50 organizações apoiam proposta da OAB e mobilizam ações por código de ética para Cortes superiores

Iniciativa apresenta sete exigências para garantir independência judicial e mobiliza outras entidades e sociedade civil a assinar petição para pressionar tribunais

1 fev 2026 - 00h11

BRASÍLIA - Uma iniciativa encampada por cinquenta organizações da sociedade civil busca mobilizar o debate sobre a adoção de um código de conduta para ministros de tribunais superiores e propõe um conjunto de sete regras objetivas a serem incorporadas pelo proposta elaborada pela Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo (OAB-SP).

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A mobilização é liderada pelos organizações não governamentais (ONGs) Transparência Brasil, o Derrubando Muros e o Movimento Orçamento Bem Gasto, com apoio do República.Org e do Movimento Pessoas à Frente. O movimento conta com o apoio de empresários de diferentes setores da economia.

A economista Maria Silva Bastos Marques, conselheira de administração e ex-presidente do BNDES e da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), que assinou o manifesto, diz que o Brasil vive um momento de perplexidade em relação à conduta de magistrados e que o código de ética passa a ser um instrumento para dar mais transparência a instituições que são o pilar da nossa democracia.

"A sociedade tem acompanhado com muita perplexidade esses acontecimentos recentes e não tão recentes no nosso País e se sentindo preocupada e impotente", afirmou. "Um instrumento como esse daria uma transparência absolutamente necessária não só à Corte Suprema, mas aos tribunais superiores, ao Executivo, Legislativo, a todos aquele que ocupam instituições que são o pilar da nossa democracia", disse.

Ela pontua que a proposta é "sucinta e objetiva" para apontar o que é vedado, o que é possível e o que desejável entre autoridades. Maria Silvia diz que o País conseguiu avançar em consensos para pautas econômicas complexas, como a Previdência e a Tributária, mas enxerga a questão ética como um problema "agudo" que precisa ser resolvido mais rapidamente.

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"Nessas reformas econômicas, era preciso convencer a sociedade de que elas eram necessárias. Agora, vejo que a sociedade já está convencida. É o contrário. Vamos ver que resposta nossas instituições darão para esse anseio da sociedade", afirmou.

Fábio Barbosa, presidente do Conselho de Administração da Natura, lembra que assinou o manifesto em dezembro, de lá para cá, o tema se tornou ainda mais urgente e com relevância.

"Já em dezembro havia essa busca de que tivesse um código de conduta. O próprio presidente Fachin já havia dito que gostaria de levar adiante um projeto desse, e a intenção naquele momento foi de dar um apoio a essa iniciativa. Hoje são mais de 40 mil assinaturas, mais de 60 instituições da sociedade civil. De lá para cá, passados um mês e meio, muitas questões continuaram aparecendo", afirmou.

Ele entende o manifesto não como um debate jurídico, mas como uma forma democrática de a sociedade demonstrar a sua indignação.

"Eu costumo dizer que eu não vejo a sociedade apática diante de tudo, eu vejo a sociedade indignada diante de tudo e buscando canais para se expressar", disse.

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A estratégia adotada pelas entidades foi buscar o apoio de outras organizações preocupadas com o tema a fim de impulsionar uma petição online que já passa de 43 mil assinaturas para que as Cortes superiores adotem um código de conduta para os seus membros.

Entidades defendem adoção de código de conduta para magistrados de cortes superiores
Entidades defendem adoção de código de conduta para magistrados de cortes superiores
Foto: Daniel Teixeira/Estadão / Estadão

A iniciativa elenca sete diretrizes que seus idealizadores julgam mínimas para que as instâncias mais elevadas do Poder Judiciário brasileiro possam operar de maneira independente e ética. As propostas abarcam questões como imparcialidade, relações privadas, comunicação pública, palestras pagas, transparência, fiscalização da conduta e benefícios e hospitalidade.

Eis os pontos defendidos pelas entidades:

  1. Imparcialidade: obrigatoriedade de declaração prévia de conflito de interesses e de recusa em processos em que houver conexão pessoal, patrimonial ou ideológica, com possibilidade de revisão por instância ética independente.
  2. Benefícios e hospitalidades: definição e afastamento de vantagem ou benefício capaz de afetar a reputação ou a independência do ministro, bem como de eventos e atividades externas remuneradas que possam conflitar com funções judiciais, estabelecendo regime de absoluta transparência quanto a tais atividades;
  3. Relações privadas: prevenção de conflitos envolvendo relações familiares, profissionais ou sociais que possam se relacionar direta ou indiretamente à atuação jurisdicional dos tribunais superiores - especialmente no exercício da advocacia por parentes próximos e dos escritórios de advocacia em que tais parentes ocupem posição estratégica.
  4. Comunicação pública: autocontenção e sobriedade na comunicação pública dos ministros, inclusive em redes sociais, prevendo e coibindo de modo eficaz situações e manifestações que possam ser interpretadas como antecipação de decisões em processos, posicionamento político-partidário ou personalização excessiva da função jurisdicional.
  5. Ensino jurídico: disciplinar situações nas quais ministros exerçam atividade econômica de ensino e debate jurídicos, considerando o recebimento de recursos, patrocínios ou doações de escritórios de advocacia, litigantes habituais e instituições com interesse direto em decisões.
  6. Transparência: assegurar, em formato acessível e padronizado, a publicidade a declarações patrimoniais, agendas dos ministros e seus gabinetes, palestras e vínculos profissionais e acadêmicos, participação em eventos, assim como recusas de convites e ofertas.
  7. Orientação e fiscalização da conduta: criação de instância institucional autônoma e independente para acompanhamento, orientação e garantia do cumprimento das diretrizes, com composição plural e representativa e procedimentos claros.

As organizações defendem que "os mecanismos atuais não asseguram à sociedade brasileira a percepção de independência e transparência que se exige dos membros de tribunais superiores, detentores da última palavra na defesa do sistema democrático e dos direitos fundamentais".

A mobilização conta com o apoio juristas, acadêmicos, lideranças empresariais, ex-autoridades públicas, além de organizações da sociedade civil. Essas e outras articulações tentam empoderar o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, que tem liderado esse movimento na mais alta instância da Justiça brasileira e no Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

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Em entrevista ao Estadão, Fachin disse que há maioria na Corte a favor da proposta, mas que alguns ministros preferem adiar o debate por ser ano eleitoral. Somado a isso, existe uma ala do tribunal, formada por nomes como Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, que resiste a este tipo de iniciativa e tenta frear a discussão.

Como revelou o Estadão, o código de conduta deve caminhar em duas frentes: no STF, para disciplinar a conduta dos seus ministros, e no Conselho Nacional de Justiça (CNJ), para criar um regramento para os membros dos demais tribunais superiores.

O presidente do STF já conversou com os colegas de Corte e presidentes de outros tribunais superiores. De acordo com um interlocutor de Fachin, ele tem trabalhado na proposta desde o primeiro dia da sua gestão por se tratar de um projeto que sempre defendeu, inclusive antes mesmo de assumir a Presidência. A iniciativa é inspirada em regras do Tribunal Constitucional Federal da Alemanha, como é nomeada a Suprema Corte alemã.

A proposta caminhará no CNJ e abarcará todos os tribunais superiores, exceto o Supremo. No Conselho, também presidido por Fachin, o trabalho será feito por meio do Observatório da Integridade e Transparência no Poder Judiciário.

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