Flávio Bolsonaro: o herdeiro de Jair tenta levar o clã de volta ao Planalto

Senador estreia na disputa presidencial e tenta impor derrota a Lula quatro anos depois de seu pai não ter sido reeleito.

25 out 2026 - 12h37
Resumo
Flávio Bolsonaro disputa o segundo turno da Presidência contra Lula após liderar o primeiro turno. Para se consolidar, ele adotou uma postura mais moderada e recuou em pautas populares, defendendo o Bolsa Família e o fim da escala 6x1. Sua campanha tenta projetar responsabilidade fiscal e diálogo, mas enfrenta resistências devido ao passado marcado por denúncias de rachadinha, novas investigações no STF e o desafio de conciliar suas promessas com a tentativa de anistiar Jair Bolsonaro.
Flavio Bolsonaro, de perfil
Flavio Bolsonaro, de perfil
Foto: Reuters / BBC News Brasil

"Não é à toa que você é o Bolsonaro moderado", diz Fernanda, esposa do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em um vídeo publicado nas redes sociais do casal em abril. "Reeduquei ele", acrescenta.

A fala ajuda a resumir a imagem que a campanha procurou projetar: a de um Flávio mais moderado e com identidade própria, embora carregue o sobrenome do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

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Essa estratégia também apareceu em temas concretos ao longo da campanha. Flávio, que já havia chamado o Bolsa Família de "bolsa-farelo" e criticado o fim da escala 6x1, recuou dessas posições: passou a defender a manutenção do programa social em seu plano de governo e votou a favor da redução da jornada de trabalho no Senado.

Neste domingo (25/10), Flávio disputa a Presidência da República contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), depois de terminar o primeiro turno à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula.

"Eu estou muito feliz com o resultado que eu assisti agora, quase 56 milhões de brasileiros e brasileiras me dando voto de confiança para mudança. Essa é a leitura de hoje: o Brasil quer mudança", afirmou o senador após o resultado do primeiro turno.

"Está decretado o fim da era do PT, a mudança no nosso país", acrescentou.

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Filho mais velho de Jair, Flávio chega à reta final da campanha com a possibilidade de levar novamente um Bolsonaro ao Palácio do Planalto. Se vencer, poderá impor a Lula o mesmo desfecho que o petista impôs a seu pai em 2022: a derrota na tentativa de reeleição.

Jair Bolsonaro foi o primeiro presidente brasileiro a não conseguir um segundo mandato consecutivo desde que a reeleição passou a ser permitida, em 1997.

O senador também conta com a simpatia e o apoio — ainda que não publicamente declarado— de Donald Trump e mantém laços políticos com o governo americano, acusado por parlamentares democratas e independentes dos Estados Unidos de tentar interferir na eleição brasileira e favorecer Flávio.

Caso eleito, Flávio contará com uma bancada expressiva de aliados no Congresso — o PL terá a maior bancada na Câmara dos Deputados em 2027 — e deve encontrar receptividade no mercado financeiro, onde sua candidatura é associada à expectativa de maior disposição para cortar gastos e ajustar as contas públicas.

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Há, porém, desafios. As promessas de buscar uma forma de libertar o pai, condenado por tentativa de golpe de Estado, e de indicar até cinco ministros para o Supremo Tribunal Federal (STF) colocam a relação com o Judiciário entre as questões centrais de um eventual governo.

A entrada na política aos 19 anos e o passado no Rio de Janeiro

Flávio Bolsonaro começou cedo na política, antes mesmo de sua primeira eleição.

Ainda no ano 2000, aos 19 anos, foi nomeado para um cargo na Câmara dos Deputados, na função de assistente técnico de gabinete na liderança do PPB, então o partido de Jair Bolsonaro.

Segundo declaração do Imposto de Renda de Flávio, o cargo de assistente técnico de gabinete rendeu em 2001 o equivalente a R$ 4.712 por mês, ou R$ 13,5 mil em valores corrigidos.

Uma investigação da BBC News Brasil, porém, levantou indícios de que Flávio seria um funcionário fantasma.

Na mesma época em que estava lotado nesse cargo, que exigia presença em Brasília, o hoje senador tinha duas atividades presenciais no Rio de Janeiro: a faculdade de direito e um estágio voluntário na Defensoria Pública.

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Procurado em 2019, quando a reportagem foi publicada, o senador não quis responder aos questionamentos da BBC News Brasil.

Anos após ter ocupado esse cargo na Câmara, Flávio se tornou alvo da denúncia de que teria servidores fantasmas em seu próprio gabinete.

O caso veio à tona no final de 2018, pouco depois de seu pai ser eleito presidente da República, após o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontar movimentação milionária na conta de Fabrício Queiroz, chefe de gabinete de Flávio na Alerj, incompatível com seu salário.

Sua estreia nas urnas, no entanto, foi em 2002, quando tinha apenas 21 anos. Naquela eleição, Flávio conquistou seu primeiro mandato de deputado estadual, apoiado pelo pai, que já era deputado federal havia mais de uma década.

Queiroz disse que coletava parte do salário de funcionários do gabinete de Flávio sem conhecimento do parlamentar
Foto: Reprodução / Instagram / Flavio Bolsonaro / BBC News Brasil

Depois, em 2020, Queiroz foi denunciado pelo Ministério Público de ser o operador de um esquema que recolhia parte do salário dos funcionários do antigo gabinete de Flávio em benefício do parlamentar, o que configuraria a chamada rachadinha.

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Segundo a denúncia, 12 funcionários fantasmas receberam, no total, R$ 6,1 milhões, em valores da época. Desse montante, o Ministério Público afirma que ao menos R$ 2 milhões foram comprovadamente para a conta de Queiroz e outros R$ 2 milhões foram disponibilizados à organização criminosa por meio de saques em espécie.

Entre as ações suspeitas estavam depósitos fracionados em dinheiro vivo feitos por Queiroz na conta de Flávio Bolsonaro e de sua esposa que, segundo a denúncia, coincidiram com o vencimento de parcelas de financiamentos para adquirir dois imóveis no Rio de Janeiro.

Além disso, os promotores identificaram que Queiroz pagou com dinheiro vivo 169 boletos referentes a pagamentos da escola das filhas de Flávio Bolsonaro e do plano de saúde da família entre 2013 e 2018, somando R$ 247 mil, em valores da época.

Durante as investigações, Queiroz admitiu que recebia parte dos salários dos funcionários, mas disse fazer isso sem anuência de Flávio, o que não convenceu o Ministério Público. Na versão de sua defesa, os recursos eram usados para contratar informalmente outras pessoas para atuar em apoio à atuação parlamentar do então deputado estadual.

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"Nunca teve início um processo criminal contra mim. Eu nunca respondi criminalmente por isso. Foram mais de 30 assessores meus que foram investigados, quebra de sigilo de 11 anos para trás. Essa devassa", disse Flávio Bolsonaro em abril, ao responder sobre as acusações em entrevista ao podcast Inteligência Ltda..

"O que o Queiroz tinha ali no gabinete, ele cuidava de uma parte da minha assessoria que trabalhava em rua, fazia panfletagem, fazia eventos e tal, e ele tinha autonomia sobre esse pessoal e ele fala que ele fazia isso", continuou, repetindo a versão de Queiroz de que o dinheiro que recebeu de funcionários do gabinete de Flávio não era "rachadinha", mas servia para ele contratar mais pessoas informalmente.

Para o filho mais velho de Bolsonaro, as denúncias eram perseguição política para atingir o governo do pai.

"Eu passei 16 anos da minha vida sem ter uma acusação de nada. Bastou o presidente se eleger que começam a aparecer as narrativas", afirmou.

Flávio chegou a ser denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro em 2019 pelos crimes de organização criminosa, peculato e lavagem de dinheiro. O caso, porém, foi paralisado por decisões judiciais sem que o mérito das acusações fosse julgado, após controvérsias em torno do foro privilegiado do senador e da legalidade das provas.

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O Superior Tribunal de Justiça (STJ), por exemplo, anulou decisões da 27ª Vara Criminal do Rio de Janeiro que permitiram a quebra de sigilo bancário e fiscal do parlamentar e de pessoas relacionadas a ele, porque considerou que a medida não foi devidamente fundamentada.

Já o STF anulou relatórios feitos pelo Coaf que embasaram a investigação e as provas decorrentes dele, porque entendeu que o órgão não poderia produzir relatórios de inteligência financeira contra suspeito que ainda não tenha sido incluído formalmente em procedimento investigatório.

Procurado pela BBC News Brasil em maio, o Ministério Público do Rio de Janeiro informou que o caso foi encerrado após o ministro do STF Gilmar Mendes rejeitar um recurso pedindo a reabertura da investigação em fevereiro de 2025.

Acusações de vínculos com milicianos

Deputado estadual por doze anos na Alerj, quando conviveu com Flávio Bolsonaro, Marcelo Freixo (PT-RJ) diz que o filho mais velho de Jair teve um papel de coordenação na atuação da família Bolsonaro no Rio.

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"Tanto é que as reuniões da família, que aconteciam todas as sextas-feiras, eram no gabinete do Flávio. E eu cansei de ver, o Jair e o Carlos [senador eleito por Santa Catarina nas últimas eleições] estavam sempre lá, o Eduardo [então deputado federal por São Paulo] não. Eles sempre faziam reunião ali porque sempre tiveram um projeto familiar. E era no gabinete do Flávio que se organizava tudo, quem trabalhava para cada gabinete, e assim que deu origem a uma série de denúncias [sobre a rachadinha]", continuou.

Para Freixo, a família não tinha ideia de que seria capaz de alcançar a Presidência da República um dia, o que teria levado Flávio a ter pouco cuidado no passado com os esquemas em seu gabinete ou a proximidade com milicianos — algo que Flávio também nega.

Jair Bolsonaro abriu os caminhos na política para os filhos
Foto: MAURO PIMENTEL/AFP via Getty Images / BBC News Brasil

"Na questão comportamental, de fato, era diferente do pai, era educado, cumprimentava todo mundo. Mas ele representa exatamente o mesmo projeto político", relembra Freixo.

"Ele e o Chiquinho Brazão [depois condenado pela morte da vereadora Marielle Franco] foram os únicos deputados que votaram contra a criação da CPI para investigar milícias", disse, em referência à comissão parlamentar que investigou a atuação criminosa de policiais na Alerj, em 2008.

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No site da Alerj, a página oficial sobre Flávio Bolsonaro detalha as atividades dele como deputado estadual. O texto aponta como suas prioridades o combate a "políticas assistencialistas" e o fortalecimento da segurança pública.

Nessa agenda, homenageou, ao longo dos seus quatro mandatos, dezenas de polícias militares, incluindo duas vezes Adriano da Nóbrega, em 2003 e 2005. Expulso da Polícia Militar em 2014, Adriano da Nóbrega foi acusado de atuar na segurança de contraventores do jogo do bicho e, depois, de atuar como miliciano e chefiar o Escritório do Crime, especializado em assassinatos por encomenda. Após ser denunciado em 2019, foi morto numa operação policial para capturá-lo quando estava foragido na Bahia.

Outro homenageado foi Ronald Paulo Alves Pereira, depois condenado pelo assassinato da vereadora Marielle Franco em 2018.

Flávio afirma que não sabia de atuações criminosas desses policiais quando os homenageou.

No caso de Adriano da Nóbrega, houve vínculos duradouros — sua mãe, Raimunda Magalhães, e sua então esposa, Danielle Mendonça da Costa, trabalharam por anos no gabinete de Flávio na Alerj, até serem exoneradas em 2018, quando o escândalo da rachadinha veio à tona.

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Segundo a denúncia do Ministério Público, a quebra de sigilo telefônico de Danielle mostra que ela enviou mensagens a Adriano da Nóbrega no dia da exoneração, pedindo para falar com ele "com urgência" e reclamando da falta de dinheiro após a demissão: "Tenho contas [a pagar]", escreveu ela.

Quando questionado sobre isso, Flávio diz que se aproximou da mãe de Nóbrega quando ela atuava por direitos dos policiais e que manteve as duas no seu gabinete após as denúncias contra ele porque trabalhavam bem e não deveriam ser punidas.

"Você nunca teve alguém que, ao longo de 20 anos, mudou o que fazia, deixou de fazer o certo para fazer o errado? Eu não posso ser envolvido numa situação em que a pessoa era uma coisa, que eu tinha alguma proximidade, respeitava o trabalho dele, a pessoa depois muda, eu tenho que ser responsabilizado por isso? Desculpa, isso é uma grande injustiça", disse, em entrevista ao programa Roda Viva, em 2024.

"Eu não defendo milícia. Nunca defendi que haja um poder paralelo para extorquir trabalhador em comunidades carentes", reforçou Flávio.

Em maio, senadores aliados de Flávio, como Damares Alves (Republicanos-DF) e Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial, minimizaram as acusações à BBC News Brasil, com o argumento de que toda figura pública é alvo de denúncias.

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"Acusações são feitas [contra Flávio Bolsonaro] sem nenhuma base fática. O que existe de concreto é que o nosso opositor foi alguém que foi condenado em três instâncias por corrupção", disse Marinho, em referência às condenações de Lula na operação Lava Jato que foram, depois, anuladas no STF, devido a ilegalidades no processo.

Segundo o aliado, monitoramento interno mostra que os ataques do PT contra Flávio sobre rachadinha e milícias se intensificaram nas redes sociais a partir de dezembro de 2025, logo após Flávio anunciar que tinha sido escolhido pelo pai, Jair Bolsonaro, para disputar a Presidência.

Vínculos com Daniel Vorcaro

O maior abalo à imagem de Flávio durante a campanha, no entanto, viria em maio deste ano, com a revelação de que o senador manteve conversas com o banqueiro Daniel Vorcaro, do banco Master, cobrando aportes milionários para a produção de um filme em homenagem ao seu pai.

Segundo o portal Intercept Brasil, o banqueiro teria repassado ao menos R$ 61 milhões para a obra em 2025 e Flávio teria feito contatos cobrando a liberação dos valores restantes do acordo de financiamento, que chegaria a R$ 134 milhões.

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O senador negou qualquer ilegalidade, mas teve que responder ao longo de toda a campanha pela proximidade com um dos nomes mais tóxicos da política brasileira.

"No nosso caso, o que aconteceu foi um filho, procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. (...) Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem", disse em nota, à época.

Flávio Bolsonaro repassou ao menos R$ 61 milhões de Vorcaro ao filme Dark Horse, mas nega irregularidades
Foto: Reprodução/PF / BBC News Brasil

Em agosto, em sabatina ao Jornal Nacional, Flávio disse que o tema estava "mais que esclarecido" e era um "livro fechado, ressignificado e na prateleira".

Cobrado, porém, o senador nunca apresentou um detalhamento de como os mais de R$ 60 milhões que teriam sido recebidos do Master para a produção de Dark Horse foram, de fato, gastos na produção.

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Em setembro, a apuração do site Intercept serviu de base para a abertura formal de um inquérito no STF sob relatoria do ministro André Mendonça, no qual Flávio é investigado por suposta lavagem de dinheiro, corrupção e outros possíveis crimes no financiamento do filme sobre a vida de Jair Bolsonaro.

Se Flávio derrotar Lula neste domingo (25/10) e assumir a presidência em janeiro, no entanto, os processos em que é réu serão suspensos, seguindo uma norma da Constituição brasileira.

Segundo a Carta Magna, "o Presidente da República, na vigência de seu mandato, não pode ser responsabilizado por atos estranhos ao exercício de suas funções".

Isso significa que os processos de Flávio Bolsonaro anteriores à Presidência só poderão ser solucionados pela Justiça depois que ele deixar o cargo de presidente. É uma espécie de imunidade processual conferida a quem ocupa o cargo em relação aos processos anteriores a seu mandato.

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Michelle, tarifaço e crise do STF

Embora tenha representado um abalo nas intenções de voto no senador ao longo da campanha, a crise envolvendo o financiamento do filme Dark Horse não foi a única pedra no caminho de Flávio.

Em junho, o filho mais velho de Jair se envolveu em uma desavença pública com sua madrasta, Michelle Bolsonaro. A briga teve como pivô divergências sobre as articulações e alianças políticas do PL para as eleições no Ceará.

O desentendimento começou quando o PL decidiu apoiar a pré-candidatura de Ciro Gomes (PSDB) ao governo do Ceará, movimento defendido por Flávio com o aval do ex-presidente Jair Bolsonaro para enfraquecer o PT no estado. Michelle criticou publicamente a aliança e defendeu apoio a nomes do setor conservador, como o senador Eduardo Girão para o governo e Priscila Costa para o senado.

Em vídeos publicados nas redes sociais em junho, Michelle afirmou ter sido tratada de forma ríspida e desrespeitada por Flávio em uma ligação telefônica, relatando que ele teria dito que ela "não entendia nada de política" e deveria ficar fora das decisões partidárias.

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Michelle e Flávio posteriormente fariam as pazes publicamente, mas a crise resultou na saída da ex-primeira-dama da presidência nacional do PL Mulher e abalou momentaneamente o apoio do senador entre o eleitorado feminino, desde o princípio uma das fragilidades de sua campanha.

Briga pública com Michelle foi uma das muitas polêmicas que abalaram a campanha de Flávio antes da vitória
Foto: AFP via Getty Images / BBC News Brasil

Em julho, a campanha foi novamente abalada pelas sobretaxas de até 37,5% impostas por Donald Trump sobre a importação de produtos brasileiros.

O tarifaço veio em duas etapas: uma taxa de 25%, aplicada em 22 de julho, sob alegações de restrições comerciais e regulatórias do Brasil (como o Pix e o etanol); e uma nova taxa de 12,5%, sob pretexto de combate ao trabalho forçado.

As medidas devolveram a Lula o discurso de defesa da soberania, que em 2025 havia turbinado sua intenção de voto. Flávio viajou a Washington para tentar adiar a sobretaxação por 180 dias, sendo duramente criticado por adversários como o ex-governador Ronaldo Caiado, que classificou a atitude como "inaceitável" e voltada a interesses eleitorais pessoais em detrimento da soberania nacional.

A campanha de Flávio foi ainda marcada pela dificuldade de costurar alianças partidárias, com siglas do Centrão como PSD, PP, União Brasil e Republicanos optando pela neutralidade.

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A dificuldade se expressou inclusive na formação da chapa presidencial, com uma busca por vice que durou meses e culminou na escolha de última hora, em agosto, do pouco conhecido deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) — alvo de um pedido de investigação pela Polícia Federal sobre um suposto caso de estupro de menor, o que Gaspar nega.

Após a sucessão de abalos em sua campanha, porém, Flávio se beneficiou da crise que abalou o STF antes do primeiro turno.

Tendo os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça como pivôs, a contenda expôs um racha entre alas do Supremo, ampliando na sociedade o sentimento contrário ao status quo, o que impulsionou o crescimento do candidato do PL nas pesquisas. A estratégia da campanha de Flávio foi colar o desgaste do Supremo a Lula.

Na reta final, a polêmica envolvendo a suposta retirada do título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida colocou Flávio na defensiva, mas não foi suficiente para impedir o senador de atrair o voto útil da terceira via na última milha, chegando à frente de Lula no primeiro turno e dando fôlego ao bolsonarismo em um país dividido.

Bolsonarismo moderado?

Flávio tentou driblar a alta rejeição ao pai se colocando como uma versão moderada de Bolsonaro
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Enquanto Flávio tentou construir ao longo da campanha uma versão suave do seu mentor, a campanha do PT investiu na ideia de que "não existe Bolsonaro moderado" e que Flávio defende as mesmas agendas do ex-presidente.

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Um vídeo compartilhado em abril pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) o acusou de ser de "extrema-direita" e "uma ameaça à nossa democracia e soberania", citando falas do senador, como a sugestão de que um próximo presidente bolsonarista poderia ter que usar a força para garantir uma anistia ou um indulto a seu pai, caso o Supremo Tribunal Federal (STF) considere a medida inconstitucional.

"É uma hipótese muito ruim, porque a gente está falando de possibilidade e de uso da força. A gente está falando da possibilidade de interferência direta entre os Poderes. Tudo que ninguém quer. E eu não estou falando aqui, pelo amor de Deus, no tom de ameaça. Estou fazendo uma análise de cenário. É algo real que pode acontecer", disse Flávio ao jornal Folha de S.Paulo em junho de 2025.

O vídeo petista citava também uma declaração feito por Flávio Bolsonaro em outubro de 2025, sugerindo que os Estados Unidos bombardeassem navios na costa brasileira, repetindo o que fez contra embarcações supostamente ligadas ao tráfico de drogas na Venezuela.

"O zero um é legítimo representante da extrema-direita carnívora e radical", dizia ainda a gravação, em referência ao primeiro filho de Bolsonaro.

Ao longo da campanha, o senador apostou em conteúdos nas redes sociais para exibir sua moderação.

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Em fevereiro, por exemplo, divulgou um vídeo exaltando a importância do Carnaval para a economia do país, em contraste com críticas conservadoras à festa.

Já em 8 de março, Dia da Mulher, Flávio compartilhou vídeos abordando problemas como a alta nos feminicídios e a falta de creches para que as mães possam deixar os filhos enquanto trabalham.

Em outra mensagem, celebrou figuras históricas da luta pelo direito das mulheres, como a feminista Berta Lutz, que liderou a conquista do voto feminino; Antonieta de Barros, primeira deputada negra brasileira; e Maria da Penha, ativista no combate à violência de gênero que dá nome à lei de proteção às mulheres.

Quando era presidente, Jair Bolsonaro chegou a ironizar a importância da lei, ao defender mais acesso a armas para mulheres se defenderem.

"Vamos supor que você está sozinha, à noite, numa estrada, e fura o pneu do seu carro. E, de repente, você percebe que está chegando gente que pode lhe causar algum problema. Você preferia sacar da bolsa a Lei Maria da Penha ou uma pistola?", disse, em 2022.

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Para a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), Flávio teve uma campanha bem-sucedida, puxada pelo sentimento antipetista de parte do eleitorado e uma frustração com o desempenho econômico do governo Lula.

Na sua avaliação, Flávio não tenta ser uma versão moderada do pai, "ele é", e isso foi sua vantagem eleitoral.

"É uma vantagem porque a direita, que alguns chamam de extrema-direita, já percebeu que, pra governar, vai ter que ser assim. Vai ter que ser dialogando numa forma moderada e esquecer o radicalismo em algumas pautas que não nos levaram a nada", disse à BBC News Brasil em maio, citando como exemplo antigas críticas à política de cotas raciais e ao movimento sindical.

"O Flávio, quem acompanhou ele na Assembleia Legislativa [do Rio], já era o perfil parlamentar dele [de mais diálogo], inclusive sendo o contraponto do pai. Aqui [no Senado], ele está há sete anos com mandato, foi senador quando o pai era presidente, num período extremamente polêmico, de pandemia e tudo, e ele conseguiu dialogar, conseguiu acalmar muita coisa", reforçou a senadora.

Mudança de rota no segundo turno

Após o primeiro turno, Flávio recebeu o apoio de outros candidatos à Presidência, como os ex-governadores Ronaldo Caiado e Romeu Zema, além do escritor Augusto Cury.

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Apesar do reforço político, o segundo turno levou Flávio Bolsonaro a rever posições em temas de forte apelo popular.

O principal exemplo foi o fim da escala 6x1. Depois de classificar como "oportunista" a defesa da proposta por Lula, o senador anunciou que votaria a favor da PEC que reduz a jornada de trabalho e apoiou o texto no Senado, em 14 de outubro.

O senador justificou a mudança dizendo ter ouvido trabalhadores durante a campanha. Ao mesmo tempo, o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), afirmou que, em um eventual governo de Flávio Bolsonaro, a sigla pretende apoiar uma proposta alternativa que permita ao trabalhador optar por um modelo de remuneração por hora trabalhada, com regras diferentes das previstas na CLT.

Na área social, a campanha procurou responder às críticas sobre o possível impacto de um ajuste fiscal sobre os mais pobres.

Daniella Marques, coordenadora econômica da candidatura, anunciou uma regra de transição de dois anos para beneficiários do Bolsa Família que conseguissem emprego formal ou abrissem um negócio, com possibilidade de retorno ao programa caso perdessem a renda.

A proposta foi usada por aliados de Lula para questionar as intenções de Flávio em relação ao programa, que o senador já chamou de "bolsa-farelo".

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Flávio negou que pretenda acabar com o Bolsa Família, e seu plano de governo prevê a manutenção do benefício. A regra de transição, segundo a campanha, busca incentivar a entrada no mercado de trabalho sem retirar imediatamente a proteção social.

O discurso sobre as contas públicas, porém, continuou a gerar dúvidas. Reportagens apontaram que interlocutores da campanha estudavam um pacote fiscal para economizar cerca de R$ 250 bilhões, com medidas como desvincular os reajustes da Previdência e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) dos ganhos reais do salário mínimo.

Em entrevsita à TV Globo, Flávio disse que não vai desvincular esses benefícios do salário mínimo e que vai manter os reajustes acima da inflação. Como mostrou reportagem da BBC News Brasil, economistas afirmam que não há viabilidade de conciliar essas promessas com um ajuste fiscal expressivo.

Flávio Bolsonaro ao lado dos deputados Lucas Pavanato e Nikolas Ferreira no 'Bloquinho 22'
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Disputa na Justiça Eleitoral

A disputa também se intensificou na Justiça Eleitoral. A campanha de Flávio acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para suspender o canal de WhatsApp "Exército do Lula", criado pelo deputado André Janones para mobilizar apoiadores do presidente.

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O pedido levou a decisões conflitantes no tribunal: o canal chegou a ser suspenso por determinação do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, mas foi restabelecido pelo corregedor-geral eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva. Em seguida, a área técnica do tribunal informou que não havia encontrado, nas mensagens analisadas de 2 a 11 de outubro, as publicações falsas citadas pela campanha de Flávio.

A disputa também ganhou força nas ruas. Depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio, Lula intensificou a mobilização de apoiadores, com atos que atraíram milhares de pessoas em diferentes partes do país.

A campanha de Flávio também convocou eleitores pelo Brasil e apostou nos chamados "Bloquinhos 22", liderados pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).

O segundo turno também ficou marcado pelo primeiro confronto direto entre Lula e Flávio Bolsonaro. No debate promovido pela Band, em 18 de outubro, os dois protagonizaram um encontro repleto de provocações, ataques pessoais e poucas propostas concretas.

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Flávio deixou perguntas do adversário sem resposta e adotou uma estratégia semelhante à de Donald Trump nos debates contra Hillary Clinton, em 2016: usar o espaço físico, a linguagem corporal e a presença visual para influenciar a percepção do público mesmo quando não se está falando.

Durante o debate, Lula desafiou Flávio a abrir seus sigilos bancário e telefônico. A provocação se desdobrou nos dias seguintes em uma troca de desafios e exigências: Lula condicionou a divulgação de seus dados aos de Flávio e de familiares do senador, enquanto Flávio pediu também a abertura de informações do Instituto Lula, de empresas ligadas aos filhos do presidente e dos sigilos de Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula.

Na quinta-feira (22/10), as campanhas de Lula e Flávio foram ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e divulgaram que fecharam acordo para a quebra de sigilo bancário, fiscal e telefônico.

A relação com Willer Tomaz sob investigação

Willer Tomaz fez cinco viagens internacionais com Flávio Bolsonaro em cinco meses
Foto: Agência Senado / BBC News Brasil

Na reta final da campanha, Flávio se tornou alvo de uma nova investigação no Supremo Tribunal Federal (STF), que apura suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o senador e o advogado Willer Tomaz, seu amigo próximo.

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O inquérito, que corre sob sigilo, foi distribuído ao gabinete do ministro Alexandre de Moraes.

A investigação teve origem na análise do celular de Tomaz, apreendido pela Polícia Federal em uma operação que apura seu possível envolvimento em um esquema de desvio de recursos do INSS — caso em que Flávio não é investigado.

Segundo a PF, foram encontradas referências a festas, encontros e reuniões entre os dois, além de registros de vínculo entre o senador e uma conta bancária da empresa Alcazar Holding, na qual ele aparecia como "usuário master".

O relatório policial também aponta movimentações financeiras milionárias envolvendo empresas e casas de apostas, além de suspeitas sobre negócios de Tomaz no setor de pagamentos digitais no Rio de Janeiro, durante o governo de Cláudio Castro (PL), também alvo da investigação.

A PF identificou ainda registros de viagens internacionais custeadas por uma empresa ligada ao advogado para Flávio e sua família.

Flávio reconhece a amizade com Tomaz, mas negou estar sendo investigado no STF.

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Em nota, afirmou que o caso ainda não havia sido formalmente convertido em inquérito e criticou a divulgação de informações sigilosas às vésperas da eleição.

O escritório de Tomaz também negou irregularidades e disse que as empresas e participações do advogado são lícitas e declaradas às autoridades fiscais.

A defesa afirmou ainda que Flávio nunca teve acesso ou poderes sobre contas de empresas do advogado.

Com reportagem de Mariana Schreiber, da BBC News Brasil em Brasília.

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