Rapidez na divulgação dos votos não é indício de fraude eleitoral

PRIMEIROS RESULTADOS CHEGARAM À SEDE DO TSE, EM BRASÍLIA, OITO MINUTOS APÓS O FECHAMENTO DAS URNAS

16 out 2026 - 07h50
Resumo
A alegação de que a rapidez na apuração dos votos pelo TSE indica fraude é enganosa. Especialistas em cibersegurança explicam que a velocidade decorre da eficiência do sistema eletrônico, que grava e transmite os dados com segurança logo após o encerramento da votação, às 17h. O envio pode levar poucos minutos se houver computador conectado no local. A apuração antecipada de urnas no exterior deveu-se apenas ao fuso horário, sem qualquer registro de irregularidade na totalização.

O que estão compartilhando: vídeo em que uma mulher que afirma ter atuado como fiscal do Partido Liberal (PL) nas eleições questiona a publicação de resultados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) instantes após o encerramento da votação. Segundo ela, a rapidez da divulgação seria suspeita.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. A rapidez na divulgação dos resultados é compatível com o funcionamento do sistema eletrônico de votação e, por si só, não indica irregularidade. As eleições no País se encerram a partir das 17h do horário de Brasília. Às 17:08 chegaram na sede da Justiça Eleitoral os primeiros votos nacionais a serem computados. Como no exterior a votação segue o horário local, foi possível conhecer com antecedência, pelos boletins de urna, os resultados de seções em países com horários adiantados em relação à capital brasileira.

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Saiba mais: Postado no final da tarde do domingo da eleição, o vídeo ultrapassa 293 mil visualizações no Facebook. Procurada pelo Verifica, a responsável pela gravação não respondeu.

A pedido do Verifica, especialistas em cibersegurança assistiram ao vídeo e explicaram que a rapidez na divulgação não é indício de fraude. A transmissão dos dados da urna eletrônica segue esses passos:

Às 17h, o presidente da seção encerra a votação no terminal do mesário. A urna é bloqueada e não recebe mais votos.A própria urna calcula os votos recebidos e imprime cinco Boletins de Urna (BU). Ela também grava eletronicamente os resultados em uma mídia de armazenamento chamada Mídia de Resultado.Essas mídias são levadas ao cartório eleitoral e são lidas por computadores preparados especificamente para o processo. Elas passam por novas verificações de autenticidade e integridade.As mídias são transmitidas para os centros de recebimento da Justiça Eleitoral por meio de uma rede exclusiva utilizada pelos tribunais eleitorais, separada do sistema de votação.A soma nacional dos votos é processada em uma infraestrutura de alta segurança mantida pelo TSE em Brasília.

O professor da Universidade Atitus Marcos Roberto dos Santos teve a oportunidade de testar o código fonte da urna eletrônica e os sistema de transmissão e totalização de votos em três edições do Teste Público da Urna (TPU) que participou. Em entrevista ao Verifica, ele disse que o sistema eleitoral brasileiro é um dos mais bem conceituados mundialmente justamente pela velocidade que é possível apurar os votos.

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A legislação eleitoral determina que a eleição acaba às 17h. Antes disso, o software da urna não aceita o comando de encerramento das atividades, explicaram ao Verifica os integrantes da liga acadêmica de cibersegurança do Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação da Universidade de São Paulo (IMEsec-USP) Nicolas Caldas Borsari e Victor Zacarias.

Em uma auditoria feita após o primeiro turno de 2026, eles analisaram quanto tempo levou, após o mesário acionar o comando de encerramento, para que os dados gravados na Mídia de Resultados estivessem prontos para envio ao TSE. "Nos casos que nós analisamos, esse processo demorou entre segundos até mais de 30 minutos. Em geral, demorou de 1 a 4 minutos", informaram em nota enviada ao Verifica.

De acordo com os três especialistas ouvidos pelo Verifica, se o local de votação contar com um computador com o sistema de transmissão para a Justiça Eleitoral, os resultados podem chegar a Brasília em poucos minutos. Caso contrário, a mídia que armazena os resultados precisa ser transportada até um ponto de transmissão. Nesses casos, soma-se ao processo o tempo de deslocamento até tal lugar.

Nas eleições deste ano, o TSE estimou que receberia informações de 517.206 seções eleitorais, distribuídas pelo Brasil e por cidades no exterior.

Os especialistas em cibersegurança do IMEsec analisaram os arquivos públicos da primeira urna processada no País no primeiro turno. Os dados mostram que levou 8 minutos e 9 segundos para que os votos do equipamento localizado em Santa Cruz do Arari (PA) chegasse ao TSE. Confira:

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Último voto: 16:56:40Encerramento confirmado pelo mesário: 17:00:36 Impressão da primeira das cinco vias do boletim de urna: 17:02:16 a 17:02:40Boletim de urna digital gravado na mídia: 17:02:54Registro de recebimento dos dados da mídia de resultado no TSE: 17:08:45Primeira totalização nacional, com 4 seções desse município: 17:08:57

Eles avaliam que neste caso, de duas possibilidades, uma aconteceu. "Ou os dados foram transmitidos em um computador presente na seção eleitoral, ou foram transmitidos em um computador muito perto dessa seção, provavelmente na mesma zona eleitoral".

O painel de totalização dos votos criado pelo TSE mostra que os primeiros resultados oficiais vieram a público a partir das 17h10.

Borsari e Zacarias explicam que o curto espaço de tempo entre o encerramento da votação e a divulgação dos resultados não deve ser visto como uma vulnerabilidade ou crítica à confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro.

Para sustentar uma suspeita, segundo eles, a rapidez na divulgação teria que estar associada a outras irregularidades, que não foram citadas pela autora do vídeo nem identificadas na auditoria que o IMEsec realizou, como por exemplo:

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Alguma urna ter encerrado antes das 17h;Algum boletim de urna ter sido recebido pelo TSE antes de ser emitido pela urna;Algum resultado divulgado diferente do boletim de urna da seção.

Nenhum desses fatos foram observados pelo IMEsec.

No caso das seções eleitorais localizadas em cidades com fuso-horário adiantado em relação ao de Brasília foi possível realizar uma apuração parcial dos votos por meio dos boletins de urna. Pela manhã do dia 4 de outubro, já se sabia que Lula havia vencido na Nova Zelândia e que Flávio Bolsonaro estava liderando no Japão.

O vídeo alvo desta checagem também foi desmentido pela Justiça Eleitoral.

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