Com medo de ser preso por acusações de lavagem de dinheiro, Flávio Bolsonaro viajou aos Estados Unidos e descumpriu a ordem do STF para entregar seus passaportes. A saída inesperada irritou aliados do PL, que esperavam que ele liderasse a oposição após a derrota eleitoral, e foi classificada como vergonhosa pelo presidente Lula. Embora não haja mandado de prisão expedido contra o parlamentar, a Polícia Federal investiga agora as circunstâncias de como se deu a sua saída do território brasileiro.
Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília
A fuga de Flávio pode levar a direita a defenestrar a família Bolsonaro da política? Pode ser cedo para essa indagação, mas o medo de ser preso que tomou conta do candidato derrotado nas eleições e o levou a fazer as malas rumo aos Estados Unidos, descumprindo uma decisão judicial, irritou muita gente de seu próprio círculo político.
O coordenador da campanha do PL, Rogério Marinho, visivelmente contrariado com a fuga, disse que foi pego de surpresa:
"Porque ontem nós conversamos sobre a necessidade de que Flávio, com os 60 milhões de votos que teve, assumisse o papel de liderança da oposição nesse momento. Então, claro, ficamos surpresos."
Flávio Bolsonaro não é considerado foragido porque não houve mandado de prisão contra ele. A apreensão do passaporte foi determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, a partir de um pedido da Polícia Federal, que alegou risco concreto de fuga, inclusive pela presença de uma estrutura para acolher a família de Flávio nos Estados Unidos, onde mora seu irmão e onde ele deve receber o visto de permanência do governo de Donald Trump.
No pedido, os investigadores também citam uma declaração de Eduardo Bolsonaro que, em entrevista a um podcast norte-americano, chegou a sugerir a saída do irmão do Brasil caso ele perdesse a eleição.
"A decisão de Alexandre de Moraes se baseou numa frase do Eduardo de 23 de outubro. Eu nunca pensei em sair do país. Eu vou entregar meus passaportes e vou me defender dessa aberração", afirmou na segunda-feira o próprio Flávio Bolsonaro.
Só que ele não entregou os documentos e fugiu.
'Vergonhoso', diz Lula
"Eu lamento que ele tenha saído do Brasil, porque ele poderia ficar aqui e provar que as acusações que estão na imprensa não são verdadeiras", comentou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que criticou a fuga:
"Esse ato de sair do Brasil é vergonhoso. Quando eu fui acusado, tive muitos convites para sair do Brasil. Tive muitos convites para ir para embaixadas. Eu resolvi ficar aqui no Brasil. Resolvi me entregar à Polícia Federal porque eu queria desmascarar os meus acusadores e provar a minha inocência."
Flávio é acusado de lavagem de dinheiro em inquérito no STF, juntamente com Willer Tomaz, em processo envolvendo casas de apostas, e de receber recursos de Daniel Vorcaro. A Polícia Federal apura como se deu a saída dele do Brasil.