Em virada histórica, Lula venceu Flávio Bolsonaro por 4,3 milhões de votos e conquistou a reeleição. Em seu discurso, o petista pregou civilidade, prometeu mudar a forma de governar, dialogar com o Congresso conservador e regular plataformas digitais, além de acenar à direita na segurança pública. Já Flávio não reconheceu a derrota e anunciou que pedirá a anulação do pleito devido à extensão do horário de votação, medida cuja lisura e impacto nulo no resultado foram garantidos pelo TSE.
Lúcia Müzell, enviada especial da RFI a São Paulo
"Eu não vou falar a palavra unidade nacional porque essa palavra nem sempre cabe nesse país, mas eu quero que vocês saibam: se depender de mim, esse país só tem que ser civilizado. Esse país tem uma Constituição", afirmou Lula, ao celebrar a reeleição, depois de uma virada histórica nas urnas.
Contrariando todas as pesquisas de intenções de voto, ele reverteu os resultados negativos do segundo turno, vencendo com uma vantagem de 4,3 milhões de votos em relação a Flávio Bolsonaro. No primeiro turno, o candidato bolsonarista teve 2,1 milhões a mais.
Foi a primeira vez na história da democracia brasileira que um candidato perdedor da primeira votação promove uma virada desta amplitude. Em um hotel em São Paulo, ele agradeceu à participação massiva dos eleitores no pleito, dos jovens aos idosos, e à mobilização nas ruas e na internet.
"Eu nunca ganhei eleição no meu primeiro turno, mas nunca perdi nenhuma no segundo turno", brincou o presidente, ao lado de caciques do PT e aliados.
Flávio diz ser 'impossível' reconhecer derrota
Flávio Bolsonaro acompanhou a apuração em Brasília, onde sua campanha havia preparado uma festa da vitória. Após a divulgação dos números finais da votação, ele disse que "é impossível" atestar a lisura do pleito, alegando que a decisão do ministro do STF Cristiano Zanin de determinar a prorrogação do horário de votação por duas horas, devido a transtornos nos transportes de eleitores, significava "mudar as regras" do pleito.
"Nós vamos usar o nosso jurídico, vamos pedir a anulação dessas eleições. Não vou aceitar que a regra do jogo tenha sido mudada em cima do jogo, mais uma vez, pelos amigos do Lula no Supremo Tribunal Federal", disse o candidato derrotado.
O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, que durante a campanha foi acusado de favorecer Flávio, garantiu ter "absoluta segurança" de todo o processo eleitoral e parabenizou Lula pela "expressiva vitória nas urnas". Ele sublinhou que a extensão da votação até às 19h não interferiu no resultado final do pleito.
Lula diz estar pronto para lidar com Congresso mais conservador
Em São Paulo, Lula salientou que "ninguém é obrigado a gostar do presidente eleito, mas ele foi eleito para governar para todos, com base no respeito à Constituição". "Já tem gente falando: 'o Lula vai ter muita dificuldade para governar porque o Congresso está mais conservador'. Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu, e é com ele que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas", apontou o presidente.
A partir de janeiro, o petista vai encontrar um Congresso ainda mais hostil do que no atual mandato: o PL conquistou a maior bancada da Câmara e do Senado, com 121 deputados.
"Essa eleição foi uma derrota do negacionismo, foi uma derrota da mentira", destacou o petista. "Eu nunca pensei em me deparar com um representante genuíno do milicianismo", reiterou, em referência ao candidato do PL.
Regulação de plataformas digitais e acenos à direita
Em seu discurso, o petista sinalizou que haverá mudanças na comunicação digital do governo e ressaltou o papel das plataformas durante o pleito. Ele prometeu regular a atuação das redes sociais.
"A gente teve que vencer a intromissão vinda de fora para dentro, através de plataformas digitais", frisou. "Nós não podemos ter empresas monstruosas de grandes, ganhando bilhões e bilhões, não pagando nenhum imposto para esse país e tentando direcionar o resultado eleitoral desse país."
No pronunciamento e na comemoração da vitória na sequência, na Avenida Paulista lotada, Lula deu destaque ao papel do vice-presidente, Geraldo Alckmin, que, segundo ele, "salvou a democracia duas vezes". Depois, mencionou as "muitas lições que aprendeu na campanha".
"Eu posso garantir para vocês que nós vamos mudar o jeito de governar esse país", indicou.
O presidente também agradeceu a novos nomes da nova geração do partido: o deputado federal mineiro André Janones, que liderou a iniciativa nas redes Exército de Lula, e o governador eleito do Piauí, Rafael Fonteles. Fez, ainda, um aceno para o eleitorado da direita, ao prometer políticas de segurança pública.
"Nós vamos devolver às mulheres, aos homens, aos trabalhadores, a tranquilidade e a paz que eles precisam. Para o povo trabalhador, a gente vai dar proteção. Para o bandido, a gente vai dar prisão", disse.
Depois de participar da festa da vitória na Avenida Paulista, onde voltou a discursar e cantou o hino da Independência e o hino nacional junto com a multidão, Lula anunciou que voltaria a Brasília durante a madrugada.