Relatório sigiloso da Polícia Federal aponta suspeita de que Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, atuou para influenciar voto do ministro Dias Toffoli, do STF, em julgamento bilionário de precatórios favorável aos interesses da instituição. Mensagens mostram o banqueiro acompanhando o caso antes de Toffoli mudar de posição. A investigação revela contatos recorrentes entre ambos e apura se o magistrado é beneficiário final de um fundo no Caribe que recebeu R$ 35 milhões de Vorcaro.
A Polícia Federal (PF) suspeita que o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, atuou para influenciar o voto do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli em uma causa sobre precatórios de uma destilaria do setor sucroalcoleeiro. A informação faz parte de um relatório mantido em sigilo há sete meses sob a relatoria do ministro André Mendonça e revelado pela revista piauí nesta sexta-feira, 10.
Procurado, o ministro ainda não se manifestou, mas o espaço segue aberto.
Segundo o documento, a destilaria Alcídia, que pertence ao grupo Atvos, cobrava da União a reparação de prejuízos causados na década de 1980, em um julgamento que impactaria diretamente a carteira de precatórios no balanço do Master, que superava R$ 10 bilhões. Em mensagem revelada pela PF, o diretor jurídico do Master, André Kruschewsky, disse a Vorcaro que o julgamento era importante. "Serve de paradigma para nossos casos", afirmou.
Historicamente, Toffoli vinha se posicionando favorável às usinas em ações de precatórios, o que seria positivo para o Master. Pouco antes do julgamento da Alcídia, no entanto, ele julgou outra ação envolvendo uma usina e votou a favor da União, contrariando seu próprio histórico. Segundo o relatório revelado pela revista, a notícia não foi bem recebida no banco. Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações que trabalhava junto a Vorcaro, afirmou que a decisão: "Matou a gente."
Após o posicionamento inesperado do ministro, Kruschewsky sugeriu ao banqueiro: "Vamos nos movimentar?" As respostas de Vorcaro mostram que ele estava ciente de que Toffoli havia "virado o voto" e estava acompanhando a situação. "Tô tratando aqui", disse o banqueiro.
O diretor jurídico do Master chegou a sugerir tentar adiar o julgamento do caso da Alcídia. "Se precisar de ajuda, para tirar de pauta, avisa!", escreveu. A PF indica que essa mensagem sinaliza que Kruschewsky "aparenta ter acesso ao STF inclusive para 'tirar de pauta' o processo em questão".
O caso foi adiado após pedido de vista do ministro Kassio Nunes Marques e, quando voltou à pauta do STF, Toffoli votou a favor da usina, retomando seu posicionamento histórico, contrário ao voto mais recente.
Na data do julgamento, 1º de outubro de 2024, um operador do banco avisou Daniel Vorcaro: "Ganhamos Alcídia", com o resultado de 3 votos a 2 após a decisão de Toffoli. Vorcaro respondeu com um emoji de joinha.
Segundo o relatório revelado pela revista, a PF diz que o caso "demanda aprofundamento analítico, não sendo no presente momento suficientes para conclusões definitivas".
Ainda assim, a corporação avalia que as mensagens "Toffoli virou o voto" e "tô tratando aqui" têm "especial relevância, por ocorrerem em momento imediatamente anterior à data designada para julgamento, e por estarem inseridas em diálogo no qual se discute a necessidade de 'se movimentar' e de 'acompanhar' o caso".
O Estadão já revelou casos de fraudes envolvendo precatórios como o citado no relatório e o Banco Master. A organização financeira se beneficiou de uma negociação fraudulenta ao comprar um precatório de uma usina do Grupo João Santos, que entrou em recuperação judicial, e incorporar o ativo em seu balanço enquanto atuava no mercado financeiro. O dinheiro arrecadado com a venda foi enviado por antigos donos do conglomerado para o exterior em movimentações suspeitas, conforme documentos aos quais o Estadão teve acesso.
Relatório indica contatos entre Vorcaro e Toffoli
O relatório da PF foi construído com base no conteúdo do celular de Vorcaro apreendido em sua primeira prisão, em 18 de novembro de 2025. Segundo a corporeção, ele "expõe, de forma recorrente, contatos diretos e indiretos entre Daniel Bueno Vorcaro e o ministro José Antonio Dias Toffoli".
O documento indica ainda a suspeita de que Toffoli tenha dinheiro de Vorcaro em um paraíso fiscal no Caribe. Segundo o relatório, Toffoli seria o "beneficiário final" ou "proprietário de fato" do fundo de investimento Arleen, que recebeu repasse de R$ 35 milhões de Vorcaro.