Após ser ultrapassado no primeiro turno por Flávio Bolsonaro, o presidente Lula foi às ruas em Ceilândia (DF) apostando em uma nova estratégia de comunicação voltada às redes sociais e selfies. Durante a caminhada com apoiadores, o petista empunhou a bandeira nacional, atacou o clã Bolsonaro e escândalos ligados ao Banco Master e BRB, além de defender o fim da escala de trabalho 6x1. Confiante na virada no segundo turno, Lula discursou contra o retorno do que chamou de fascismo ao governo do país.
BRASÍLIA - "Eu agora estou virando o rei da selfie. Estou virando internauta". Foi com este aviso que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou às ruas, nesta sexta-feira, 9, cinco dias após ser ultrapassado nas urnas pelo senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à sua sucessão.
Sob um sol forte e em cima de uma caminhonete, Lula comandou uma caminhada em Ceilândia, maior região administrativa do Distrito Federal, embalado pela nova estratégia de comunicação da campanha nesta segunda rodada da disputa. Exibindo a Bandeira do Brasil, ele pulou várias vezes, acenou para os eleitores, tirou "selfies", distribuiu autógrafos e prometeu virar o jogo no segundo turno, marcado para o próximo dia 25.
"Esse País não voltará a ser governado pelo fascismo. Não voltará a ser governado por aqueles assassinos de milhares de pessoas na covid-19?, disse o presidente, numa referência à família Bolsonaro. "Esse País não será governado pelo sócio do Banco Master, pelos parentes do Vorcaro", emendou.
Lula não citou nominalmente o adversário - que é investigado pela Polícia Federal, suspeito de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção no caso do filme Dark Horse -, mas os ataques ao senador permearam o ato político. Áudios que vieram à tona em maio mostraram Flávio pedindo cerca de R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para concluir o filme, uma cineobiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Ao lado do candidato ao governo do Distrito Federal, Leandro Grass, e da primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, Lula levantou várias vezes a bandeira do Brasil e chegou a se curvar para beijá-la. Afirmou, ainda, que aquele ato era voltado "aos que amam a bandeira verde e amarela do Brasil", e não aos que idolatram o estandarte dos Estados Unidos, fazendo outra alusão à família Bolsonaro.
"Nós queremos dizer em alto e bom som: o Brasil e as riquezas do Brasil são do povo brasileiro. E aqui ninguém tasca", insistiu ele.
Um eleitor na rua deu a Lula um cartaz, que ele segurou por alguns minutos. Em letras verdes garrafais, trazia a inscrição: "Lutaremos até o fim. Venceremos!". Logo depois, apareceu outro: "Evangélicos com Lula". E mais um: "Há Luiz no fim do túnel".
Andando de muleta, o cobrador de ônibus aposentado Nicanor Aires de Santana, 75 anos, acompanhava a passeata com esperança. "Segundo turno é outra eleição. E os votos do Cury e do Renan podem vir para nós", calculava ele, numa alusão aos candidatos derrotados Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão).
Ao ser informado de que Cury e o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), candidato que também não foi para o segundo turno, declararam apoio a Flávio, Santana não se importou. "Kassab vai acabar negociando com Lula", previu o aposentado, natural de Barreiras, na Bahia, parecendo conhecer Gilberto Kassab, presidente do PSD.
Perto da Igreja Mundial do Poder de Deus, eleitores reclamavam da falta de "santinhos" da campanha para distribuir e do calor de mais de 30 graus. Mas, para Santana, tudo estava bem. "Eu só queria pegar na mão do Lula e dizer: Você é meu irmão", afirmou. No empurra-empurra da passeata, porém, não conseguiu.
Com microfone em punho, o presidente também mencionou o rombo bilionário do Banco Regional de Brasília (BRB), que só não comprou o Master, já falido, porque o Banco Central proibiu o negócio. "Essa é a passeata daqueles que querem prender os ladrões do BRB e devolver o dinheiro roubado, R$ 12 bilhões", discursou Lula.
A governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), é aliada de Flávio e disputa o segundo turno com o petista Leandro Grass, ex-presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O PT usa a crise do BRB-Master para responsabilizar o grupo político de Celina pela fraude.
Antes de ir embora, Lula ainda defendeu o fim da escala de trabalho 6x1, bandeira de sua campanha. A proposta está em tramitação no Senado, mas a oposição não quer votá-la para não dar discurso ao petista. Flávio, por exemplo, classificou a discussão do tema como "oportunista".
A passeata durou uma hora e terminou depois de meio-dia, com o sol a pino. Munida de papéis com os dizeres "Flávio Bolsonaro vai tirar seu remédio" e "Corte de gastos afeta Farmácia Popular", a chef de cozinha Camila Quadro, 35 anos, percorreu 30 quilômetros para chegar a Ceilândia e ficou lá até o fim. "Tenho certeza de que dá para virar", dizia ela, animada, vestida de vermelho.