O Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio da Cidade de São Paulo (Conpresp) pretendia decidir nesta segunda-feira, 23, sobre o tombamento da vilinha de casarões da Vila Mariana e sobre a reforma para construção de uma academia na Serraria do Parque do Ibirapuera, onde há obra paisagística de Roberto Burle Marx. Ambos os locais ficam na zona sul da capital.
O conselho analisou os dois processos, mas adiou a votação para mais análise técnica.
Ao abrir o processo, o conselho argumentou "valor ambiental, histórico, arquitetônico e afetivo da vila". "(Há) valor testemunhal do conjunto sobre um saber fazer ligado a construtores imigrantes de origem italiana e valor afetivo para os seus moradores. A tipologia é caracterizada do bairro e a vila permanece íntegra e preservada."
O Conpresp ainda reconheceu a área como vila devido ao "espaço livre e denso jardim".
A análise do tombamento proibiu qualquer intervenção nos imóveis, sem aprovação prévia do conselho. O Estadão não conseguiu contato com a atual proprietária do terreno.
Serraria de Burle Marx
A Urbia, concessionária do Parque Ibirapuera, solicitou ao Conpresp permissão para transformar a antiga serraria, bem tombado no formato de grande galpão retangular, em uma academia.
A área técnica do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) emitiu parecer contrário. Associações de moradores se opõem ao projeto.
Uma das obras menos conhecidas do paisagista Roberto Burle Marx, a praça da Serraria é usada hoje gratuitamente para a prática de ioga, meditação, tai chi chuan, exercícios físicos, feiras, rodas de leitura e lazer ao ar livre.
O galpão foi erguido na década de 1940, antes da criação do parque, que ocorreu em 1954, e servia para a conservação de bondes e marcenaria. É considerado um remanescente da fase industrial da cidade. Em 1992, o espaço foi requalificado por Burle Marx, que o integrou a uma praça com espelhos d'água e vegetação nativa, junto ao viveiro próximo.
A Urbia pretende colocar estruturas removíveis para não impactar o bem tombado. O projeto pretende instalar uma academia, com espaços para exercícios físicos, como crossfit e musculação. O galpão seria parcialmente fechado, formando 14 vãos livres, com vidros e madeiras. O plano prevê também a construção de uma laje como piso superior, onde funcionaria a academia.
A concessionária diz que o projeto da Serraria dá continuidade ao restauro da Praça Burle Marx, no Ibirapuera: "Trata-se de uma proposta cuidadosamente desenvolvida para valorizar o patrimônio histórico, qualificar o uso público e devolver protagonismo a uma área hoje subutilizada do parque".
Em 20 de janeiro deste ano, a área técnica do DPH disse que o projeto contraria o Plano de Intervenções do Parque do Ibirapuera por fechar um espaço aberto maior que o autorizado. O parecer avalia que isso compromete a fluidez visual e limita o uso público do espaço.
O documento considera ainda que a intervenção traz impacto negativo em um exemplar raro de Burle Marx.
A Urbia afirma que a proposta atual foi aprovada pelo Iphan e Condephaat, e está aguardando a aprovação do Conpresp. "Há uma única manifestação técnica divergente em análise, dentro do rito regular de deliberação do Conpresp, o que faz parte do processo institucional de avaliação", diz.
A Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa informou que qualquer intervenção nos elementos constitutivos do parque, o que inclui a serraria e a praça, demanda autorização prévia do Conpresp.