Por que SP já tem setembro mais chuvoso em mais de 80 anos — e chuva deve voltar neste fim de semana

Especialistas explicam como uma combinação de frentes frias, umidade e o El Niño em curso levou a cidade a superar o recorde de 1983 — e apontam que o risco de deslizamentos e alagamentos continua alto nos próximos dias.

18 set 2026 - 07h00
(atualizado às 07h15)
Resumo
São Paulo registra o setembro mais chuvoso em mais de 80 anos, acumulando cerca de 250 mm na primeira quinzena — quase quatro vezes a média mensal. O recorde resulta da combinação de sucessivas frentes frias retidas pela corrente de jato, forte umidade vinda do Norte e a influência do El Niño associado à Oscilação Antártica. Com a previsão de novas frentes frias e o solo totalmente encharcado, a Defesa Civil mantém alerta máximo para o risco iminente de deslizamentos e alagamentos no Estado.
Uma fotografia retangular, tirada ao nível dos olhos, mostrando uma rua movimentada em um dia chuvoso no bairro da Liberdade, em São Paulo. À esquerda, uma mulher veste uma blusa de manga comprida vermelha e calça jeans escura. Ela segura um guarda-chuva aberto de cor preta por fora e branca por dentro. À direita, um homem segura um grande guarda-chuva totalmente preto, inclinado sobre a sua cabeça.
Uma fotografia retangular, tirada ao nível dos olhos, mostrando uma rua movimentada em um dia chuvoso no bairro da Liberdade, em São Paulo. À esquerda, uma mulher veste uma blusa de manga comprida vermelha e calça jeans escura. Ela segura um guarda-chuva aberto de cor preta por fora e branca por dentro. À direita, um homem segura um grande guarda-chuva totalmente preto, inclinado sobre a sua cabeça.
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

A cidade de São Paulo está tendo o setembro mais chuvoso em mais de 80 anos — e a chuva ainda não parou.

Até a manhã de quarta-feira (16/9), a capital paulista já havia acumulado, segundo o CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas da Prefeitura), 249 milímetros de chuva neste mês — quase quatro vezes a média esperada para todo o mês de setembro, que é de 66 mm. É o volume mais alto desde que o órgão começou a monitorar a chuva na cidade, em 1995.

Publicidade

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), que mantém uma série de medições ainda mais antiga, iniciada em 1943, também confirma o recorde: até 14 de setembro, a estação do Mirante de Santana, na zona norte, já havia registrado 253,8 mm — mais que o triplo da média histórica do mês (83,3 mm) e acima do recorde anterior, de 1983, quando o acumulado havia sido de 243,1 mm.

São dois órgãos diferentes, com duas séries de medição diferentes — o CGE e o Inmet —, mas chegando à mesma conclusão: este é o setembro mais chuvoso já registrado na cidade.

E não é só a capital. Cidades como Iguape, no litoral sul do Estado, e Bragança Paulista, no leste, também bateram seus próprios recordes de chuva para o mês.

Mas afinal, por que choveu tanto?

Segundo Ana Ávila, do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), ligado à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um evento tão excepcional dificilmente tem uma única causa — costuma ser a soma de vários fatores atuando ao mesmo tempo.

Publicidade

Na primeira quinzena de setembro, sucessivas frentes frias avançaram sobre o Estado de São Paulo.

Em altitude, a corrente de jato subtropical — um fluxo de vento forte que ajuda a "empurrar" e organizar os sistemas de chuva pelo território — atuou de forma mais intensa e mais ao norte do que costuma ocorrer nessa época do ano, o que permitiu que essas frentes frias permanecessem atuando por mais tempo sobre a região, em vez de passarem rápido.

Ao mesmo tempo, ventos trouxeram ar quente e úmido das regiões Norte e Centro-Oeste até o Sudeste. Quando esse ar úmido encontrou as frentes frias, o resultado foram chuvas mais fortes, mais frequentes e mais persistentes.

Ávila aponta ainda que o fenômeno não é exclusivo da capital: em Campinas, considerando a série histórica do Instituto Agronômico, este é o setembro mais chuvoso já registrado — o recorde anterior era de 257 mm, em 1923.

O papel do El Niño

Tudo isso acontece em um pano de fundo climático maior: o Brasil sofre as consequências de um El Niño classificado pelo INMET e pelo Inpe como muito forte, com mais de 90% de probabilidade de se manter assim até novembro.

Publicidade

O fenômeno, causado pelo aquecimento das águas do oceano Pacífico, altera padrões de chuva em diferentes regiões do planeta — e, no caso do Sul e de parte do Estado de São Paulo, aumenta as chances de chuva acima da média.

Não por acaso, o próprio Inmet já havia previsto, ainda em agosto, um setembro mais chuvoso do que o normal para o Sudeste.

Mas o El Niño, sozinho, não explica um volume tão excepcional de chuva. Segundo Ávila, o El Niño de 2026 está em rápido fortalecimento e já apresenta o que os meteorologistas chamam de "acoplamento" entre o oceano e a atmosfera, que é quando essas duas camadas passam a interagir de forma mais intensa, o que pode ajudar a manter um padrão de chuva persistente.

É diferente do que ocorreu em setembro de 1983: naquele ano, o El Niño anterior já estava praticamente no fim. Ou seja, dois setembros com volumes de chuva igualmente excepcionais não significam, necessariamente, a mesma explicação por trás deles.

"Podemos dizer que o El Niño atual faz parte do contexto climático e pode estar modulando a circulação atmosférica. Entretanto, determinar exatamente quanto ele contribuiu para as chuvas deste setembro exige uma análise específica do período", afirma a pesquisadora.

Publicidade

Para ela, não há como isolar um único fator: foi a combinação entre a dinâmica atmosférica, a grande quantidade de umidade disponível e a persistência dos sistemas que produziu esse volume de chuva.

Já a Climatempo aponta, em nota, um fator adicional, pouco citado, na equação: a Oscilação Antártica.

A Oscilação Antártica é um padrão climático que descreve o comportamento do cinturão de ventos fortes que circula ao redor da Antártida. Quando esses ventos se contraem e ficam mais concentrados perto do polo — o que os meteorologistas chamam de fase positiva —, o ar frio tende a ficar mais isolado no extremo sul do planeta. Já na fase negativa, esse cinturão de ventos se enfraquece e se espalha para latitudes mais baixas, o que facilita a saída de massas de ar frio da Antártida em direção à América do Sul — inclusive ao Brasil, em forma de frentes frias.

Segundo Josélia Pegorim, meteorologista da Climatempo, o El Niño não é o responsável direto pela chuva no centro-sul do Brasil, mas ajudou a intensificar os efeitos desse fenômeno — que atua em uma escala menor, de semanas a meses. Não se trata de algo novo, segundo ela, apenas pouco mencionado no dia a dia pelos meteorologistas.

De acordo com a meteorologista, a Oscilação Antártica entrou em fase negativa em agosto, o que fez com que mais frentes frias chegassem ao centro-sul do Brasil — foram seis frentes frias em apenas 15 dias, uma frequência que ela considera fora do comum.

Publicidade

Pegorim explica que os dois fenômenos estão conectados: em anos de El Niño, a fase negativa da Oscilação Antártica é favorecida, e esse modo negativo facilita o deslocamento de frentes frias vindas do continente antártico até a América do Sul — ou seja, o El Niño torna essas fases negativas mais frequentes.

Setembro ainda não terminou

Depois de mais de duas semanas de chuva quase ininterrupta, o alívio deve ser breve. Segundo o Inmet, a previsão para esta sexta-feira em São Paulo era de períodos de sol com a temperatura subindo aos poucos. Para o sábado, porém, já há expectativa de um dia encoberto com pancadas de chuva.

Segundo William Minhoto, meteorologista da Defesa Civil do Estado de São Paulo, uma nova frente fria deve chegar ao Estado já no domingo (20/9), trazendo chuva de volta sobre um solo que já não tem mais capacidade de absorver água.

Modelos meteorológicos indicam ainda outras duas frentes frias ao longo da semana seguinte — uma sequência que, segundo ele, pode elevar o risco de deslizamentos, alagamentos, enxurradas e elevação de rios e córregos, principalmente na faixa leste do Estado, que inclui o Vale do Ribeira, a Serra do Mar e o litoral.

Publicidade

Minhoto pondera, no entanto, que se trata de uma previsão de prazo mais longo, e que o cenário ainda pode mudar até lá — por isso a Defesa Civil segue monitorando continuamente a evolução das condições meteorológicas, hidrológicas e geológicas, e recomenda que a população acompanhe os alertas pelos canais oficiais.

Segundo Ana Ávila, da Unicamp, também há previsão de novas chuvas já na próxima semana, o que deve contribuir para que o acumulado do mês continue subindo.

O INMET reforça esse ponto: os números do recorde ainda são parciais — setembro ainda não terminou —, o que significa que o total do mês pode ficar ainda mais distante da média histórica antes de fechar.

Os riscos de agora

Uma vista aérea mostra um prédio em construção que desabou sobre uma casa na rua Tequici, na Penha, Zona Leste de São Paulo, Brasil, em 12 de setembro de 2026, devido a fortes chuvas
Foto: Fabio Vieira/FotoRua/NurPhoto via Getty Images / BBC News Brasil

Os principais riscos neste momento são deslizamentos, alagamentos, enxurradas e a elevação do nível de rios e córregos, além de queda pontual de árvores, aponta William Minhoto, meteorologista da Defesa Civil do Estado de São Paulo.

Publicidade

A atenção está concentrada na Região Metropolitana de São Paulo, na Baixada Santista, no Litoral Norte e no Vale do Ribeira, áreas onde o solo segue bastante encharcado depois de tantos dias de chuva.

Minhoto explica que o risco não desaparece assim que a chuva para: como o solo já está saturado e as temperaturas mais baixas dificultam a secagem, um novo temporal, ainda mais fraco, pode ser suficiente para provocar deslizamentos.

A Defesa Civil mantém monitoramento reforçado principalmente na faixa leste do Estado, que inclui o Vale do Ribeira, a Serra do Mar, o litoral e a Serra da Mantiqueira.

A orientação para quem mora perto de encostas, rios ou córregos é ficar atento a sinais de que o terreno pode estar cedendo — rachaduras, árvores, postes ou muros inclinados, ruídos incomuns vindos da encosta.

Publicidade

Durante temporais, a recomendação é nunca atravessar ruas alagadas ou enxurradas, e manter distância de rios e córregos. Ao notar qualquer sinal de risco, a orientação é sair do local antes que a situação piore e acionar a Defesa Civil (199) ou o Corpo de Bombeiros (193).

BBC News Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização escrita da BBC News Brasil.
TAGS
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se