O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, teria bancado viagem à Disney e até jantares e guia em Paris, na França, para servidores do Banco Central. A informação consta no relatório da Polícia Federal enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF), cujo sigilo foi derrubado pelo ministro André Mendonça, nesta sexta-feira, 11.
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Os funcionários em questão são Belline Santana, ex-chefe de supervisão do Banco Central do Brasil, e Paulo Sérgio Neves De Souza, ex-chefe adjunto do mesmo setor. Em nota ao Terra, o advogado de Belline afirmou já foram prestados diversos esclarecimentos, por fontes distintas, que afastam qualquer indicativo de prática irregular ou ilícita por parte de seu cliente (veja posicionamento completo abaixo). A reportagem não localizou a defesa de Paulo Sérgio.
Segundo a investigação, ambos tinham um grupo com Vorcaro no Whatsapp, prestavam orientações e revisavam minutas destinadas ao BC e ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), o que configuraria uma “consultoria informal”, incompatível com a função que exerciam dentro da instituição pública. A PF apontou que eles tinham, inclusive, reuniões presenciais, até mesmo na casa do ex-banqueiro.
Os registros levantados pelas autoridades demonstram “repasses e vantagens com indícios de dissimulação” de pagamentos a Belline, por meio de contratos fictícios e empresas de terceiros, e até a organização de viagem à França. “Belline também parece ter sido agraciado com almoço, jantar e guia em Paris, custeados por Daniel Vorcaro.”
Uma conversa do ex-banqueiro com um dos prestadores de serviço demonstra que ele orientou a organização de um jantar no Lapérouse e um almoço no restaurante Loulou. A orientação ainda foi para um “bom vinho e comida”, além de alguém para estar junto. Em consulta ao menu do Lapérouse, é possível ver que o menor valor é de 28 euros para uma entrada, mas o prato com valor mais caro é de 2.500 euros.
Ainda conforme a PF, os valores pagos ao servidor, conforme planilhas compartilhadas entre Vorcaro e Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro e apontado como operador financeiro, giram em torno de R$ 500 mil e constam no controle de “despesas fixas mensais”.
Já a viagem para a Disney, teria sido paga à Paulo Sérgio. Em uma conversa, ele compartilha com Vorcaro o roteiro da viagem e o ex-banqueiro pergunta se ele já tem os ingressos. Depois, o ex-Master envia esse roteiro a um prestador de serviço e solicita a contratação de guia.
“Não se vislumbra motivação lícita pela qual o servidor do Banco Central compartilharia com o responsável pelo Banco Master o roteiro de viagem pessoal com sua família ao exterior. As circunstâncias indicam, claramente, que a mensagem continha implicitamente um pedido de apoio financeiro, que foi prontamente atendido pelo banqueiro”, diz a PF. Depois, Paulo Sérgio agradece a Vorcaro o favor, já indicando uma reunião com o BC e quais assuntos seriam tratados.
O que diz a defesa de Belline Santana
"A defesa do Sr. Belline Santana, por seu advogado Leonardo Palazzi, destaca que, embora tenha sido afastado o sigilo dos procedimentos relacionados ao Banco Master, permanece evidente uma exposição midiática (seletiva e fragmentada) dos elementos constantes das investigações, especialmente no que diz respeito às Informações de Polícia Judiciária – as fatídicas IPJs produzidas pela Polícia Federal.
Infelizmente, a repercussão parcial desses elementos acaba por desviar o foco de relações e responsabilidades que, segundo os desdobramentos das investigações já conhecidos, alcançam outros níveis superiores, em diversas instâncias.
Nesse contexto, merece especial atenção a Petição 15.504, cujo sigilo também foi afastado por decisão do Ministro Edson Fachin, que trata do Inquérito Policial no qual já foram prestados diversos esclarecimentos, por fontes distintas, que afastam qualquer indicativo de prática irregular ou ilícita por parte do Sr. Belline Santana.
Por exemplo, quanto as alegações de suposta vantagem ilícita obtida por meio da prestação de serviços de concierge em viagem internacional, o Sr. Leonardo Serrano Giunchetti, cujo depoimento foi prestado no dia 24/08/2026, esclareceu que tal fato jamais ocorreu, muito menos por indicação ou pagamento do Sr. Daniel Vorcaro.
O próprio Sr. Daniel Vorcaro, no depoimento prestado no dia 28/08/2026, já afirmou que não houve qualquer fato consistente no pagamento ou concessão de vantagem ilícita ao Sr. Belline Santana em razão de sua atuação no BCB. Ainda, de se destacar os depoimentos dos servidores do BCB, Marcio Contador Camargo e Paulo Sergio Neves de Souza, prestado no dia 11/06/2026 e 10/07/2026, que demonstraram integralmente que não houve qualquer interferência do Sr. Belline Santana nos trabalhos de fiscalização do Banco Master.
Esses esclarecimentos, dentre outros, inclusive o depoimento do próprio Sr. Belline Santana (23/08/2026), realizados na Petição 15.504, agora submetidos ao conhecimento público, precisam ser considerados em sua integralidade, sob pena de que a divulgação isolada de determinados elementos produza uma percepção evidentemente distorcida dos fatos.
A defesa reitera, portanto, que o Sr. Belline Santana sempre exerceu suas funções como servidor de carreira do BCB dentro dos estritos limites de suas atribuições, e confia que a análise integral de todos os elementos os quais se retirou o sigilo sejam apreciados com a necessária objetividade, sem conclusões baseadas em recortes ou interpretações descontextualizadas e, em especial, contrariando os próprios desdobramentos da Pet 15504, o que aparentemente é orientado por finalidades escusas".