Lula conquista a 1ª vitória da esquerda na América Latina desde que Trump voltou ao poder; veja mapa

A vitória de Lula é primeira eleição presidencial vencida pela esquerda na região desde que Trump voltou à Casa Branca em 2025: na Colômbia, no Peru, na Costa Rica, em Honduras, no Chile, na Bolívia e no Equador, triunfaram candidatos conservadores.

26 out 2026 - 01h15
Resumo
A reeleição de Lula no Brasil freou o avanço conservador na América Latina, sendo o primeiro triunfo da esquerda regional desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca. Apesar de a maioria dos países manter governos de direita alinhados a Washington, o bloco progressista retém o controle das maiores economias regionais, Brasil e México. Especialistas veem o resultado brasileiro como um contraponto histórico à influência dos Estados Unidos e um potencial ponto de virada na política hemisférica.
Mapa mostra países governados pela direita e esquerda na America Latina
Mapa mostra países governados pela direita e esquerda na America Latina
Foto: BBC News Brasil

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Brasil interrompeu o avanço de uma onda de direita que ganhou força na América Latina nos últimos anos, após a volta de Donald Trump ao governo dos Estados Unidos.

A vitória de Lula é primeira eleição presidencial vencida pela esquerda na região desde que Trump voltou à Casa Branca em 2025: na Colômbia, no Peru, na Costa Rica, em Honduras, no Chile, na Bolívia e no Equador, triunfaram candidatos conservadores.

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O mapa ideológico da região segue mais pintado de azul, mas com as duas maiores economias pintadas de vermelho: o Brasil e o México, do governo de Claudia Sheinbaum.

A mexicana, inclusive, foi uma das primeiras a felicitar a vitória de Lula: "Viva a democracia, ganhou o povo do Brasil. Parabéns, presidente Lula!", escreveu nas redes sociais.

Veja como fica o mapa das tendências dos governos da região:

Só em 2026, aconteceram as recentes vitórias de Keiko Fujimori, no Peru, e Abelardo de la Espriella, na Colômbia.

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A professora Carolina Silva Pedroso, do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), avalia que o mapa da região é de um "azul de diferentes tons", com líderes mais radicais (como Javier Milei, na Argentina) e menos (como Rodrigo Paz, da Bolívia).

"Há certa pluralidade dentro do que cada um desses líderes representam, mas o que os unificam é um forte alinhamento ao governo de Donald Trump", diz.

Trump tem buscado ampliar sua influência hemisférica ao apoiar candidatos ideologicamente alinhados, ordenar operações militares diretas na região e formar uma aliança de segurança com 14 governos, denominada Escudo das Américas.

Lula é um dos poucos presidentes latino-americanos que enfrentaram abertamente essa ofensiva de Washington. Por isso, a reeleição do presidente é vista na região como de importância histórica.

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Para Sidney Chalhoub, professor do Departamento de História de Harvard e da Unicamp (Universidade de Campinas), a vitória do Lula "pode ser uma virada na América Latina, principalmente se for acompanhada por uma derrota acachapante do Trump nas midterms".

As midterms são as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos que renovam grande parte do Congresso americano.

"Se ele [Trump] perde força e o Brasil se torna um baluarte da luta contra o avanço da direita na América Latina inteira, esse poder americano e essa ideia de transformar a América Latina no quintal vai esfumaçar", avalia.

A cientista política Denilde Holzhacker, especialista em relações internacionais na ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), avalia que as eleições brasileiras, diferentemente de outros países na América Latina, tiveram como pauta importante uma avaliação negativa sobre a intervenção americana e das grandes empresas donas das redes sociais, as big techs.

Holzhacker também diz que o eleitor brasileiro olhou para a situação de países vizinhos onde a a direita ganhou, como a Argentina. Em diversos momentos, a campanha de Lula explorou a relação Flávio Bolsonaro com Javier Milei.

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"E o governo do Milei representa um alinhamento com os Estados Unidos que essa direita que tem assumido na América Latina, mas ela não significa melhora da vida das pessoas", avaliou.

Brasil e Uruguai

Lula e Orsi, presidente do Uruguai, únicos líderes da esquerda latino-americana na América do Sul
Foto: Ricardo Stuckert/Presidência / BBC News Brasil

Na América do Sul, além do Brasil, a esquerda latino-americana mantém apenas o governo do Uruguai.

O país, considerado um dos mais estáveis e prósperos da região, é governado pelo esquerdista Yamandú Orsi, ganhador das eleições em novembro de 2024. Antes, os uruguaios eram governados por Luis Alberto Lacalle Pou, de direita.

As próximas eleições presidenciais uruguaias estão previstas para 2029.

Os outros dois países "vermelhos" no mapa são Guiana e Suriname, administrados por partidos ligados à centro-esquerda.

São os países menos populosos da região e que não são considerados "latinos", já que suas línguas predominantes não derivam do latim pelo histórico de colonização ligado à Inglaterra e à Holanda, respectivamente.

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No caso da Guiana, apesar da origem de esquerda, o presidente Irfaan Ali, no poder desde 2020, tem participado da iniciativa Escudo das Américas, aliança de segurança regional lançada por Trump para o combate ao narcotráfico e ao crime transnacional na região.

Ele assinou comunicado conjunto com governos de direita no qual afirma estar disposto a impor sanções a 24 facções criminosas, entre elas Comando Vermelho e PCC, classificadas pelo grupo como "narcoterroristas".

Já o Suriname é governado por Jennifer Geerlings-Simons desde 2025.

O último país não pintado de azul é a Venezuela. As contestadas eleições de 2024 deram vitória ao esquerdista Nicolás Maduro, que, no início deste ano, foi capturado pelo governo Trump em plena Caracas.

Desde então, a Venezuela é presidida por sua vice, Delcy Rodríguez, membro do governo Maduro, mas que tem mantido relações com os EUA e vem desmantelando o modelo econômico chavista.

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*com reportagem de Iara Diniz e Rute Pina, da BBC News Brasil, e gráficos da equipe de jornalismo visual da BBC News Brasil

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