Pesquisas eleitorais pagas com recursos dos próprios institutos ganharam espaço na corrida eleitoral deste ano e representam quase metade dos levantamentos registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) até o dia 30 de junho.
O avanço da prática divide o mercado de pesquisas: enquanto parte do setor questiona a real origem dos recursos e cobra maior fiscalização da Corte Eleitoral, defensores da modalidade afirmam que ela ajuda a impulsionar novos institutos.
Segundo levantamento da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep), institutos investiram R$ 23,4 milhões do próprio bolso para bancar sondagens eleitorais no primeiro semestre deste ano. O valor é quase cinco vezes o registrado no mesmo período da última eleição presidencial.
E não foi apenas o volume de recursos que aumentou. A proporção de pesquisas autofinanciadas também cresceu. De 2022 para 2026, o número de levantamentos custeados pelos próprios institutos saltou de 167 para 365. Hoje, elas representam 46,3% do total de levantamentos registrados no TSE, ante 36,2% há quatro anos.
O autofinanciamento dos institutos foi um dos temas abordados por representantes do setor em reunião com o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, na terça-feira, 14.
João Francisco Meira, presidente do Conselho de Opinião Pública da Abep e cofundador do instituto Vox Populi, afirma que parte dos institutos recorre ao autofinanciamento para ocultar os verdadeiros financiadores das suas sondagens.
"Isso precisa ser escrutinado, fiscalizado e regulamentado de maneira rígida pelo TSE. A Corte, que já fiscaliza as contas partidárias, pode realizar auditorias nessas empresas para identificar a origem dos recursos", afirmou Meira, para quem a prática deveria ser proibida por representar, na prática, a participação de recursos privados, oriundos de pessoas jurídicas, na disputa eleitoral.
Márcia Cavallari, CEO do Ibope por pouco mais de dez anos e hoje diretora-geral da Ipsos-Ipec, pondera que pesquisas autofinanciadas podem ser realizadas em situações específicas, como quando um fato novo altera o cenário eleitoral e o instituto não possui um levantamento previamente contratado. Para ela, o problema surge quando a modalidade deixa de ser exceção e passa a ser a regra, com institutos registrando exclusivamente pesquisas custeadas com recursos próprios.
"Instituto de pesquisa não é uma entidade sem fins lucrativos. Você vai fazer todas as pesquisas como autofinanciadas? Alguma coisa estranha tem. Quem está por trás dessas pesquisas? De onde está vindo o dinheiro? O TSE precisa saber."
Quando um instituto registra uma pesquisa como financiada com recursos próprios, ele deve anexar no sistema Pesqele, do TSE, o Demonstrativo do Resultado do Exercício (DRE) do ano anterior à eleição. O documento reúne informações sobre a situação financeira do instituto, como suas receitas, despesas e lucro.
Segundo Natallia Lima, advogada da Abep e sócia do escritório Lima Souza, o DRE serve para verificar se o volume e o valor das pesquisas registradas como autofinanciadas são compatíveis com a estrutura econômica declarada pelo instituto.
No entanto, se um instituto registra muitas pesquisas autofinanciadas, com valores elevados, mas seu DRE mostra receita ou lucro incompatíveis com esse volume, isso não significa automaticamente que há irregularidades, mas pode justificar pedido de esclarecimentos e documentação complementar.
"O TSE recebe e dá publicidade às informações, mas não há uma auditoria automática e prévia de capacidade financeira a cada registro", explica a advogada.
Na avaliação dela, a preocupação de parte do mercado é que o uso indiscriminado da pesquisa autofinanciada possa esvaziar a regra de transparência, permitindo que o real contratante, financiador ou interessado econômico não seja identificado no registro. Isso, na visão dela, pode permitir que partidos, candidaturas ou agentes econômicos influenciem o debate público por meio de pesquisas aparentemente custeadas pelo próprio instituto, sem revelar seu real interesse na divulgação dos resultados.
'Há um desejo de limitar novos institutos', diz Bruno Soller, da Real Time Big Data
A Real Time Big Data é uma das empresas que registram pesquisas autofinanciadas no TSE. Um dos sócios do instituto, Bruno Soller diz que a Real Time mantém um contrato contínuo de prestação de serviços com uma rede de televisão e que o registro dos levantamentos como custeados com recursos próprios permite que o instituto utilize os dados posteriormente no mercado, sem infringir regras internas do cliente. Para ele, a posição da Abep é de "reserva de mercado".
"Há um desejo de limitar novos institutos que só podem aparecer na mídia caso façam essa modalidade. Há institutos que só conseguiram romper a regionalidade quando bancaram uma pesquisa e acertam o resultado presidencial", diz. "O fato é que se discute muito isso e menos o que importa, que é fiscalizar de fato o trabalho fraudulento de algumas empresas, que usam métodos conhecidos de manipulação de dados."
A Paraná Pesquisas, que também registra levantamentos autofinanciados, afirma que a modalidade é "legítima" e contesta a posição da Abep.
"Na nossa avaliação, a crítica às pesquisas autofinanciadas acaba produzindo um efeito de reserva de mercado, ao dificultar que institutos tenham acesso à divulgação nacional de seus estudos. A possibilidade de autocontratação, prevista em lei, amplia o pluralismo e a concorrência, permitindo que novos institutos demonstrem a qualidade de seu trabalho perante a sociedade", diz o instituto, por meio de nota.
A Paraná reforçou que a realização de levantamentos autofinanciados não é uma prática exclusiva da empresa e que outros institutos de reconhecida atuação também utilizam a modalidade. O instituto afirmou ainda adotar políticas internas voltadas à preservação de sua independência técnica, não realizando, por exemplo, pesquisas eleitorais contratadas por instituições financeiras que possuam operações de crédito consignado junto aos governos estaduais ou ao governo federal.
"Mais importante do que a origem dos recursos é assegurar que todas as pesquisas, independentemente de seu financiamento, cumpram rigorosamente a legislação, adotem metodologias transparentes e possam ser avaliadas pela sociedade com base na consistência técnica de seus resultados."
Especialistas pedem mais controle do TSE sobre pesquisas
O debate sobre o autofinanciamento está longe de ser o único ponto de preocupação entre especialistas e representantes do setor. Para Raphael Nishimura, estatístico na Universidade de Michigan, o TSE deveria aumentar o nível de detalhamento exigido sobre as metodologias empregadas nas pesquisas e adotar mecanismos de fiscalização sistemática sobre o que é registrado no PesqEle e o que é de fato feito pelos institutos.
"O TSE poderia, por exemplo, exigir uma descrição mais detalhada do plano amostral, do recrutamento da amostra e da ponderação dos dados. Também deveria pedir detalhes sobre o cálculo da margem de erro e as suposições que estão por trás delas."
João Francisco Meira vai além e defende que os institutos entreguem ao TSE os microdados das pesquisas, com a devida anonimização dos entrevistados. Para ele, isso permitiria ao tribunal auditar os levantamentos e identificar eventuais fraudes.
A ideia, no entanto, encontra resistência no setor. Segundo Meira, alguns institutos resistem à proposta sob o argumento de que os modelos estatísticos são próprios das empresas e têm valor comercial.
O sociólogo Maurício Garcia, diretor de Relações Institucionais da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel) e ex-diretor regional do Ibope na região Nordeste, também critica o que considera uma falta de controle do Tribunal em relação às pesquisas, inclusive às registradas no sistema da Corte. Na avaliação dele, é fundamental que os institutos entreguem ao TSE o banco de dados digital completo de todos os levantamentos, incluindo os microdados, para que as informações permaneçam sob guarda da Justiça Eleitoral e possam ser consultadas se necessário.
"O que mais se tem hoje em dia são pesquisas falsas. Antigamente, institutos "mudavam" os resultados. Hoje, visto que não há controle, nem fazem mais a pesquisa. Apresentam apenas um gráfico e pronto", diz o especialista. "Institutos sérios fazem coletas com celulares ou tablets, todos têm GPS. Basta só entregar o banco de dados com a localização de onde a pesquisa foi feita e todas as respostas. O simples fato de obrigar a entrega desse banco daria um trabalho enorme aos fraudadores e inibiria essa farra das pesquisas falsas."