Flávio e Lula disputam Presidência em eleição que pode ser definida pela abstenção

25 out 2026 - 08h07
Resumo
Flávio Bolsonaro e Lula disputam a Presidência em um segundo turno acirrado, marcado por forte polarização, ataques mútuos e empate técnico nas pesquisas, com leve vantagem numérica para o senador. Após liderar a primeira etapa, Flávio tenta conter o avanço gradual do petista, que ampliou sua mobilização digital e de rua. Diante do cenário indefinido, o nível de abstenção eleitoral é apontado como o fator decisivo para a vitória, enquanto cresce o receio de novas disputas judiciais pós-pleito.

Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidem neste domingo quem governará o Brasil a partir ‌de 5 de janeiro de 2027 após uma das campanhas eleitorais mais tensas e recheadas de acusações da história da política brasileira, sem que as pesquisas apontem um favorito claro e com um provável papel decisivo do comparecimento dos eleitores às urnas.

Senador de oposição e filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, Flávio, de 45 anos, largou na frente após um resultado surpreendente no primeiro turno, disputado há três semanas, quando terminou na liderança com 47,03% dos votos, contra 45,16% de Lula.

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O atual presidente e candidato à reeleição, que completará 81 anos na próxima terça e que busca um quarto mandato presidencial, reduziu gradativamente a distância para o rival nas pesquisas de intenção de ⁠voto mais recentes, o que leva a corrida a um cenário incerto.

As pesquisas divulgadas na véspera da votação deste domingo mostraram um empate técnico com vantagem númerica de Flávio ‌sobre Lula de no máximo dois pontos nos votos válidos, com 51% a 49%.

"Flávio é ligeiramente favorito, ele não é francamente favorito", disse o cientista político Carlos Melo, do Insper. "Quando você olha para as pesquisas, mais do que o número você tem que olhar para a tendência. A tendência é o Flávio caindo, ou praticamente paralisado, e ‌o Lula subindo muito devagar", acrescentou, apontando que não é possível prever se essa tendência resultará em ‌uma virada a favor de Lula neste domingo.

Um dos fatores cruciais a ser observado, na avaliação de Melo, será o comparecimento às urnas, já que historicamente ⁠o eleitorado que tende a apoiar mais Lula e o PT costuma ter um comparecimento menor. Não à toa, a campanha de Lula vem concentrando esforços em incentivar pessoas que não votaram no primeiro turno a comparecerem na seção eleitoral neste domingo. No primeiro turno, mais de 33,4 milhões de eleitores não foram votar, uma abstenção de 21,08%, em um total de mais de 158,7 milhões de eleitores aptos a votar.

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As três semanas de campanha do segundo turno foram bastante diferentes dos meses que antecederam o primeiro turno, realizado no dia 4 de outubro. 

No caso de Lula, uma guinada em direção a uma mobilização maciça nas redes sociais e em eventos de rua, que ocorreu ‌sem participação direta do núcleo duro da campanha no primeiro turno, contrastou com uma primeira fase de campanha que o o próprio Lula reconheceu em reunião do PT como a "menos ‌organizada" de que participou desde 1989.

Na véspera da eleição, ⁠antes de participar de evento de campanha em ⁠Copacabana, Lula afirmou que "o povo assumiu para si a responsabilidade de fazer a campanha".

Um dos destaques da campanha petista no segundo turno foi o impulso nas redes, liderada pelo canal de ⁠WhatsApp "Exército do Lula", criado pelo deputado federal reeleito André Janones (Rede-MG), que juntou mais de 10 milhões de pessoas ‌para ouvir as "missões" que Janones dá para os apoiadores ‌cumprirem nas redes.

A campanha de Flávio chegou a entrar no TSE pedindo a suspensão do canal. A guinada digital da campanha petista teve como ápice Lula, um crítico público do uso frequente de celular que se orgulhava de não ter o aparelho, ganhando um de presente do governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), e passando a fazer vários vídeos no formato selfie para apoiadores.

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Do lado de Flávio, após a inesperada liderança no dia 4, o senador deu declarações que ⁠geraram polêmica, como quando disse que, se eleito, usará a força que terá no próximo Congresso para alterar a Constituição. Posteriormente, afirmou que iria propor mudanças constitucionais como o fim da reeleição e a redução da maioridade penal.

Também acabou mudando de posição em temas pautados por Lula, como o fim da escala de trabalho 6x1, ao qual ele votou a favor no Senado, apesar de, num passado muito recente, ter se declarado contrário. O senador, por outro lado, também conseguiu mobilizar grandes públicos em atos de campanha em todo o país, no que foi uma marca da campanha de ambos os lados.

Na ‌véspera da eleição, e em meio à previsão de chuvas fortes nas regiões Sul e Sudeste, onde Flávio teve desempenho melhor que Lula, o senador usou suas redes sociais para incentivar as pessoas a irem votar.

"Pega alguém que não foi votar no primeiro turno e leva para votar no segundo. Compareça às urnas neste segundo ⁠turno, independente do tempo, faça chuva, faça sol, não deixe de sair de casa para votar, cada voto é muito importante", afirmou ele em vídeo publicado em sua conta no Instagram.

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JUDICIALIZAÇÃO

Em uma campanha marcada por grande movimentação das duas campanhas contra os adversários no TSE, que levou o presidente da corte Kassio Nunes Marques, a pedir que as campanhas moderassem a quantidade de ações, há receios de que, independentemente do vencedor, ocorram novos embates mesmo após a declaração do resultado. A expectativa de uma margem apertada a favor do eleito também leva a crer que isso possa ocorrer.

"A expectativa é de que vai ser uma eleição tensa", disse Creomar de Souza, analista político da Dharma Political Risk. "Acho que a gente ainda vai ter algum nível de discussão política, algum nível de embate jurídico", avaliou.

Tanto Flávio quanto Lula não hesitaram em se acusar mutuamente de ladrão, corrupto e mentiroso ao longo de uma campanha em que propostas e discussões sobre o país ficaram em segundo plano. Denúncias de irregularidades contra os candidatos e seus familiares foram amplamente explorados, levando, nos últimos dias, a uma guerra de narrativas sobre a abertura de sigilos das duas partes.

Em uma eleição que mais uma vez marcou a importância das redes sociais no processo político, a Meta, proprietária do Facebook, do Instagram e do WhatsApp também ficou no foco, após a campanha de Lula apontar que teve sua atuação restrita nas plataformas da empresa, levando a big tech norte-americana a prestar esclarecimentos ao TSE. 

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