É enganoso que o ácido folínico melhore a comunicação verbal em autistas, segundo especialistas. As evidências científicas atuais são insuficientes devido a falhas metodológicas, amostras reduzidas e curto período de testes. Embora ajude casos raros de deficiência metabólica de folato, o uso indiscriminado não é aprovado para autismo e traz riscos à saúde, como náuseas, irritabilidade e distúrbios do sono, além de possíveis interações medicamentosas, exigindo rigorosa avaliação médica individual.
O que estão compartilhando: que estudos clínicos apontaram resultados promissores na melhora da comunicação verbal em crianças autistas após suplementação com ácido folínico.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. De acordo com a literatura científica e especialistas, as evidências ainda são insuficientes para fazer a associação entre o ácido folínico e a melhora da comunicação verbal em autistas. Os estudos disponíveis usam uma pequena quantidade de participantes e têm pouco tempo de acompanhamento, sendo prematuro considerá-los conclusivos.
Saiba mais: A postagem analisada foi publicada no Facebook por uma empresa que vende suplementação de ácido folínico para crianças autistas, chamada Spectrum Vitta. A empresa foi procurada por e-mail, mas não respondeu.
O ácido folínico, também chamado de leucovorina, é uma forma ativa do folato (vitamina B9). Ele é utilizado principalmente para tratar a deficiência de folato, reduzir efeitos tóxicos de medicamentos que bloqueiam a ação do ácido fólico e potencializar o efeito de certos tratamentos contra o câncer.
De acordo com a neuropediatra Deborah Kerches, especialista em Transtorno do Espectro Autista (TEA), existe um subgrupo de crianças com autismo que tem um anticorpo que altera o transporte ou o metabolismo do folato. Como esse nutriente participa de processos que contribuem para a formação, a maturação e o funcionamento das células nervosas, o desenvolvimento e a aprendizagem podem ser afetados por essa deficiência.
Segundo o neurologista da infância e adolescência Thiago Gusmão, para descobrir a presença desse anticorpo em crianças autistas, existe um teste chamado Frat, que ainda tem custos elevados no Brasil.
Segundo a Sociedade Americana de Neurologia Infantil (CNS), o teste Frat não é recomendado como base para a tomada de decisões clínicas no momento. "Não precisa ser feito em larga escala, é só quando há suspeita médica neurológica", explicou Gusmão.
Em determinadas situações, o ácido folínico pode ajudar a compensar a alteração e a melhorar a disponibilidade de folato para o funcionamento cerebral das crianças com esse anticorpo. No entanto, as evidências científicas que associam a reposição do ácido folínico diretamente à melhora na comunicação verbal ainda são fracas.
Para a nutricionista pediátrica Kamila Castro, pesquisadora do TEA, os estudos existentes não servem como evidência robusta devido a falhas metodológicas. Entre elas, a heterogeneidade entre as pesquisas, o número reduzido de participantes, o pequeno tempo de acompanhamento e a variação de doses. Ela também observou que os estudos não controlam outras intervenções simultâneas, como terapias comportamentais, que podem influenciar positivamente os resultados. Essas lacunas impedem a replicação dessas pesquisas, para testar se os mesmos resultados podem ser obtidos novamente.
Uso indiscriminado de suplemento pode trazer riscos
Em março deste ano, a Food and Drug Administration, agência dos EUA similar à Anvisa, aprovou o uso da leucovorina para o tratamento da deficiência de folato no cérebro. Mas essa aprovação não se estendeu ao autismo, uma vez que o uso do ácido folínico pode ter contraindicações.
De acordo com a neuropediatra Deborah, devem evitar o ácido folínico pacientes com hipersensibilidade à substância ou aos componentes da formulação e pessoas com determinadas condições metabólicas raras, como a deficiência da enzima MTHFS. Outro ponto de atenção destacado pela especialista é o risco de interações com outros medicamentos. "Embora seja uma substância relacionada à vitamina B9, o uso em doses terapêuticas não deve ser encarado como uma suplementação inofensiva. A indicação precisa ter uma justificativa clínica, considerar os possíveis benefícios e riscos e ser acompanhada por médico, com objetivos definidos e reavaliação da resposta."
O neurologista Gusmão alertou para os efeitos colaterais derivados do uso sem necessidade. Ele destaca irritabilidade, náuseas, vômitos, nervosismo e distúrbios do sono como os principais sintomas observados em seu consultório. O especialista reforçou a importância de ter cautela com a disseminação desse tipo de informação na internet, já que a indicação do ácido folínico deve ser avaliada individualmente, de acordo com as características de cada paciente.