O Conselho Superior do MPF rejeitou por unanimidade o afastamento do procurador-geral da República, Paulo Gonet, das investigações do Banco Master. Por 5 votos a 4, o órgão também negou abrir inquérito contra o PGR por supostos elos com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro citados em relatórios da PF. O relator arquivou o pedido alegando falta de indícios de crime ou contato direto entre ambos, considerando o encontro superficial e as conversas restritas a terceiros. Gonet nega proximidade com o empresário.
Conselho Superior do Ministério Público Federal rejeita por unanimidade afastamento do procurador-geral da República e, por cinco votos a quatro, decide não investigar suposto elo com Daniel Vorcaro.O Conselho Superior do Ministério Público Federal (CSMPF) decidiu nesta sexta-feira (25/09) contra o afastamento do procurador-geral da República, Paulo Gonet, dos casos relacionados ao escândalo do Banco Master e, por margem apertada, rejeitou a abertura de um inquérito contra o PGR.
Gonet se tornou alvo de análise no MPF após a revelação de seus supostos laços pessoais com o ex-dono do Banco Master Daniel Vorcaro, em relatórios da Polícia Federal.
Em uma deliberação inédita na história do MPF, os nove conselheiros votaram por unanimidade contra o afastamento.
Gonet é o presidente do CSMPF, que, com ele, possui dez integrantes. Mas, por ele ser o alvo do procedimento, a sessão foi presidida pelo vice-presidente do órgão, o subprocurador-geral da República Nicolao Dino - irmão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Placar apertado contra abertura de inquérito
Mais disputada foi a votação no Conselho sobre a abertura de uma investigação contra Gonet, que terminou com 5 votos contra a 4 a favor.
Votaram pelo arquivamento do pedido de investigação o relator do caso, Francisco Sanseverino, juntamente com Alexandre Camanho, Celso de Albuquerque, Nicolao Dino e o vice-PGR, Hindenburgo Chateaubriand. Já os conselheiros Samantha Chantal, Janice Ascari, José Adônis e Ana Borges Coelho Santos defenderam a designação de um subprocurador-geral da República para aprofundar o inquérito contra o PGR.
O relator dividiu a análise em duas partes ao defender que não caberia ao Conselho decidir sobre um eventual impedimento ou suspeição do PGR nos processos que tramitam no STF. Depois, analisou se havia elementos mínimos para abrir uma apuração criminal sobre Gonet.
Ele indeferiu os pedidos de instauração do procedimento para averiguar a suspeição de Gonet por "ausência de elementos mínimos de materialidade ou de autoria de crime atribuível ao Procurador-Geral da República".
Sanseverino afirmou, ao mencionar as trocas de mensagens entre Gonet e Vorcaro, que as referências ao procurador-geral encontradas no celular do ex-banqueiro não poderiam ser analisadas de forma isolada ou fora de contexto para "não criar uma situação artificial e que não corresponda à realidade dos fatos".
Ele concluiu que não constam nos autos elementos mínimos de materialidade ou autoria de crime atribuível a Gonet. O relator observou que a PF não encontrou contatos com o nome "Paulo Gonet" ou apenas "Gonet" no celular de Daniel Vorcaro, e que também não havia registro de conversas diretas entre o PGR e o ex-banqueiro - uma vez que as referências a Gonet foram identificadas em conversas entre Vorcaro e o advogado Ciro Soares.
Para Sanseverino, a ausência de comunicação direta "enfraquece a tese da alegada existência de 'amizade íntima'".
Episódio "isolado" e "superficial"
O relator afirmou que a atuação do PGR e de seu gabinete seguiram "os princípios da legalidade, da utilidade e eficiência da persecução penal, bem como respeitou o princípio da independência funcional".
Sanseverino afirmou que o encontro entre Gonet e Vorcaro em Londres, em abril de 2024, foi um episódio "isolado" e "superficial", em ambiente social e na presença de outras pessoas.
Mesmo que o encontro tenha criado no banqueiro a expectativa de estabelecer uma relação, vínculo ou obter vantagens, isso não foi confirmado pelos fatos posteriores, disse o relator.
Ele afirmou que, a partir de julho de 2025, quando Gonet tomou conhecimento das suspeitas envolvendo o Banco Master, ele agiu para dar apoio institucional aos procuradores responsáveis pelas apurações no Distrito Federal e em São Paulo.
Em relação às mensagens sobre uma possível viagem a Londres em 2025, Sanseverino disse que não houve solicitação direta ou indireta de vantagem por parte de Gonet, até pelo fato de as conversas terem ocorrido entre Vorcaro e Ciro Soares.
"O que se pode colocar de forma bem objetiva é que se trata de conversas de terceiros sem qualquer participação direta ou indireta do PGR", disse Sanseverino.
O que aproxima Paulo Gonet de Vorcaro
Relatórios da Polícia Federal produzidos a partir de dados obtidos do celular de Vorcaro, apreendido durante a Operação Compliance Zero, indicam articulações envolvendo o banqueiro e Paulo Gonet, realizadas principalmente por intermédio de Ciro Soares.
Nas mensagens recuperadas pela PF constam diálogos de abril de 2024 nos quais Ciro Soares afirmou a Vorcaro que pediu a intervenção de Gonet em um caso envolvendo a disputa pela presidência do Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais (CNPG).
Gonet aparece em uma fotografia tirada em 2024 em Londres sentado próximo a Vorcaro, segurando um charuto em frente a uma mesa com copos de uísque, o que motivou manifestações internas no Ministério Público.
Também há registros que sugerem que Vorcaro autorizou o custeio de despesas de viagem a Londres para Pedro Gonet, filho do procurador-geral, em abril de 2025.
Em mensagens de outubro de 2025, Vorcaro citou Gonet ao pedir a um interlocutor que reforçasse conversas com autoridades para evitar medidas do Banco Central contra o Banco Master.
Gonet declarou não manter relação de proximidade com Vorcaro e afirmou que o contato mantido com o banqueiro foi "brevíssimo e banal". A PGR apresentou manifestação ao STF defendendo a anulação do relatório da PF, tornado público pelo ministro do Supremo André Mendonça.
rc (ots)
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