Avulso à polarização, Cleitinho espreme nomes da direita e mira possível vitória no 1º turno em MG

Candidato do Republicanos manteve liderança a despeito da desconfiança de que poderia desidratar, com voto declarado a Flávio mas proximidade com eleitor de Lula

24 set 2026 - 21h59
Resumo
Cleitinho lidera as pesquisas ao governo de Minas Gerais com até 40% dos votos e mira vitória no primeiro turno. Seu sucesso decorre da forte presença digital, do perfil antissistema e do pragmatismo que atrai bolsonaristas e lulistas, enfraquecendo concorrentes da direita. Em segundo lugar, Patrus Ananias tenta consolidar o voto petista contra Alexandre Kalil para ir ao segundo turno, em uma disputa marcada pela falta de renovação política e pelo tradicional voto pragmático mineiro.

Líder nas pesquisas ao governo de Minas Gerais, o candidato do Republicanos, Cleitinho Azevedo, tem deixado a polarização política em segundo plano na disputa de Minas Gerais. Com 37% das intenções de voto na pesquisa Quaest divulgada na última quarta-feira, 23, e 40% no levantamento do Datafolha, revelado nesta quinta-feira, 24, o senador tem chances mira numa possível vitória no primeiro turno, enquanto espreme os nomes da direita na corrida eleitoral.

Distante de Cleitinho, há uma disputa ainda aberta por uma eventual vaga no segundo turno, caso a disputa não acabe no dia 4. Hoje, o segundo colocado na maior parte dos levantamentos é Patrus Ananias (PT), que tem 15% no Datafolha e 16% na Quaest. O petista chega a alcançar 31% na pesquisa Atlas/Estadão.

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Para cientistas políticos ouvidos pelo Estadão, o bom desempenho de Cleitinho se explica por inúmeros fatores. Um deles, a capacidade de atrair o eleitorado conservador e antissistema, ao mesmo tempo em que se coloca alheio à polarização e às articulações partidárias em Minas Gerais.

Embora tenha declarado apoio a Flávio Bolsonaro, Cleitinho não rechaça a aproximação com eleitores de Lula. Na semana passada, por exemplo, apareceu abraçado a um eleitor do presidente durante uma campanha no Vale do Jequitinhonha.

Cleitinho Azevedo, senador pelo Republicanos
Cleitinho Azevedo, senador pelo Republicanos
Foto: Roque de Sá/Agência Senado / Estadão

Depois de certa desconfiança, de que poderia repetir o destino do correligionário Mauro Tramonte (Republicanos), que em 2024 aparecia com ampla vantagem na corrida pela Prefeitura de Belo Horizonte e terminou em terceiro, Cleitinho tem mantido sólida liderança. A consolidação se deu mesmo diante de outras candidaturas de direita, como as de Flávio Roscoe, apoiado por Flávio Bolsonaro, e Mateus Simões, que disputa a continuidade e é apoiado por Romeu Zema (Novo).

Parte dessa fragmentação de candidatos está associada às sucessivas indefinições do parlamentar mineiro em relação à disputa pelo Palácio Tiradentes. Cleitinho era a primeira opção do PL para liderar a chapa de oposição a Lula em Minas Gerais, mas, diante do atraso na confirmação, o partido decidiu lançar Flávio Roscoe, ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg). Roscoe oscilou de 3% para 5% na mais recente pesquisa Quaest. Ele tem o mesmo porcentual no Datafolha.

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Para Adriano Cerqueira, cientista político e professor do Ibmec, o impasse de Cleitinho que resultou na escolha de Roscoe pelo PL poderia ter reduzido o apoio dos eleitores bolsonaristas ao senador. No entanto, a decisão de declarar apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro ao Planalto, logo no início da campanha, ajudou Cleitinho a manter esse vínculo e, ao mesmo tempo, dificultou que Roscoe ocupasse o espaço de principal nome ligado ao bolsonarismo no estado.

"Muitos eleitores de Flávio Bolsonaro também votam em Cleitinho. Pode haver uma surpresa no resultado, com um avanço maior do Roscoe, caso a estratégia de colar o nome dele ao de Flávio dê certo. Mas vejo o eleitor de Cleitinho fiel. E, para os bolsonaristas, o Cleitinho não é uma opção tão ruim", afirma.

O sucesso de Cleitinho também se explica, em parte, pelo fracasso dos adversários do mesmo campo político ao se colocarem como uma alternativa. A começar pelo candidato à reeleição, Mateus Simões. O atual governador enfrenta o desafio de herdar o eleitorado de seu antecessor Romeu Zema. O candidato do Novo à presidência da República segue distante da campanha em Minas Gerais e, embora Simões tenha à disposição a estrutura do governo, segue sem crescer nas pesquisas.

Camilo Aggio, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT), avalia que faltou construir o candidato como símbolo de continuidade da gestão de Zema e prepará-lo para seguir no Palácio Tiradentes. "Zema conseguiu cacifar uma alternativa que surfa na onda bolsonarista e ganhou uma visibilidade pública importante nos últimos anos. Mas, embora Simões tenha entrado nessa coligação, não houve um trabalho, inclusive de comunicação, que o catapultasse como sucessor", diz.

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O cientista político Carlos Ranulfo, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), analisa que Zema não conseguiu transferir votos do seu eleitorado ao atual governador porque não consolidou uma base política no estado. "Quantos prefeitos ele e o Novo conseguiram eleger? Menos de dez! O Zema ganhou eleição, mas não construiu nada", afirma.

Outro fator que, segundo os analistas, contribuiu para a consolidação de Cleitinho está ligado à transformação da comunicação política. Para Aggio, o candidato do Republicanos está entre os políticos com maior número de seguidores nas redes sociais por ter compreendido a dinâmica das plataformas digitais, a exemplo de figuras como Nikolas Ferreira (PL) e o ex-presidente Jair Bolsonaro. Só no Instagram, Cleitinho tem mais de 4,5 milhões de seguidores.

"É por meio dessas plataformas que chegam as notícias e as informações. É onde se forma a opinião. A lógica por trás dessas linguagens e artimanhas, inclusive, é algo que a esquerda até agora não entendeu muito bem. Se você pega as métricas, o Cleitinho consegue muito mais engajamento e visibilidade para os seus posts do que qualquer concorrente", avalia.

Ranulfo aponta que o parlamentar atua como um típico "outsider", figura que disputa eleições ou chega ao poder à margem do sistema político tradicional, sem compromissos ou fidelidades ideológicas rígidas. Essa condição, segundo o cientista político, lhe dá liberdade para aderir pragmaticamente a pautas de forte apelo popular, como a defesa do fim da escala 6×1, mais associada à esquerda. "Por isso, ele não é de confiança nem para um lado nem para o outro. O Cleitinho é o Cleitinho", observa.

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A atuação independente, contudo, não o coloca à margem do campo bolsonarista, de acordo com Camargo. "Ele é uma segunda via do bolsonarismo. Apesar de defender a pauta da redução da jornada, toda a sua narrativa sobre segurança pública, a relação com o Estado e as instituições é exatamente a mesma ideologia", afirma.

Patrus ganha terreno nos últimos levantamentos

Enquanto Cleitinho amplia a distância dos demais candidatos, Patrus protagoniza o outro movimento relevante da nova pesquisa Quaest. Ele passou de um empate com Kalil para uma vantagem de oito pontos sobre o ex-prefeito de Belo Horizonte. No Datafolha, a vantagem é de seis pontos (15% a 9%). O crescimento ocorre em uma disputa na qual o ex-ministro de Lula aposta no voto petista e na associação direta com o atual presidente, enquanto Kalil tenta se posicionar ao centro e costura alianças locais, inclusive com o ex-governador e candidato ao Senado, Aécio Neves (PSDB), antigo desafeto.

Malco Camargo, cientista político e diretor do instituto Ver pesquisa e Comunicação, avalia que a diferença de posicionamento político entre Kalil e Patrus pode favorecer o segundo. Na última Quaest, Lula e Flávio Bolsonaro aparecem em Minas com 40% cada em um eventual confronto direto. "Kalil poderia ter o apoio do Lula, mas considerou que não precisava. Já o Patrus aposta que essa associação é fundamental para colocá-lo no segundo turno", explica.

Segundo Ranulfo, um dos gargalos da candidatura de Kalil é não ter um padrinho nacional claro nesta eleição. Em 2022, o ex-prefeito perdeu para Zema, ainda no primeiro turno, a corrida pelo governo de Minas, mesmo com o respaldo de Lula. "Foi uma campanha muito ruim, centrada em BH. Isso não deixou um bom recall, uma boa lembrança para o eleitor. Agora, no tiroteio nacional, ele não tem lado. Não tem ninguém que possa puxá-lo para cima", comenta.

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Já para Patrus, o PT garante uma base fiel, ligada ao voto duro do partido, mas também é apontado como obstáculo a um avanço mais expressivo. Para Cerqueira, a resistência à legenda em Minas impede o crescimento do petista para além do eleitorado identificado com ela. "O problema do Patrus é ser PT. Há um antipetismo muito forte no Estado. Por que Lula tem tanto voto em Minas? Porque ele não é visto como do PT para boa parte do eleitorado. O Patrus mobiliza o eleitor petista crônico, mas considero que está no limite da capacidade para obter votos", afirma.

Pragmatismo mineiro

Segundo Ranulfo, os limites tanto de Patrus quanto de Kalil ajudam a expor um problema mais amplo da política mineira, marcado pela falta de opções competitivas e de renovação de quadros no Estado. Na avaliação dele, os dois principais nomes que tentam fazer frente à direita carregam sinais de desgaste. "É um cenário de ausência de lideranças. Patrus era um bom quadro, mas já passou o tempo dele. O Kalil foi prefeito e não se consolidou. Para você ter um cara como Cleitinho na frente, é porque não tem alternativa", avalia.

O cientista político ainda considera que a liderança de Cleitinho no primeiro turno não significa que uma eventual disputa de segundo turno vá reproduzir o mesmo cenário. Para ele, um confronto entre apenas dois candidatos exigirá do senador mais do que a comunicação pelas redes sociais. "É sempre outra eleição. É um contra um. E o Cleitinho terá que ir para o debate falar alguma coisa", aponta o professor da UFMG, que também identifica a ausência de um programa de governo estruturado como uma das vulnerabilidades do adversário de Patrus ou Kalil.

O comportamento dos eleitores dos candidatos que ficarem pelo caminho também pode alterar a disputa em um segundo turno. Cerqueira afirma que a eleição mineira é marcada pelo voto pessoal, que muitas vezes se sobrepõe às siglas partidárias. Essa característica faz de Minas Gerais um estado-pêndulo, no qual o eleitorado não tem preferência partidária fixa e pode alterar seu apoio entre diferentes partidos a cada pleito.

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A postura, aliás, ajuda a explicar a formação dos "casamentos improváveis" e do voto cruzado para candidatos que disputam cargos majoritários diferentes e que são de espectros políticos distintos. Nos últimos anos se observou esse movimento em formações que entraram para a história, como os votos "Lulécio", "Dimasia" e "Luzema", em referências a Lula (PT) e Aécio (PSDB), em 2003; Dilma (PT) e Anastasia (PSDB), em 2010; e, mais recentemente, Lula (PT) e Zema (Novo), em 2022.

"Aqui em Minas é um voto mais pessoal. O Lula conquistou uma boa parte do eleitorado mineiro, o Zema também conquistou pessoalmente esse eleitorado, e agora temos outro fenômeno, que é o Cleitinho. Então, o eleitor aqui se identifica mais pessoalmente com o candidato a presidente e com o candidato a governador, e, muitas vezes, não está muito preocupado com o partido, se é um voto coerente ou não em termos ideológicos", reflete o professor do Ibmec.

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