Operação mira ONG de empresária ligada ao filme da família Bolsonaro. Suspeita é de fraude em contrato milionário com gestão do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes.A Polícia Civil de São Paulo deflagrou nesta segunda-feira (01/06) uma operação contra uma ONG controlada por uma empresária ligada à produção de Dark Horse, o filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro que está envolto numa teia de transações milionárias suspeitas conectada ao escândalo do Banco Master.
Batizada de Operação Wi-Fi Livre, a ação da polícia mira o Instituto Conhecer Brasil (ICB), comandado por Karina Ferreira da Gama, fundadora da produtora Go Up, que está no centro das suspeitas envolvendo o filme.
Neste caso, a ONG é suspeita de fraude em um contrato com a prefeitura de São Paulo para a instalação de uma rede gratuita de wi-fi em comunidades da cidade. O valor do contrato era inicialmente de R$ 108 milhões, mas subiu para R$ 157,1 milhões graças a aditivos assinados pela gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), um aliado do bolsonarismo.
Suspeitas
Segundo investigação do Ministério Público de São Paulo e da Polícia Civil, a ONG teria de instalar 5 mil pontos públicos de acesso ao wi-fi nas periferias da capital paulista até junho de 2025. De acordo com os dois órgãos, foram instalados até agora 3.200 pontos. Ao menos três aditivos foram assinados com alterações na data de entrega total do serviço.
A ONG teria apresentado pelo menos R$ 16,5 milhões em notas fiscais consideradas irregulares à prefeitura para justificar as despesas do contrato.
A investigação apura suspeitas de crimes de frustração do caráter competitivo de procedimento licitatório, fraude na execução de contrato administrativo e emprego irregular de verbas ou rendas públicas.
A polícia também suspeita que a ONG foi contratada irregularmente pela prefeitura por um valor bem acima do comumente praticado pelo mercado. Cada ponto de wi-fi contratado pelo ICB custou R$ 1.800 para a prefeitura, enquanto outras empresas praticam preços que não chegam a 15% desse valor.
Há ainda a suspeita por parte dos investigadores de que uma parcela dos recursos tenha sido usada para financiar a produção do filme de Bolsonaro.
O instituto de Karina é o principal alvo da operação, mas também são cumpridas diligências em outras empresas que teriam sido subcontratadas. A polícia fez ainda buscas na Secretaria Municipal para obter os contratos, as prestações de contas e os documentos relacionados ao termo de colaboração.
Tanto a ONG quanto a produtora do filme funcionam oficialmente em um mesmo endereço da Avenida Paulista. No entanto, as duas mudaram para endereços na Rua Haddock Lobo, nos Jardins, sem atualização cadastral junto a órgãos oficiais.
Segundo a Polícia Civil, "as investigações desenvolvidas apontaram possível cenário de grave comprometimento da lisura administrativa e financeira desde a origem da contratação da organização parceira".
"O primeiro elemento de suspeita reside no próprio direcionamento do chamamento público, o qual contou com a participação exclusiva do Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade que, conforme apurado, não ostentava qualquer histórico de atuação, experiência anterior ou capacidade técnica no setor de telecomunicações, limitando seu histórico operacional a feiras de livros e eventos de natureza literária ou religiosa", diz a polícia.
O delegado à frente da investigação também citou "consistentes suspeitas" de desvio de recursos da prefeitura paulistana para a produção do filme sobre Bolsonaro, segundo vários jornais.
Prefeitura diz colaborar com investigações
Após o anúncio da operação, o prefeito Ricardo Nunes disse que a gestão municipal está à disposição para auxiliar nas investigações.
"Não constatamos nada de irregular no processo, mas estamos à disposição para colaborar, como já vem sendo feito. Se por acaso tiver a identificação de alguma irregularidade, obviamente tomaremos todas as providências de forma rigorosa", afirmou ele à emissora GloboNews.
Falando com jornalistas, Nunes disse ainda considerar Karina uma mulher "decente" e "trabalhadora" que poderia estar sendo alvo de "perseguição política".
Já a Prefeitura de São Paulo disse, em nota, que colabora com investigações e que todo o material requisitado na manhã desta segunda já havia sido encaminhado às autoridades e é, desde sempre, de acesso público através da prestação de contas do município.
Ao g1, a empresária disse desconhecer que notas fiscais emitidas por prestadores de serviço tenham sido canceladas. Segundo ela, os problemas nas notas fiscais do próprio instituto "já estão sendo resolvidos na prestação de contas que estou preparando para entregar do bimestre".
Expansão de negócios após ligação com Mário Frias
Alvo da operação nesta segunda-feira, a empresária Karina Ferreira da Gama tem ligações com negócios em esferas completamente díspares, como produção cultural, construção civil, feiras religiosas e marketing.
Segundo o jornal Folha de S.Paulo, a ascensão empresarial de Gama coincide com o momento em que ela conheceu o atual deputado federal Mario Frias (PL-SP), oficialmente creditado com o roteirista de Dark Horse e também envolvido em negociações financeiras da produção. "Os dois foram apresentados quando o ex-ator-global assumiu a secretaria de Cultura no governo Bolsonaro, em 2020, e se conectaram por afinidade ideológica", apontou o jornal.
Ainda segundo a Folha, a proximidade abriu portas para que Gama recebesse projetos do campo político bolsonarista. "A partir de 2020, suas empresas passaram a receber dinheiro para trabalhar em campanhas do PL, inclusive a de deputado federal de Mario Frias, e verbas de emendas", diz o jornal, que apontou ainda que um dos maiores projetos foi justamente o contrato com a Prefeitura de São Paulo para fornecer pontos de wi-fi na cidade.
Deputados do PL de Bolsonaro também direcionaram mais de R$ 4,5 milhões em emendas parlamentares para o ICB e para a Academia Nacional de Cultura, outra organização ligada a Karina Gama. Ainda segundo a Folha, em 2025, a empresária organizou uma esvaziada feira religiosa em São Paulo que recebeu R$ 3,5 milhões da Prefeitura de São Paulo, via Secretaria Municipal de Turismo.
Apesar dos contratos milionários, tanto com a prefeitura e o filme sobre Bolsonaro, Gama não tem imóveis em seu nome. Em 2025, ela requereu a concessão de uma casa num bairro de periferia da zona norte de São Paulo, tentando sua inclusão num programa voltado para famílias de baixa renda.
O vereador paulistano Nabil Bounduki (PT), que em fevereiro denunciou suspeitas de irregularidades no contrato da ONG ICB e a Prefeitura de São Paulo, acusa Gama de ser uma "laranja dos Bolsonaros".
Gama é ainda fundadora da Go Up, produtora de Dark Horse, que não tem oficialmente filmes registrados junto à Agência Nacional do Cinema (Ancine). Ela também é sócia-administradora da empresa nos Estados Unidos, ao lado de Michael Brian Davis.
Outros negócios suspeitos envolvendo Gama passaram a ser escrutinados após a revelação que o filme Dark Horse recebeu recursos do banqueiro Daniel Vorcaro, que liderou o esquema de fraudes bilionárias do Banco Master.
O site Intercept Brasil revelou em maio que Vorcaro destinou R$ 61 milhões à produção do filme. Os valores foram repassados após vários pedidos feitos pelo senador e pré-candidato presidencial Flávio Bolsonaro (PL), que chegou a cobrar mais recursos do banqueiro antes da prisão de Vorcaro em 2025. A Polícia Federal investiga se o dinheiro foi na realidade lavado usando a produção do filme e desviado para a família Bolsonaro. Antes da revelação, Flávio havia mentido ao negar ter tido qualquer contato com Vorcaro.
Nesta segunda-feira, o senador comentou rapidamente a operação da polícia paulista. "[Não] tem nada a ver com o filme", disse ao ser questionado durante a chegada um evento no Rio de Janeiro.
jps/ra (ots)