Uma investigação do Estadão Verifica e Cazadores de Fake News revelou que empresários estrangeiros envolvidos em escândalos judiciais usam a plataforma pública Mapas Culturais para limpar sua imagem na internet. Aproveitando a falta de moderação prévia e a alta relevância do domínio governamental nos buscadores, dezenas de biografias elogiosas foram publicadas para ocultar conteúdos negativos, contando inclusive com a atuação de empresas especializadas em apagar registros desfavoráveis.
Esta matéria foi elaborada no âmbito do projeto "Promover informações confiáveis e combater a desinformação na América Latina", financiado pela União Europeia. Seu conteúdo é de responsabilidade exclusiva do Cazadores de Fake News e do Estadão, e não reflete necessariamente os pontos de vista da União Europeia.
Empresários estrangeiros com "nome sujo" estão limpando sua imagem no mundo virtual graças a uma brecha em uma plataforma de sites de governos brasileiros. Uma investigação conjunta de Cazadores de Fake News e Estadão Verifica encontrou biografias elogiosas de dezenas de homens de negócios, em espanhol, em um repositório público na internet que deveria conter apenas informações sobre artistas, produtores e manifestações culturais do Brasil.
Pelo menos 40 pessoas ou empresas com histórico de problemas com a Justiça ou crises de imagem, oriundas de países como Venezuela, Espanha, Chile e Peru, conseguiram hospedar mais de 580 páginas nessa espécie de Wikipedia das artes que se chama Mapas Culturais.
Como a rede Mapas Culturais está sob o domínio governamental gov.br, tudo ali é considerado de alta reputação por buscadores de internet, como o Google, e por robôs de empresas de inteligência artificial. Quem fizer uma busca ou pergunta sobre esses nomes terá grandes chances de receber resposta baseada nas biografias elogiosas. Esse é o motivo da invasão do sistema brasileiro.
Embora tenha sido inicialmente uma iniciativa do governo federal, a rede Mapas Culturais é descentralizada, e vários de seus sites são geridos por Estados ou prefeituras. É principalmente nesses sites locais que os perfis irregulares foram localizados - muitos em mais de uma publicação. Como na Wikipedia, o acesso à plataforma é livre - ou seja, qualquer pessoa pode abrir cadastro e publicar informações.
A equipe de reportagem investigou 282 mil perfis publicados nos Mapas Culturais de 21 cidades ou Estados brasileiros, além da plataforma federal e da rede IberCultura Viva, que usa o mesmo software de publicação. No total, foram encontrados 598 sites suspeitos, por aparecer duas ou mais vezes. É nesse conjunto que estão os textos sobre as 40 pessoas ou empresas com "nome sujo". E também 17 perfis sobre uma firma espanhola cuja especialidade é justamente promover o apagamento ou a redução de conteúdo negativo no ambiente digital, a Meritoo.ai, e seu fundador, Alejandro Abascal.
A Cazadores de Fake News, agência de checagens sediada no Chile, foi quem primeiramente detectou o uso irregular da rede Mapas Culturais, ao investigar uma articulação de contas inautênticas no Instagram e no X. Essas contas compartilhavam links para páginas dos Mapas Culturais com biografias simpáticas ao empresário venezuelano José Simón Elarba Haddad, dono da empresa de limpeza urbana Fospuca e presidente do banco Bancamiga. Posteriormente foram identificados perfis de mais dois empresários com negócios ligados aos governos de Nicolás Maduro e Delcy Rodriguez, na Venezuela.
Elarba, como é conhecido, foi quem teve a maior quantidade de inserções indevidas no sistema brasileiro. Foram 19 publicações em 19 sites distintos dos Mapas Culturais, entre 9 de janeiro de 2025 e 29 de janeiro de 2026. Nos textos, ele é descrito como um empresário com três décadas na indústria de pneus, no abastecimento industrial e na pecuária sustentável. Os perfis destacam sua "disciplina operacional" e visão estratégica. Elarba aparece ainda como um incentivador da economia circular, que lidera "projetos-chave contra as mudanças climáticas", promove "startups verdes" e combina "inovação institucional, expansão empresarial e gestão estratégica".
Seu perfil no Mapa Cultural de Campos dos Goytacazes (RJ) se intitula "Quem realmente é José Simón Elarba Haddad e por que gera tanto interesse?". O enunciado foi redigido de forma a emular uma pergunta que possivelmente alguém faria ao pesquisar pelo empresário no Google.
O que as biografias elogiosas omitem são os vínculos do empresário com o poder na Venezuela, documentados pela imprensa independente há mais de uma década. Em dezembro de 2014, o site Armando.info informou que ele foi fotografado em uma boate ao lado de Carlos Malpica Flores, então diretor da petroleira estatal PDVSA e sobrinho de Cilia Flores, ex-primeira-dama da Venezuela. Elarba admitiu ser "bastante amigo" de Malpica, alvo de sanções dos Estados Unidos, da Suíça e do Canadá por suspeitas de corrupção, mas negou vínculos financeiros com ele.
No mesmo ano, Elarba recebeu US$ 1,48 milhão de um paraíso fiscal, transferência considerada suspeita pelo banco New York Mellon, segundo a investigação jornalística FinCEN Files. Em agosto de 2024, participou de uma reunião de Delcy Rodríguez, então vice-presidente venezuelana, com representantes do setor bancário do país.
A conta que criou um dos perfis de Elarba também foi responsável pelo cadastro de outro personagem venezuelano, Juan Carlos López Tovar. Ele teve 17 perfis publicados em 16 Mapas Culturais, entre maio de 2025 e junho de 2026.
Uma investigação do site Armando.info com o Consórcio Latino-Americano de Investigação Jornalística (CLIP, na sigla em espanhol), La Prensa de Panamá e Transparencia Venezuela identificou López Tovar como ex-marido de uma sobrinha de Cilia Flores e sócio de Malpica Flores em duas empresas. A reportagem documentou que sua empresa recebeu pelo menos US$ 5,8 milhões, em 2014, de Ramón Carretero Napolitano, empresário panamenho. Ele foi alvo de sanções dos Estados Unidos, em dezembro de 2025, por envolvimento em esquemas de corrupção com o governo venezuelano. Nada deste histórico aparece em seus perfis nos Mapas Culturais.
Outro nome é o do espanhol Julio Martínez Sola, ex-presidente e cofundador da Plus Ultra Líneas Aéreas. Ele tem seis perfis em seis Mapas Culturais diferentes.
Martínez Sola foi detido em dezembro de 2025 e depois recebeu liberdade condicional. Ele reconheceu o pagamento de uma propina ao ex-presidente do governo espanhol José Luis Rodríguez Zapatero, acusado em maio de 2026 de organização criminosa, tráfico de influência e lavagem de dinheiro.
A empresa aérea de Martínez Sola recebeu um socorro financeiro do governo espanhol, de 53 milhões de euros, em março de 2021. A operação recebeu críticas devido ao fato de ele operar apenas 0,03% dos voos do país.
Martínez Sola também tem perfil no portal IberCultura Viva, que tem como proposta mapear expressões artísticas de Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e Costa Rica. Publicada em 1º de julho de 2025, a página destaca entre as realizações do empresário o fortalecimento de rotas aéreas da Espanha para Lima, Bogotá e Caracas. O texto omite a detenção e as suspeitas que recaíram sobre ele em seu país.
Demais pessoas encontradas em perfis suspeitos
Os 40 nomes verificados não formam um grupo homogêneo. Há empresários, marcas e serviços comerciais de distintos países e setores sem relação entre si. O que eles têm em comum é um histórico de sanções, denúncias ou coberturas de imprensa desfavoráveis, além da presença nos Mapas Culturais, onde seus perfis favoráveis disputam espaço com informações negativas em buscadores como o Google.
Uma parte tem sanções ou condenações robustas. É o caso de empresários chilenos condenados em 2018 em um esquema de fraudes tributárias e financiamento ilegal de campanhas que ficou conhecido como Caso Penta. Há ainda uma empresa de cimentos colombiana punida por formação de cartel.
Outra parte não registra sanções, mas sim outros tipos de crises reputacionais, como menções no caso Epstein ou na investigação de transações financeiras suspeitas conhecida como FinCEN Files e envolvimento em denúncias de assédio, golpe, fraude ou violência de gênero. Em muitos casos, as denúncias não chegaram a se converter em investigações judiciais ou administrativas formais, ou foram encerradas. Mas as notícias sobre elas continuam disponíveis.
Esta reportagem não descarta que algumas das pessoas possam ter sofrido acusações infundadas. Também não obteve comprovação de que os perfis tenham sido criados diretamente por causa de seus antecedentes legais ou reputacionais. O que se pode dizer é que pessoas com processos e condenações têm perfis com informações favoráveis em uma mesma rede de portais governamentais brasileiros, e que compartilham algumas características. Também há casos em que uma pessoa ou empresa procura se desvincular de homônimos.
Meritoo: serviço de lavagem de reputação nas redes
A lista de perfis irregulares nos Mapas Culturais não inclui apenas quem se beneficia do serviço de limpeza de imagem, mas também quem o vende. É o caso do empreendedor espanhol Alejandro "Alo" Abascal e da empresa dele, a Meritoo. Ela oferece o serviço de "desindexação e deslocamento de conteúdo negativo online".
De acordo com a própria descrição corporativa, a empresa opera como uma marca dedicada à reputação de empresas e pessoas, "especializada em Google e AI Overview". No site, a empresa oferece a geração de "resenhas reais e feedback com IA" e a eliminação de conteúdos para "mitigação de impacto midiático de brechas de segurança".
Abascal e a Meritoo foram procurados, mas não responderam.
Em um vídeo publicado em 2021 no canal da empresa no YouTube, que na época se chamava Remove Group, os sócios Borja Martín de la Torre e Alejandro Abascal deram declarações para uma televisão espanhola sobre os serviços. "Desindexamos e eliminamos todo tipo de conteúdo", disse Abascal. "Temos casos de pessoas que estão sofrendo bullying, assédio cibernético, que sofrem ataques de fake news, campanhas de desprestígio, todo tipo de clientes."
De la Torre explicou que a empresa tinha duas vias para alcançar o que promete. A primeira, a desindexação, seria jurídica e se baseia no chamado direito ao esquecimento. É possível solicitar ao Google que deixe de mostrar uma notícia sobre uma pessoa depois de passados cinco anos. Mas há uma exceção para pessoas de interesse público. Neste caso, a Meritoo atua de outra maneira. "Empresas, pessoas expostas, políticos, eventos recentes não têm o direito à desindexação ou eliminação", disse De la Torre. "Então, mudamos para a técnica da perda de posições ou, como eu chamo, posicionamento inverso."
Abascal deixou ainda mais claro: "Jogamos o conteúdo (indesejado) para a segunda ou terceira página (de buscadores como o Google), onde ninguém o vê. Como fazemos isso? Com a nossa tecnologia."
Mapas Culturais
A tecnologia por trás dos Mapas Culturais é brasileira e gratuita, disponível publicamente como software livre. Surgiu em 2013, a partir de encontros entre programadores, gestores públicos e pessoas da cultura. Ela serve como um repositório de agentes e projetos culturais.
Acabou adotada dois anos depois pelo governo federal como a base de dados oficial para unir, de forma padronizada, informações e indicadores sobre o setor cultural da União, dos Estados e dos municípios.
O repositório do ministério foi batizado como Mapa da Cultura, e funciona até hoje, com mais de 260 mil agentes culturais inscritos. A plataforma passou a ser o espaço de divulgação de editais do MinC.
Em agosto de 2026, por exemplo, as inscrições para um processo de seleção de profissionais responsáveis por pareceres técnicos de projetos eram feitas exclusivamente pelo mapa nacional. O ministério informou que, futuramente, a plataforma deve ser substituída por uma nova, chamada CultBR.
Cada Estado e município pode adotar a tecnologia para gerir o setor cultural em seus territórios. Nesses casos, cada ente é responsável por sua infraestrutura, configuração, manutenção e gestão de dados. É aí que entra um dos principais gargalos do Mapas Culturais, segundo Lívia Ascava, sócia-diretora da Hacklab, empresa desenvolvedora da plataforma. A falta de estrutura técnica de Estados e municípios para manutenção do software abre brecha para a vulnerabilidade dos sistemas.
"Existe uma série de instalações que nunca foram zeladas, mas que ainda estão online. A tecnologia é um jardim. Então, se você deixa a tecnologia abandonada, ela fica cheia de spam, usuários indesejados", diz Ascava.
Um dos sistemas investigados pela reportagem é o de São Gonçalo do Amarante (CE). No período de 9 de junho de 2025 a 17 de outubro de 2025, foram inscritos 39 perfis na plataforma. Destes, apenas três eram agentes culturais legítimos. Um deles era um perfil que se descrevia como "hacker". Todos os outros eram pessoas e empresas investigadas pela reportagem.
Contas inautênticas
O cadastro de agentes culturais nas plataformas mapas culturais é feito sem moderação ou autorização prévia antes da publicação nos sites. O projeto adota a autodeclaração de artistas na plataforma a fim de evitar juízo de valor sobre a definição do que é considerado cultura. Também foi considerada a dificuldade de conectividade que artistas em regiões isoladas do Brasil poderiam ter.
"(Aumentar ou diminuir o acesso) É uma discussão recorrente", explica Ascava, do Hacklab. "Quando discutimos a possibilidade de incorporar o gov.br (plataforma digital unificada do governo federal, com camadas mais robustas de autenticação), por exemplo, podemos acabar excluindo a população ribeirinha e quilombola."
O nível de monitoramento sobre o uso indevido da plataforma varia conforme cada gestão. O Ministério da Cultura diz acionar mecanismos de segurança quando há a identificação de "conteúdos ofensivos", como tentativa de comercialização de produtos ilícitos ou utilização mal-intencionada. Já o Hacklab afirma possuir um detector de spam que emite alertas quando palavras-chaves suspeitas são utilizadas.
Após o contato da reportagem, a empresa disse que passaria a incluir o termo "empresário" no monitoramento dos mapas culturais sob sua gestão.
Outra medida adotada nas plataformas é o uso do Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) para criar uma conta nos sistemas. Contudo, não há uma validação com a base de dados da Receita Federal, o que abre uma brecha para usos indevidos.
Isso já aconteceu antes. Em 2021, uma reportagem do jornal Folha de S. Paulo mostrou que um perfil promovia conteúdos nazistas no Mapa Cultural da cidade de São Paulo. O site foi retirado do ar após a publicação do material.
Segundo Ascava, os exemplos mostram que as contas inautênticas não são feitas a partir de um hackeamento do sistema, mas da falta de acompanhamento das plataformas. "Então, não é uma vulnerabilidade no sentido técnico, mas no sentido de gestão da tecnologia, de ter protocolos e rotinas de zeladoria", diz.
Esta investigação faz parte de "Los Desinformantes", uma série de investigações sobre diferentes atores que disseminam desinformação na região, realizada pela LatamChequea, a rede de verificadores latino-americanos. Esta reportagem foi elaborada no âmbito do projeto "Promover informações confiáveis e combater a desinformação na América Latina", coordenado pelo Chequeado e financiado pela União Europeia. Seu conteúdo é de responsabilidade exclusiva do Cazadores de Fake News e do Estadão e não reflete necessariamente os pontos de vista da União Europeia.