iniciativa voltada à prevenção de ISTs. A ação inclui testagem, vacinação e a atuação de mulheres atendidas pelo projeto como agentes de saúde em atividades de campo.

Rede de apoio

A participação no projeto marcou uma mudança na trajetória de Ana Moreira e, segundo ela, também impacta a vida de outras mulheres atendidas pelo coletivo. Com o tempo, o espaço de acolhimento se transformou em uma oportunidade de atuação e geração de renda.

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Hoje, Ana é uma das mulheres em situação de prostituição que atuam como agente de prevenção. A função faz parte de uma iniciativa financiada por emenda parlamentar que oferece remuneração para que essas mulheres realizem ações de saúde sexual entre as próprias colegas. A proposta é que o atendimento seja feito por quem conhece de perto essa realidade, o que facilita a abordagem e a troca de informações.

No dia a dia, ela distribui preservativos, lubrificantes e orientações sobre prevenção de infecções sexualmente transmissíveis. Também participa de ações de testagem e esclarecimento de dúvidas. "Elas confiam em mim, perguntando o que podem fazer ou como agir", diz.

Ela reforça ainda a importância do projeto no cuidado da saúde física e mental dessas mulheres. "Já salvou muitas mulheres mentalmente. Às vezes, naquele dia, a pessoa só precisa de alguém que ouça e acolha", diz.

Ela afirma que o trabalho cria uma rede de apoio em um contexto marcado por vulnerabilidade. Segundo relata, muitas das mulheres atendidas são mais velhas, cuidam de netos e não têm acesso a aposentadoria ou estrutura familiar. "Muitas não tiveram oportunidade. Moram em áreas de risco, em condições insalubres. Algumas têm outro trabalho e ainda precisam complementar a renda ali. É uma jornada dupla, que cansa", afirma.

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A atuação como agente de prevenção também abriu outras possibilidades. Ana passou a frequentar cursos, como o de cuidadora de idosos, e conseguiu, ao longo dos anos, comprar a própria casa. Atualmente, também participa de produções audiovisuais em projetos pontuais no Sesc em São Paulo. Mãe de um adolescente de 13 anos, diz que hoje consegue sustentar o filho sozinha.

Mulheres negras, na terceira idade e sem escolaridade

Embora algumas mulheres consigam reduzir ou reorganizar a relação com a prostituição, a saída definitiva nem sempre é possível. Segundo Pereira, esse não é o papel do projeto. "A gente não quer e nem pode tirar ninguém da prostituição. O trabalho é fortalecer a autoestima e oferecer alternativas", afirma.

As tentativas de saída, de acordo com ela, costumam acontecer ao longo da vida, mas nem sempre se sustentam. Muitas mulheres deixam a atividade por um período e retornam quando não conseguem manter outra fonte de renda. "Os motivos de saída normalmente estão ligados a não conseguir mais se sustentar com a prostituição ou buscar um rendimento mais estável", diz Pereira.

O perfil das mulheres atendidas ajuda a explicar esse ciclo. A maioria é formada por mulheres mais velhas, entre 40 a 70 anos. São, em grande parte, negras, de regiões periféricas e com baixa escolaridade. Em um levantamento feito pelo próprio coletivo em 2023, os valores cobrados por programa variam entre R$ 20 e R$ 50. Nesse contexto, a prostituição de rua aparece como uma alternativa de renda possível, ainda que precária.

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Coradin afirma que muitas dessas mulheres acumulam responsabilidades familiares, como o cuidado com filhos e netos, mesmo em idade avançada. "Elas querem sair, mas com que recurso? Como vão sobreviver?", questiona. Segundo ela, há casos de mulheres com mais de 60 anos que seguem trabalhando para sustentar a família. A dificuldade de inserção no mercado formal e a ausência de rede de apoio tornam a saída mais difícil.

Além das barreiras econômicas, o preconceito atravessa a rotina dessas mulheres. Pereira destaca que aquelas que atuam em espaços públicos estão mais expostas à violência e ao estigma. Coradin acrescenta ainda que a discriminação também aparece em instituições religiosas. "Muitas ainda são vistas como em situação de pecado e acabam afastadas desses espaços", afirma.

Para ela, o reconhecimento dessas mulheres ainda é um desafio. "Temos que abraçar essa mulher na sua realidade pessoal, do aqui e agora, e não pensar sobre o futuro. Sempre acolher."

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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