Flávio chega ao final do 1º turno jogando DNA de bets em Lula e reagindo a fake news da padroeira

Investida do governo Lula com proibição de casa de apostas e campanha pró-democracia nascida dentro da Igreja Católica levaram o candidato do PL a reagir, depois de um início de setembro com noticiário favorável ao bolsonarismo

28 set 2026 - 19h25
Resumo
Na reta final do primeiro turno, Flávio Bolsonaro (PL) tenta conter desgastes explorados pela campanha de Lula. Para rebater a medida provisória que veta as apostas no país, o candidato tenta associar o petista aos jogos de azar, chamando-o de "pai do Tigrinho" e criticando o impacto econômico da proibição. Paralelamente, Flávio busca desmentir o boato de que retiraria o título de padroeira de Nossa Senhora Aparecida, crise agravada após ele acusar a CNBB de colaborar com a desinformação.

BRASÍLIA — O candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) chega à última semana antes do primeiro turno das eleições tendo que reagir a dois temas explorados pela campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: o fim das bets e a fake news da Nossa Senhora Aparecida.

Depois de assistir sentado ao desgate do adversário com a crise irrompida de dentro do Supremo Tribunal Federal (STF) após revelações sobre relações promíscuas entre os ministros e o banqueiro Daniel Vorcaro, Flávio agora é quem está pressionado. Ele tem corrido para contar sua versão da história e evitar um mau momento a poucos dias da votação.

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'Pai do Tigrinho'

O primeiro dos discursos que Flávio teve de reinventar é sobre as casas de apostas, as bets. Desde sexta-feira, quando o presidente Lula (PT) assinou uma medida provisória (MP) determinando a proibição completa desse tipo de jogo (o que passa a valer na semana que vem), o candidato do PL tem dedicado todos os seus discursos a tentar colar no petista a pecha de "pai do Tigrinho", em relação ao jogo homônimo de caça-níquel, uma espécie de símbolo do jogo fraudulento e manipulado.

"O Lula tem dois filhos que fizeram muito mal ao Brasil. Um é o Lulinha, o outro é o Tigrinho. Ele liberou o Tigrinho, liberou o cassino online e agora entrou na Justiça contra mim para eu retirar um vídeo em que eu falo que ele é o pai do Tigrinho. Vocês acreditam nisso?", disse em comício em Aracaju no domingo, 27.

Do alto do carro de som, Flávio tem feito uma brincadeira em seus comícios ao simular a revelação de um teste de DNA, tirando um exame do envelope na frente dos apoiadores, para provar a suposta paternidade de Lula sobre o Jogo do Tigrinho.

Os bolsonaristas argumentam que o governo Lula começou a lucrar com as casas de apostas — na verdade, depois de as bets operarem livremente por anos, o Executivo regulamentou o mercado, que impôs regras, criou limites e passou a tributá-lo.

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Diante da popularidade do tema, Flávio tem tido cautela ao tratar do tema. Em vez de defender abertamente as bets, ele passou a defender diferenciar apostas esportivas de cassinos online e a criticar a proibição imposta por Lula. Ele diz que a MP é prejudicial ao mercado e aos usuários e que põe em risco a publicidade de clubes e, inclusive, a realização da Copa do Mundo de futebol feminino no ano que vem.

A fake news com Nossa Senhora Aparecida

O tema religioso virou outra dor de cabeça para o PL. Em coletiva de imprensa após um comício em Goiânia neste domingo, 27, Flávio acusou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de ter "ajudado" o PT a levantar notícias falsas contra ele. Usuários tem difundido nas redes sociais a versão falsa de que o bolsonarista quer tirar de Nossa Senhora Aparecida o posto de padroeira do Brasil, apesar de ele nunca ter manifestado a ideia.

"A maior fake news da campanha foi essa sobre Nossa Senhora Aparecida. Algo que nunca, não existia esse movimento para tirar ela de ser padroeira do Brasil. Jamais existiu, não tem projeto, não tem nada. E o PT, eu sei hoje, já estava há alguns dias tentando levantar essa fake news. Conseguiu com a ajuda de gente dentro da CNBB. Infelizmente, essa é a realidade", afirmou.

A declaração foi vista como desastrosa por membros de sua campanha ouvidos pelo Estadão — seus colegas entendem que ele já estava superando a narrativa e que a acusação foi "desnecessária — e gerou reação da Igreja Católica. A CNBB divulgou uma nota de repúdio horas depois.

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Os bispos católicos negaram ter participação na difusão de informações falas, afirmaram que atribuir à entidade "participação em estruturas de produção ou disseminação de desinformação, sem fatos e provas que sustentem tal afirmação, atinge injustamente a instituição e não contribui para a serenidade e a responsabilidade que devem caracterizar o processo eleitoral" e que "mentira não se combate com outra mentira".

Após Flávio acusar membros da CNBB, a organização passou a ser atacada na internet, até por outras organizações católicas. Apoiadores de Flávio passaram a publicar que a conferência é "cúmplice", "puxadinho do PT", "vergonhosa", "bagunça" e que "vai na contramão da verdadeira igreja de Cristo".

O Centro Dom Bosco, associação de leigos católicos ultraconservadores, publicou um vídeo em que seu presidente, Álvaro Mendes Júnior, diz que as últimas gestões da conferência são "simpáticas à extrema esquerda" e que é preciso combater a "infiltração revolucionária" dentro da Igreja.

O bolsonarista continua tentando estancar o sangramento. Ele vai dar uma entrevista ao podcast católico SantoFlow na noite desta segunda-feira, um canal direto com o público afetado pelo conteúdo difamatório, para falar "a fé, sua trajetória de vida e a garantia da liberdade religiosa".

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A imagem de Nossa Senhora Aparecida tem aparecido por todos os cantos da campanha eleitoral do PL. Na carreata em Goiânia, uma aliada de Flávio apareceu em um dos carros de som carregando a santa. Na manhã desta segunda-feira, 28, numa agenda com o governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos), os dois levantaram a imagem de Nossa Senhora durante uma caminhada.

Enquanto isso, os advogados da campanha do PL entraram com recurso no STF nesta segunda-feira, 28, contra a decisão do ministro Flávio Dino que mandou restabelecer publicações com desinformação envolvendo Flávio e Nossa Senhora Aparecida. O retorno dos posts foi um pedido do humorista Antonio Tabet.

Desde a noite de quarta-feira, 23, perfis de esquerda passaram a promover uma história falsa de que Flávio apoia um projeto para retirar o título de padroeira do Brasil da santa católica. A repercussão do caso levou à publicação de milhões conteúdos sobre o tema, entre eles o post de Tabet, que dizia: "A família miliciana odeia tanto mulher preta que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida".

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