A campanha eleitoral negligenciou os desafios estruturais cruciais para o futuro do Brasil. Candidatos evitaram propostas sérias sobre o equilíbrio fiscal e a inflação persistente, ignorando a baixa taxa histórica de investimentos públicos e privados. O debate político focou em ataques mútuos e promessas vagas, sem apresentar planos concretos para superar o crescimento econômico medíocre de 2% ao ano, modernizar a economia e viabilizar a geração sustentável de empregos e produtividade.
Não está claro se os candidatos sabem disso, mas o presidente eleito terá de trabalhar muito se quiser cumprir as obrigações básicas. O crescimento econômico variou em torno de 2% anuais na maior parte do último quarto de século. A inflação oscilou perto de 4% ou 5%. As contas públicas nunca se equilibraram de forma duradoura.
O investimento em máquinas, equipamentos, obras urbanas e infraestrutura ultrapassou raramente a marca de 18% do Produto Interno Bruto (PIB) e nem sempre chegou a esse nível. O valor investido ficou geralmente abaixo, nesses anos, do necessário para sustentar um crescimento econômico prolongado.
Investimento e crescimento foram assuntos pouco discutidos, no entanto, na maior parte da campanha eleitoral. Falou-se mal do governo, mas planos, programas e projetos foram detalhes negligenciados ao longo da disputa. Nem sequer se discutiu com algum empenho o problema da inflação, facilmente perceptível no dia a dia da maior parte das famílias. A alta de preços perdeu impulso nos primeiros sete meses deste ano, mas a taxa acumulada em 12 meses permaneceu bem acima da meta de 3% e as projeções para 2026 seguem apontando números iguais ou superiores ao teto da meta, 4,5%.
Referências à política fiscal, isto é, aos critérios de administração das contas públicas, apareceram ocasionalmente, de modo muito raro, em alguns pronunciamentos. Houve até algumas promessas de redução de impostos, mas nenhum tratamento sério de assuntos tributários e de finanças federais. Quase nada se falou a respeito de como levar as contas do governo ao equilíbrio, num prazo razoável, nem sobre as condições de um ajuste sustentável.
Propostas de ajuste e de reforma deveriam incluir, neste momento, a enumeração de alguns objetivos essenciais para a política federal, uma estimativa dos cortes possíveis na despesa pública e uma rediscussão — se indispensável — dos mecanismos de financiamento.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicou a intenção de promover, se reeleito, alguma inovação no rumo dos investimentos públicos. Não foi além, até agora, de um discurso vago, e nada informou de convincente sobre planos para dinamizar e modernizar a economia num mandato próximo.
O eleitor tem como referência, no entanto, a experiência dos últimos quatro anos. Pode ser melhor que nada, mas essa experiência pouco ou nada informa sobre as possibilidades de médio ou longo prazo e, além disso, nenhuma garantia fornece a respeito de uma gestão mais cuidadosa das contas federais.
Como sair da tal armadilha dos 2%, a praga do crescimento medíocre e sem grande mudança? Como combinar crescimento mais intenso com equilíbrio fiscal sustentável e inflação controlada? Como sustentar a multiplicação de empregos decentes sem negligenciar a produtividade, sem comprometer orçamento público e sem aquecer a inflação? Até o último dia, a maior parte do falatório eleitoral permaneceu distante dessas questões.