Prédio invadido na Oscar Freire: Empresário quer retrofit e proprietários, venda; disputa continua

Imbróglio judicial entre proprietários do imóvel se arrasta há duas décadas; reintegração de posse aconteceu nesta quarta, após decisão da Justiça apontar falta de 'qualquer garantia de segurança' e 'potencial risco de ruína'

6 mai 2026 - 13h50
(atualizado às 14h41)

A reintegração de posse nesta quarta-feira, 6, do Edifício Peixoto Gomide, prédio com risco de desabamento no cruzamento das ruas Oscar Freire e Peixoto Gomide, no Jardim Paulistano, zona oeste de São Paulo, ainda pode estar longe da solução definitiva.

Publicidade

O local é alvo de disputa judicial há duas décadas entre uma construtora que comprou a maioria dos apartamentos e dois proprietários que resistiram à venda.

O imbróglio levou o edifício a ser invadido por pessoas em situação de vulnerabilidade em 2006. O espaço passou por desocupações. Mas foi novamente invadido em 2016. Desde aquele ano, esteve ocupado por cerca de 30 famílias, que deixaram o imóvel na terça-feira, 5. Nesta quarta, a propriedade foi devolvida a seus proprietários.

Famílias deixaram prédio na terça, antes da reintegração de posse, que aconteceu nesta quarta, 6
Famílias deixaram prédio na terça, antes da reintegração de posse, que aconteceu nesta quarta, 6
Foto: Felipe Rau/Estadão / Estadão

A empresa Santa Alice Hotelaria e Construções LTDA. é dona de sete dos nove apartamentos do empreendimento de quatro andares. O empresário Álvaro Moreira esteve à frente da construtora na compra do prédio. Hoje, aos 87 anos, diz que deixou o cargo de executivo para seus filhos e o apartamento para um neto de 7 anos. Mas segue acompanhando o caso de perto. Nesta quarta, foi o único da família presente na reintegração.

Segundo ele, o plano é fazer um retrofit no edifício art déco para o imóvel voltar a ser um condomínio. Mas descarta planos de comprar os outros dois apartamentos, que resistiram à venda no passado. Também refuta a venda para outra empreiteira, como defendem esses proprietários, ou a demolição do prédio, como deseja a associação de moradores AME Jardins.

Publicidade

"A empresa não tem ideia de comprar nada. Poderá até comprar, mas tem que ser no limite de valores atuais — não os supervalores. Eles podem ficar (com os apartamentos deles). Vamos reformar os nossos. Eles, se quiserem, reformam os deles. Mas não vamos nem demolir nem vender", afirmou. Apesar disso, ele afirma que a decisão caberá aos filhos.

Vizinhos lamentam degradação do prédio, localizado em região nobre, e a desvalorização do entorno
Foto: Felipe Rau/Estadão / Estadão

O Estadão acompanhou a reintegração de posse nesta quarta. Representantes de um dos apartamentos tentaram negociar a venda da unidade para a Santa Alice. Também avaliam como alternativa a venda de todos os nove apartamentos para uma outra construtora — segundo eles, já houve ofertas. Questionados, eles não quiseram se pronunciar.

A reportagem não conseguiu contato com a segunda proprietária, nem com sua defesa.

Enquanto as negociações seguem travadas, a lacração do imóvel, com concreto e tijolos nas portas e janelas, já começou a ser feita pela Santa Alice para impedir novas invasões.

Trabalhadores foram contratados pela Santa Alice para concretar acessos ao Edifício Peixoto Gomide
Foto: Malu Mões/Estadão / Estadão

Moradores do entorno reclamam de ratos, baratas e degradação

A advogada Beatriz Antesana é vizinha do Edifício Peixoto Gomide há seis décadas. Teve amigos que moraram no condomínio antes da venda para a Santa Alice. Ela lamenta a situação em que o local se encontra. "Isso é art déco. Era um prédio maravilhoso, muito bonito, em bom estado. Agora, está todo detonado, cheio de baratas, cheio de ratos. Está vendo o rato ali?", diz, apontando para a janela do imóvel. "É uma infestação tremenda. Sofremos há mais de dez anos com isso."

Publicidade

Diretor na AME Jardins e sócio da administradora de prédios BBZ, responsável por mais de 300 condomínios no bairro, Roberto Piernikarz afirma que a associação já pediu a demolição do imóvel para evitar novas ocupações. "Tinha risco iminente de explosão, com botijão de gás, ponto de energia elétrica misturado com cano de água e risco de queda. A estrutura está totalmente abalada. É um risco para quem passa na rua e para quem morava aqui dentro. Ia virar um novo edifício Joelma."

A corretora de imóveis Fernanda Chaves mora há 18 anos a uma quadra do imóvel. Ela define a reintegração como "um alívio", embora ainda tenha receio de novas invasões ao local. "Os apartamentos do entorno desvalorizaram um absurdo. Ninguém quer morar aqui do lado."

Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se