A decisão inédita do ministro Cristiano Zanin, do STF, de estender a votação nacional até as 19h com a apuração já iniciada, gerou forte incerteza sobre o processo eleitoral. Segundo o cientista político Leandro Gabiati, a intervenção abre precedentes para cenários extremos, incluindo contestações judiciais de ambos os candidatos — Lula ou Flávio Bolsonaro —, possíveis pedidos de anulação do pleito e manifestações populares em Brasília e outras capitais devido à falta de previsibilidade do ato.
A decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), de prorrogar a votação até as 19h em todo o País abriu espaço para cenários extremos, que vão da conclusão normal da eleição a uma tentativa de anulação do pleito e manifestações nas ruas, na avaliação do cientista político Leandro Gabiati, da consultoria Dominium. O analista considera a medida uma intervenção inédita do STF no processo eleitoral e afirma que não há precedentes que permitam antecipar suas consequências.
"Pode ser que tudo corra normalmente, que alguém eventualmente questione, mas que não dê nada", afirmou Gabiati, em entrevista ao Broadcast Político (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado). Segundo ele, porém, a situação também pode evoluir para "um cenário totalmente diferente, que é de tentativa de anulação da eleição", com manifestações em Brasília e outras capitais ainda neste domingo ou nos próximos dias.
Para o cientista político, a decisão representa uma mudança sem precedentes na condução das eleições, especialmente por ter sido tomada quando a apuração dos votos já havia começado em parte do País.
"Nunca a gente viu o Supremo, neste caso, intervir e tomar uma decisão que deveria ser do TSE. Eu nunca vi", afirmou.
Gabiati avalia que o candidato derrotado, seja Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou Flávio Bolsonaro (PL), deverá recorrer à Justiça para contestar o resultado. "Quem perder, seja Flávio ou seja Lula, vai questionar o resultado no TSE, mas fundamentalmente no Supremo", disse.
Na avaliação do analista, a judicialização poderá assumir contornos distintos conforme o vencedor. Em caso de derrota, Lula poderia argumentar que dificuldades no transporte público prejudicaram o comparecimento de seus eleitores. Já Flávio poderia sustentar que a intervenção do STF favoreceu o governo, hipótese que Gabiati aponta como possível argumento político do candidato do PL.
O cientista político também considera que Flávio esperava uma prorrogação restrita à região Sul, onde havia obtido desempenho eleitoral superior ao de Lula. "Eu imagino que ele também esperava que a prorrogação se desse só na região sul", afirmou. A extensão do horário, no entanto, foi determinada para todo o território nacional.
Outro risco apontado por Gabiati é o de uma mobilização popular após a divulgação do resultado. O analista admite a possibilidade de manifestações "talvez pacíficas ou talvez não", mas ressalta que não dispõe de parâmetros para avaliar a dimensão de uma eventual reação.
"A partir dessa intervenção, não há parâmetros válidos para entender o que pode acontecer daqui em diante", afirmou.
A decisão de Zanin prorrogou a votação por duas horas, após pedidos relacionados a dificuldades de deslocamento dos eleitores. A medida ocorreu quando a apuração já havia começado em 18 Estados e no Distrito Federal, levando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a interromper a totalização dos resultados.