Lula muda de posição e diz que defende redução de maioridade penal para 16 anos

Em busca de votos, presidente adota pauta defendida pela direita e afirma que não há como ser contra a redução da maioridade penal para crimes hediondos

15 out 2026 - 22h47
(atualizado às 23h35)
Resumo
Em inédita mudança de postura, o presidente Lula declarou apoio à redução da maioridade penal para 16 anos, tema que travou a PEC da Segurança no Senado. Em disputa eleitoral acirrada com Flávio Bolsonaro, Lula assumiu a culpa pela impopularidade de sua gestão, defendeu a apuração rigorosa de denúncias contra ministros do STF ligados a Daniel Vorcaro e justificou o reajuste do Bolsa Família, enquanto tenta atrair votos com propostas populares, como o fim da escala 6x1 e o passe livre.

BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta quinta-feira, 15, em entrevista à TV Globo, que é a favor de reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos. Foi a primeira vez que ele se posicionou desta forma. A segurança pública é o calcanhar de Aquiles do governo Lula e uma das principais preocupações dos eleitores.

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Em busca de votos, o presidente tenta aprovar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança, que tramita no Senado. Nesta quinta-feira, porém, houve um racha entre aliados de Lula e a oposição justamente por causa da questão da maioridade penal. Diante do impasse, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), tirou a PEC da pauta.

Presidente Lula, candidato à reeleição à Presdência da República pelo PT, durante entrevista à jornalista Renata Lo Prete no Jornal Nacional da Rede Globo
Presidente Lula, candidato à reeleição à Presdência da República pelo PT, durante entrevista à jornalista Renata Lo Prete no Jornal Nacional da Rede Globo
Foto: Reprodução/TV Globo / Estadão

"Eu sou favorável a reduzir (a maioridade penal) para 16 anos, mas não discutindo nessa PEC, porque ela não é para isso. Eu acho que a sociedade brasileira inteira é favorável à punição de qualquer crime hediondo", afirmou Lula, que disse ter essa opinião como "cidadão brasileiro".

A posição do presidente marca uma guinada do PT sobre o tema. Tanto Lula como o partido sempre foram contra a redução da maioridade penal para crimes de qualquer natureza.

Lula reafirmou que vai criar o Ministério da Segurança Pública assim que a PEC for aprovada. "Queremos asfixiar o crime e libertar territórios para que não haja donos de ruas", disse.

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A redução da maioridade penal é defendida pelo senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, que, de acordo com pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira, está na frente de Lula. O senador conta com 51% das intenções de votos válidos e o presidente, com 49%, configurando um empate técnico dentro da margem de erro.

Durante a sabatina, Lula defendeu mais uma vez a reforma do Judiciário e tentou se desvincular da crise que atinge o Supremo Tribunal Federal (STF). Afirmou que vários ministros do STF estão implicados com o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e não apenas Alexandre de Moraes.

"O Toffoli (Dias Toffoli) também está implicado, o André Mendonça também está implicado e o Kássio (Nunes Marques) está implicado. Agora está todo mundo implicado", afirmou. Detalhe: Toffoli foi indicado para a Corte por Lula.

Na avaliação do presidente, senadores ligados a Flávio querem cassar Moraes não por suas relações com Vorcaro, mas, sim, porque ele foi o relator da ação penal que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe, em 8 de janeiro de 2023. Disse, porém, que não se pode jogar a promiscuidade envolvendo ministros do STF para baixo do tapete.

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"Não é possível que apareça na Suprema Corte tantas e tantas denúncias de orgia, mulheres e dinheiro. A sociedade brasileira precisa que seja apurado", disse Lula. "Que não fique pedra sobre pedra. Que se puna quem precisar punir. Não tem como imaginar que a sociedade vá aceitar que se coloque um tapete em cima disso e se esqueça o que aconteceu. É muito grave".

Lula afirmou que chegou a repreender o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, por ter participado de um jantar com Vorcaro em Londres, acompanhado de outras autoridades, como Moraes e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, em 2024.

"Quando eu fiquei sabendo que ele tinha ido a Londres, eu chamei a atenção dele (porque) o papel do diretor da Polícia Federal não permite que ele estivesse em Londres. Não permite", afirmou Lula. "Ele me deu uma explicação. Não foi convincente para mim. Ele não precisava ter ido. Aliás, ninguém precisava ter ido para aquela festa. Ninguém".

Apesar da afirmação, Lula disse que Rodrigues está fazendo um "extraordinário trabalho" à frente da Polícia Federal. Não quis antecipar, no entanto, se o diretor-geral da Polícia Federal será mantido no cargo, caso ele seja reeleito. "Primeiro, eu tenho que ganhar as eleições", respondeu.

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Presidente afirma ser o responsável pela má avaliação do governo

Sem o chapéu Panamá que provocou críticas de eleitores em sua entrevista para o Jornal Nacional, no primeiro turno, Lula só conseguiu jogar luz sobre o fim da escala de trabalho 6x1 e a promessa de passe livre no transporte urbano, aos fins de semana, em suas considerações finais. As medidas de apelo popular fazem parte do pacote de bondades vendido pelo presidente para tentar angariar votos e virar o jogo.

Durante a entrevista, o presidente foi questionado sobre a má avaliação de seu governo, na casa de 50%, e assumiu os erros.

"Eu acho que a responsabilidade é toda minha. Eu sou o governo. Então, se eu não conseguir ser compreendido pela sociedade brasileira, eu não posso ficar jogando a culpa em ninguém, tenho que jogar a culpa em mim", argumentou. "Quando as coisas dão certo, sou eu que ganho. Quando elas não dão certo, sou eu que perco".

Indagado sobre o motivo de ter aumentado em 15,04% o Bolsa Família, às vésperas das eleições, Lula respondeu que não sabia que o benefício não havia sido reajustado e, quando soube, determinou a correção.

"É inexplicável que, no governo do Lula, alguém pense em não reajustar pela inflação o salário das pessoas. E eu tomei a decisão: a gente vai dar tudo o que a gente não deu", disse ele. O presidente observou, ainda, que havia espaço fiscal para o aumento do Bolsa Família.

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