Eduardo Campos era político obstinado e negociador hábil

13 ago 2014 - 14h50

O candidato do PSB à Presidência da República, Eduardo Campos, era um gestor obstinado e negociador político hábil e duro.

Campos, que morreu aos 49 anos nesta quarta-feira em um acidente de avião em Santos, era o terceiro colocado nas pesquisas de intenção de voto e contava com a propaganda na TV e no rádio para emplacar sua plataforma da "nova política", colando ainda mais seu nome na companheira de chapa, a ex-senadora Marina Silva.

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Herdeiro político do lendário Miguel Arraes, um dos ícones brasileiros da resistência à ditadura militar, Campos teve seu aprendizado nos palanques logo cedo, quando participou ativamente da eleição do avô para o governo de Pernambuco em 1986.

Uma vez Arraes eleito, Campos foi seu chefe de gabinete, partindo daí para construir sua própria carreira política.

Mas se o ponto de partida foi o avô, quem conheceu um e conhecia o outro via fortes distinções. "Ele gerencialmente é melhor que o avô. Politicamente é mais autoritário que o avô", resumiu um político pernambucano à Reuters há alguns meses.

Em um campo de futebol, nas palavras de um ex-assessor próximo, Arraes seria um meia cerebral, capaz de lançamentos precisos e com ampla visão de jogo. Campos trazia mais um perfil para o ataque, jogaria com a camisa de centroavante, mas não daqueles trombadores.

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As diferenças entre eles também eram atribuídas ao ambiente político em que os dois foram forjados. Arraes enfrentou a ditadura e aprendeu a fazer política nas dificuldades do sertão. Campos desenvolveu seu traquejo político na democracia e com mais condições do que o avô.

A obstinação herdada, porém, provavelmente era seu traço mais marcante.

Foi deputado estadual e federal, foi o ministro mais jovem do governo do então presidente petista Luiz Inácio Lula da Silva e se elegeu governador duas vezes.

CONTROLE

A marca da obstinação podia ser vista no esforço para cumprir suas metas à frente de Pernambuco, quando controlava seu governo na ponta dos dedos.

Todos os secretários prestavam conta pessoalmente ao governador sobre as 720 metas estabelecidas com a população no começo do segundo mandato, mas nem por isso ficavam longe das cobranças diárias de Campos por meio de um grupo no WhatsApp, aplicativo de troca de mensagens, ou das críticas pelos atrasos que ele conseguia monitorar direto do seu tablet.

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Quando desconfiava que suas exigências não estavam sendo cumpridas, gostava de surpreender o interlocutor. Foi assim durante a construção do Hospital Dom Hélder Câmara.

Campos havia fechado um acordo com a construtora e os trabalhadores para que houvesse um terceiro turno de trabalho afim de concluir a obra. Ao analisar as imagens da câmera instalada na obra percebeu que não havia trabalho no turno da noite, segundo um auxiliar. Sem avisar ninguém, Campos se dirigiu até o canteiro de obras e foi atendido por um atônito vigia que se apressou a pegar o rádio e chamar o chefe para avisar da visita inesperada.

Essas histórias de cobrança por resultados podiam ser colhidas aos montes entre integrantes do governo pernambucano e demonstram o quanto Campos gostava de manter as coisas sob o seu controle.

Para os adversários, esse controle era visto como traços de coronelismo, já que a figura do governador parecia ser onipresente nos demais Poderes e nas administrações municipais.

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Campos, porém, não costumava alimentar ódios pessoais nesse terreno. Exemplo disso era a aliança fechada com o experiente senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), seu antecessor no governo estadual e grande rival de Arraes em Pernambuco.

No início de 2013, embalado pelo desempenho notável do PSB, do qual era presidente nacional, nas eleições municipais do ano anterior, Campos disse à presidente Dilma Rousseff (PT) que não negociaria o apoio do seu partido à sua reeleição antes de 2014.

Conforme os meses foram passando, porém, Campos mudou de ideia e estratégia. Entre setembro e outubro o PSB deixou seus cargos no governo Dilma e, numa reviravolta eleitoral impressionante, filiou Marina para ser sacramentada meses depois sua companheira de chapa como candidata a vice na corrida presidencial.

TEMPO COM A FAMÍLIA

Casado com Renata, Campos era uma pessoa de pouco luxo e não gostava de ostentar riqueza, segundo um político conhecido do ex-governador.

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Pai de cinco filhos, o último deles nascido no início deste ano, Campos gostava de uma boa música brega para relaxar. Se o intérprete fosse o cantor Reginaldo Rossi melhor ainda. O socialista também era fã do cantor e compositor de forrós Maciel Melo.

Com essa trilha sonora, na varanda de casa com a família e com os amigos, Campos conseguia relaxar um pouco nos finais de semana, quando até se arriscava a tocar violão.

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