Apesar de 91% dos brasileiros considerarem crucial que presidenciáveis apresentem propostas contra as mudanças climáticas, a pauta ambiental foi negligenciada na campanha eleitoral. Enquanto Luiz Inácio Lula da Silva é o único a trazer um plano consistente, opositores como Flávio Bolsonaro chegam a negar a crise e propõem medidas antiambientais. O descompasso entre o anseio popular e os planos de governo ameaça metas cruciais, como o Acordo de Paris e o combate ao desmatamento.
Lúcia Müzell, da RFI em Paris
O vazio é reflexo dos próprios programas de governo apresentados pelos candidatos. Dos seis principais nomes, apenas o atual mandatário, Luiz Inácio Lula da Silva (coligação da esquerda liderada pelo PT), traz uma proposta à altura do desafio climático. Para os demais cinco aspirantes a presidente - Flávio Bolsonaro, Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema -, a questão é colocada de forma vaga, sem detalhes sobre aspectos importantes como a redução de emissões de gases de efeito estufa.
A campanha eleitoral ocorre em meio à maior crise institucional envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF), que monopoliza as atenções da imprensa no país. Mas isso não significa que o eleitor brasileiro menospreze a importância do combate às mudanças climáticas. Pesquisas acadêmicas já demonstraram que os fenômenos extremos influenciam o voto.
"Eu acho que o que está faltando para aumentar a convicção do voto 'verde' é esse candidato que incorporou a questão colocar a discussão no cotidiano das pessoas. As chuvas, os eventos extremos, etc., fazem parte do nosso cotidiano das pessoas e isso tem que estar na boca dos candidatos a presidente do Brasil", pontua Leila da Costa Ferreira, professora de sociologia ambiental da Unicamp. "Quando se fala disso, fica uma coisa que parece estratosférica, parece que é em outro planeta. Não é: é aqui no seu quintal, na sua cidade e no seu estado, no seu país - e é global", afirma.
Eleitor se importa com a crise climática
Um levantamento realizado pelo instituto Ipsos a pedido do Observatório do Clima - rede de quase 200 organizações socioambientais - acaba de mostrar que 91% dos brasileiros consideram "importante" que os candidatos façam propostas para enfrentar as mudanças climáticas; para 62%, essa é uma questão "muito importante".
"Com todas as crises políticas que nós tivemos, e também as atuais, houve um desvio da preocupação do eleitor em relação a essa questão. Só que esse desvio é péssimo, porque essa discussão é política, é social e tem a ver com as questões da nossa vivência contemporânea", frisa Ferreira.
O Observatório do Clima passou um pente fino nos programas de governo dos principais candidatos e na atuação parlamentar dos que já exerceram no Legislativo. O resultado é que não apenas a pauta ambiental é quase inexistente, como a maioria dos presidenciáveis trabalha no sentido contrário, de negar ou rejeitar a importância do assunto.
"Eu acho que a explicação para isso é que a maioria das candidaturas são ligadas ao campo da direita ou da extrema direita. Você tem muitos candidatos que acham que a crise climática, o furacão, a seca, a enchente, é uma questão ideológica, que eles podem negar e que, ao negar, não vai acontecer", sublinha o secretário-executivo do OC, Márcio Astrini. "Quando o presidente da República vira as costas para a realidade, ele não trata do assunto. Ele não toma medidas para proteger a população, que fica totalmente entregue às circunstâncias."
Risco para o meio ambiente e a Amazônia
O principal opositor de Lula no pleito, o senador Flávio Bolsonaro, nem mesmo reconhece a existência de uma crise do clima, e menciona sete propostas "antiambientais", como ampliar a infraestrutura de petróleo e liberar a controversa técnica do fracking para a extração do óleo. Em sua participação na série de entrevistas com os candidatos no Jornal Nacional, da TV Globo, o filho do ex-presidente minimizou a ação humana como causadora dos "eventos climáticos extremos", como preferiu se referir às mudanças do clima.
Entretanto, a pesquisa Ipsos revelou que 87% dos eleitores concordam que a crise climática está provocando secas, chuvas intensas e ondas de calor. Para 79%, o tema deve ser uma prioridade do próximo governo, "mesmo que implique custos econômicos".
A narrativa de Flávio Bolsonaro antecipa um eventual governo focado em desregulamentações ambientais para facilitar atividades como agricultura, pecuária e mineração - muitas vezes em detrimento do meio ambiente e das populações locais.
"Não me surpreenderia se ele seguisse os passos do pai e que o Brasil amanhã se veja fora do Acordo de Paris, virando as costas para qualquer agenda de clima", diz Astrini. "É extremamente preocupante: refazer o que o Bolsonaro exercitou durante o seu período presidencial é a gente decretar que nós vamos, por exemplo, empurrar a Amazônia para uma situação de colapso."
Compromissos internacionais e papel do Congresso
O próximo presidente terá o desafio de manter os compromissos internacionais assumidos pelo país, a começar pelo Acordo de Paris. Caberá ao futuro mandatário assegurar o corte de 1,2 bilhão de toneladas de CO2 equivalente e o fim do desmatamento ilegal em todos os biomas até 2030, além de restaurar ao menos 12 milhões de hectares de vegetação nativa.
Para esses e outros objetivos essenciais para que o país proteja a população, a biodiversidade e os ecossistemas, a nova configuração do Congresso também será decisiva. "Não existe nenhum outro grupo de pessoas no Brasil hoje que trabalhe de forma tão intensa contra o meio ambiente do que o Congresso brasileiro. É dia e noite retrocessos sendo votados lá", ressalta Astrini.