A história da escrivã da Polícia Civil de Roraima Gislayne de Deus pipocou nos principais jornais em setembro de 2024, quando prendeu o assassino de seu pai após 25 anos do crime. A história dela comoveu o público e inspirou o livro Voz de Prisão, um romance policial, escrito por Luciana Gnone, lançado nesta semana pela Editora Mapa Lab.
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“Ela tem aí todo o potencial de uma história potente. Ela é forte, a gente vê aí uma mulher que nunca desistiu de encontrar respostas”, aponta a autora. “Quando li a notícia no jornal, fiquei impactada. Lembro que pensei que ela materializava ali as minhas protagonistas”, afirma a romancista ao ressaltar que suas obras de ficção policial são protagonizadas por mulheres determinadas.
Luciana descreve a parceria das duas para a história como o “casamento perfeito”, já que ela conseguiu passar confiança para Gislayne e conheceu toda a sua família. “Fiquei com medo de ela achar que eu era uma aproveitadora, que viu a matéria e queria surfar numa onda que não é minha."
Não acreditava em justiça
Talvez, na época da prisão de Raimundo Alves Gomes, as pessoas possam ter imaginado que ela passou a vida idealizando esse momento. Mas ela revelou ao Terra que, ao entrar para a faculdade de Direito, nunca sonhou em trabalhar com a Justiça, atribuindo tudo o que ocorreu ao destino.
“Eu dizia que eu não queria nada que envolvesse a parte de Justiça, porque para a gente não tinha Justiça. O cara matou meu pai, ficou preso 17 dias em flagrante e depois foi solto para responder em liberdade. Que Justiça é essa?”, relembra.
Ela nem sequer queria advogar, ocupação que teve ao longo de anos até virar policial penal e, depois, civil. “O destino às vezes prega umas peças. Às vezes Deus leva a gente para alguns caminhos que a gente não quer aceitar”, conclui. Foi ao ganhar uma bolsa de 100% na faculdade que tudo começou a mudar.
Órfã de pai aos 9 anos
Gislayne é a mais velha de cinco filhos de Givaldo José Vicente de Deus e tinha 9 anos quando a vida dele foi tirada por um tiro disparado por Gomes, que cobrava uma dívida de R$ 150, em 1999. Ela conta que, no dia do crime, esperava pelo pai para curtir o carnaval.
“Meu pai até falou para a minha mãe arrumar a gente para ir para o carnaval e tudo, e acabou que ele nunca chegou a ir nos buscar”, recorda.
Ela relembra que, quando soube, foi com a mãe até o hospital para encontrar a madrasta e esposa de Givaldo, e decorou o número do orelhão do local para ligar perguntando por notícias do pai quando precisasse ir embora.
“Minha madrasta estava lá do lado de fora, e aí, chorando, ela falou: ‘Minha filha, eu vou levar teu pai para casa’”. Mas não deu tempo. O pai da policial morreu na manhã seguinte.
A vida da família, desde então, não foi fácil. Eles eram de origem humilde e passaram por dificuldades que fizeram Gislayne pensar, em muitos momentos, que se Givaldo estivesse vivo, nada daquilo estaria acontecendo.
A prisão
Ao entrar na faculdade, a vida foi mudando. Ela passou a ter novas perspectivas e, ao se formar, advogou por quase dez anos. Nesse período, viu o assassino do pai ser condenado por homicídio no júri popular e sair pela porta da frente do fórum, assim como sua família. Em liberdade, Gomes recorreu da sentença de 12 anos de prisão e, somente em 2016, recebeu a pena definitiva. Porém, fugiu e ficou muitos anos vivendo como foragido.
Em 2022, ela ingressou na polícia penal de Roraima e trabalhou na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo e também no Departamento do Sistema Prisional (Desipe). Depois de um ano, foi aprovada no concurso público da Polícia Civil de Roraima e, no dia 19 de julho de 2024, assumiu o cargo de escrivã.
Gislayne pediu para ser locada na Delegacia Geral de Homicídios (DGH), acreditando que poderia encontrar e, finalmente, prender o autor do assassinato do pai. Foi assim que ela reuniu informações sobre o paradeiro do homem.
A agente de segurança conta que, num dia de rotina, os colegas estavam com alguns mandados de prisão para cumprir na região, e ela apresentou o pedido de detenção de Gomes. A equipe investigou até chegar ao paradeiro do criminoso, em uma chácara no bairro Nova Cidade, em Boa Vista. Na delegacia, ela se apresentou e deu voz de prisão ao autor do homicídio de seu pai.
“Ele baixou a cabeça, não falou mais nada. Falei que ele tinha deixado cinco crianças órfãs por uma dívida de R$ 150 reais, que poderia ser paga depois. A única coisa que ele falou é que não queria ter feito isso”, relembra. Depois que tudo aconteceu, ela teve uma crise de choro, mas sentiu alívio por tudo ter se encerrado.
“A sensação foi essa: 'Acabou'! Acabou a busca, a angústia de a gente achar que a qualquer momento ia vê-lo andando em algum lugar, ia se deparar com ele. A sensação de paz e de justiça da forma correta”, frisa.
‘Voz de prisão’
Para conseguir levar a história adiante, Luciana fez um verdadeiro trabalho de campo. Visitou os locais ligados ao crime, entrevistou familiares, aproximou-se de Gislayne e teve acesso ao inquérito policial, o que foi imprescindível para trazer toda a potência do caso para a obra ficcional.
“Luciana foi muito solícita, muito compreensiva e atenciosa em buscar as informações de uma forma que a gente não revivesse tudo, não mexesse nas feridas”, aponta a policial. A autora reforça que, no começo, escreveu o livro em terceira pessoa, por medo de se apropriar de uma vivência que não era a dela.
Mas depois de sentar com a policial, criou Helena, inspirada em Gislayne. “Agora eu tenho uma Helena para chamar de minha, não só o Maneco tem as Helenas dele”, brinca em alusão aos personagens de Manoel Carlos. Ao escolher o nome, sentiu que tirou um peso das costas e foi isso que lhe deu asas para criar.
Foi assim que também surgiu Ana Alice, que é parceira da protagonista na obra. A personagem é uma homenagem ao grupo do Departamento de Inteligência (DEINT) da Polícia, que trabalhou efetivamente na prisão de Gomes.
“Começa o livro com a Ana Alice sendo uma pessoa muito racional e muito forte na questão da justiça e ela acredita na instituição. Ela é aquela pessoa que veste a camisa da polícia e a Helena é uma pessoa desacreditada, que passou por um trauma”, explica ao falar da construção da amizade entre as duas.
A obra também vai dar origem a uma produção audiovisual, produzida pela atriz Carol Castro, junto com a Intro Pictures. No projeto de adaptação, a artista também interpretará a protagonista, enquanto Luciana de Gnone assina a criação e o roteiro. “É um grande passo para a própria Carol também, que já tem 30 anos de estrada”, finaliza a romancista.