A participação de eleitores jovens no Brasil caiu expressivamente, com recuo de até 23% na faixa de voto facultativo, reflexo da desilusão com a polarização política. Paralelamente, influenciadores da extrema direita, como Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato, ganharam força histórica ao impulsionar o voto conservador masculino, enquanto mulheres jovens tendem ao campo progressista. O cenário evidencia fragmentação geracional, na qual a abstenção e o voto de rejeição desafiam a esquerda.
Lúcia Müzell, enviada especial da RFI a Belo Horizonte
A faixa de eleitores de 16 a 24 anos representou 14,9 milhões de eleitores nas urnas no primeiro turno, 12% a menos do que na última eleição, em 2022. A diminuição na faixa de 16 a 18 anos, quando o voto é facultativo, é ainda maior: os registros de títulos de eleitor nesta idade caíram 23%, passando de 2,1 milhões para 1,6 milhão, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Vendedor de doces no Mercado Central de Belo Horizonte, Eduardo, de 22 anos, votou pela primeira vez ao fazer 18 anos, mas agora decidiu não participar do pleito. "Vi os dois lados no governo e os dois foram ruins. Proposta que é bom, não tem, então vou passar bem longe do segundo turno", disse ele à RFI. "Os políticos ficam só brigando e enquanto isso as pessoas morrem nas filas dos hospitais, os preços estão os olhos da cara. Não acho que nenhum deles [Flávio Bolsonaro e Lula] vá mudar alguma coisa."
A cientista política Mayra Goulart, coordenadora do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aponta a polarização política dos últimos anos como uma das razões para explicar o aumento do desinteresse de uma parte desses eleitores.
"Eu não acredito que seja uma questão geral, de os jovens estarem menos engajados na política. Mas as dinâmicas que acentuam os componentes ideológicos de determinados segmentos acabam afastando aqueles que não desejam demarcar suas posições. Passa a ser um campo relativamente minado", analisa.
Esquerda perde espaço
Com uma diferença de mais de 2,5 milhões de votos de vantagem do candidato do PL sobre o petista no primeiro turno, os jovens são uma prioridade da campanha de Lula, candidato à reeleição. Historicamente, os mais novos tendem a votar à esquerda, mas a emergência de influenciadores digitais ultraconservadores balança este cenário.
Filho de um pastor evangélico da periferia de Belo Horizonte e formado em Direito, Nikolas Ferreira, 30 anos, ganhou projeção nacional pelas redes sociais com críticas ao PT e a defesa de pautas conservadoras, como o combate ao aborto e as políticas de gênero. Seus vídeos, com linguagem acessível e tom de ironia, são vistos por milhões de pessoas em todo o país. Agora, apenas seis anos depois de entrar na política, ele teve mais de 3,1 milhões de votos para deputado federal e se consolidou como uma liderança do bolsonarismo.
A ascensão e o discurso de Nikolas seduzem jovens como o gerente de uma banca de complementos alimentares João Lanza, 23 anos. Ele evoca a situação econômica do país e os valores religiosos como as razões para escolher Flávio presidente.
"O povo brasileiro precisa voltar a sonhar, adquirir, melhorar o poder de compra. Eu e minha família valorizamos a família e os princípios da Bíblia", explicou. "O brasileiro cansou desse discurso assistencialista, populista. O brasileiro quer o concreto."
Liberalismo, segurança pública e gênero
O deputado federal Lucas Pavanato, que superou o recorde de votos de Eduardo Bolsonaro em São Paulo, prega o liberalismo econômico, políticas duras de segurança e tem nas questões de gênero uma de suas prioridades. Ele declarou sobre as pessoas trans: "não suporto essa farsa, um homem é um homem e uma mulher é uma mulher".
Somadas, as votações de Nikolas e Pavanato puxaram a eleição de mais 15 deputados do PL para o Congresso.
Outra expoente do partido em São Paulo, a eleita deputada estadual Eduarda Campopiano diz ser "a maior inimiga das feministas". Católica praticante, a jovem de apenas 23 anos ganhou a confiança de mais de 2 milhões de eleitores.
"Há indicadores de radicalização ideológica principalmente no caso dos jovens do sexo masculino. Eles têm sido muito capturados em redes de misoginia, que muitas vezes flertam com atitudes que são criminosas", salienta Mayra Goulart.
"Já as meninas passam por um processo de maior percepção da importância dos compromissos com dinâmicas progressistas e são menos afeitas a discursos de defesa da moralidade tradicional da família tradicional, porque observam nesses valores e ideais algo muito ruim para as suas trajetórias profissionais e afetivas", pondera a cientista política.
Em Minas Gerais, a deputada estadual petista recém-eleita Ana Elisa, de 21 anos, reflete essa dinâmica: preta, ela rompe com o destaque de políticos influenciadores principalmente de direita e se tornou uma referência de como o PT pode reagir à força dos ultraconservadores na esfera digital.
"Eu acho que há uma certa dificuldade de observar o quão popular é o discurso da extrema direita e como ele é capaz de capturar diferentes grupos que não se reconhecem como marginalizados", aponta Goulart.
Renan Santos, voto jovem de rejeição
Neste contexto, também chama a atenção a projeção que um nome de fora da divisão PL-PT registra particularmente nesta faixa etária. O candidato Renan Santos, fundador do Movimento Brasil Livre (MBL) e candidato pelo partido Missão no primeiro turno, tinha o dobro de intenções de voto dos opositores entre o eleitorado jovem, conforme indicaram pesquisas da Quaest e do Datafolha.
No segundo turno, seus eleitores são cortejados pelos dois finalistas, mas Santos afirmou que não apoiará nem Flávio, nem Lula. Ele defendeu que seus mais de 2,6 milhões de eleitores (2,24% dos votos válidos) "façam o que quiserem" no próximo domingo.
Para Henrique Amaral Rodrigues, que aos 18 anos participa de sua segunda eleição e sonha em ser policial, a escolha vai ser pelo petista - não por adesão ao candidato, mas por rejeição a Flávio.
"Eu gostei muito do Renan Santos, das propostas dele e do jeito dele de fazer campanha política. Mas no segundo turno, estou indo mais contra o Flávio", indicou. "Nem sou a favor do Lula, mas não admito que o Flávio seja o nosso presidente, principalmente pelas posições dele contra as minorias. O Lula é o único que se conecta com essas pessoas."
Para ouvir a entrevista completa com A cientista política Mayra Goulart, clique no botão "ouvir", no topo da reportagem.