RIO E BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defendeu neste sábado, 30, no Rio de Janeiro, que as cores verde e amarela voltem a ser usadas pela militância de esquerda e não sejam associadas ao bolsonarismo.
"O verde e amarelo é uma coisa que a esquerda vai ter que aprender a usar. A gente vai ter que, nesta Copa do Mundo, andar de verde e amarelo para não deixar que as cores do Brasil sejam tomadas por nenhum fascista."
A fala ocorreu durante o lançamento da plataforma pública e gratuita de streaming Tela Brasil, na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca, evento do qual participaram a primeira-dama, Janja Lula da Silva, ministros e aliados locais.
Ao agradecer a presença do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Cavaliere, Lula destacou a roupa do aliado e acrescentou: "Você está vestindo verde e amarelo, mas tem que dizer que é não bolsonarista". Em seguida, ampliou o recado ao campo político e disse que é preciso "cultura política" para que a população se envolva na escolha de candidatos, embora tenha ponderado que estava em um ato oficial e não poderia tratar de política.
Lula também elogiou o trabalho do governador interino do Rio de Janeiro, o desembargador Ricardo Couto, no que chamou de "consertar o Estado", e voltou a defender que programas na área cultural se tornem políticas de Estado. No discurso, criticou o desmonte de iniciativas de gestões anteriores do PT, como os Pontos de Cultura. "Nós criamos 4 mil pontos. No governo deles, não foi criado nenhum. Agora o País tem 16 mil Pontos de Cultura", afirmou.
"Nós precisamos transformar tudo isso que estamos fazendo em política de Estado. Isso não pode ser política de governo. Porque, se for apenas política de governo, vocês sabem que qualquer um que entra pode tirar", disse, antes de completar: "Tirar as coisas é muito fácil; consertar é que é difícil, não é, Eduardo?", em referência ao ex-prefeito do Rio, Eduardo Paes, que acompanhava o evento.
O presidente mencionou indiretamente a disputa pelo governo do Estado, sem citar nomes, ao afirmar: "Não é um candidato, que vocês sabem quem é, que precisa ser eleito governador do Rio. É você que tem que ser eleito governador do Rio, porque senão vocês sabem o que acontece nesse Estado". Paes deve concorrer ao cargo pelo PSD, de Gilberto Kassab, e deve ter como oponente o deputado estadual Douglas Ruas (PL).
Tela Brasil
A plataforma Tela Brasil, inicialmente disponível apenas na versão web, terá acesso gratuito, com login via cadastro no Gov.br. Lula e a ministra da Cultura, Margareth Menezes, simbolizaram o primeiro "play" em um dos conteúdos da plataforma, que reúne 555 obras audiovisuais brasileiras. Segundo o governo, mais de 300 títulos já são ofertados com recursos de acessibilidade, como audiodescrição, legendagem descritiva e tradução em Libras.
"Nós temos que abrir oportunidades às pessoas terem acesso a tudo, para que possam gostar da cultura. Tem pessoas que não gostam de cultura porque não conhecem, são ignorantes", disse Lula no evento. A expectativa do governo é que o catálogo chegue "muito em breve" a mais de mil produções. A Empresa Brasil de Comunicação (EBC) é parceira da iniciativa, o que permitirá a integração de mais de 150 títulos do acervo da TV Brasil à plataforma. "Essa televisão nossa tem que ir para a América Latina inteira", afirmou o presidente.
Na cerimônia, Lula também fez alusões em defesa da soberania nacional e citou a melhora da imagem do País no exterior, sem comentar diretamente a decisão do governo americano de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. "O Brasil nunca viveu um momento de reconhecimento e de respeitabilidade internacional como tem hoje. O Brasil é tratado com respeito porque nós jogamos fora o complexo de vira-latas", disse.
A ministra Margareth Menezes afirmou que o audiovisual enfrenta um gargalo de distribuição e que a Tela Brasil é parte da resposta a esse desafio. Ela citou acordos assinados para ampliação de cooperação internacional com países como China e França e disse haver oportunidades a explorar a partir da assinatura do acordo Mercosul-União Europeia.
"Não podemos esquecer o que passamos no governo passado, de negligência com a cultura. O recurso voltou a chegar na ponta, com as cidades abrindo espaços para o cinema", declarou.
Menezes também afirmou que o governo Lula não precisa "inventar uma produtora" para fazer filmes que valorizem a cultura nacional, em referência à produtora responsável pela elaboração do filme "Dark Horse", cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).