Uma onça-pintada macho de 120 kg mobilizou uma operação de resgate após invadir a Rodovia SP-613, perto de Teodoro Sampaio (SP). Exausto, o felino deitou no acostamento, levando à interdição da pista por 40 minutos. Monitorado desde 2021, o animal não foi sedado por segurança; equipes abriram o alambrado para que ele retornasse sozinho ao Parque Estadual Morro do Diabo, onde vive uma das últimas populações da espécie no estado. A ação durou cerca de uma hora e o felino voltou à mata em segurança.
Uma onça-pintada adulta, pesando cerca de 120 kg, escapou do Parque Estadual Morro do Diabo, nesta quinta-feira, 17, e invadiu uma rodovia. Devido ao risco de atropelamento, a Fundação Florestal, órgão do governo estadual que administra a unidade, mobilizou uma grande operação de resgate para a recolha do animal em segurança. A ação, que durou cerca de 1 hora, foi gravada em vídeos que mostram o momento em que o felino, exausto, mas sem ferimentos, retorna aos limites do parque, onde vivem ao menos outras 9 onças da espécie (veja o vídeo acima).
As onças-pintadas (Panthera onca) possuem ampla área de vida e caminham dezenas de quilômetros por dia em busca de território e alimento. Nesta quinta, o felino, que é monitorado pela equipe do parque e recebeu o nome de 'Theodoro', acabou saindo dos limites protegidos e não teve forças para completar o trajeto de volta, deitando-se no acostamento da via.
A ocorrência foi registrada na altura do km 16 da Rodovia Arlindo Béttio (SP-613), próximo a Teodoro Sampaio, e exigiu a interdição total da pista por cerca de 40 minutos para proteger o animal, as equipes de apoio e os motoristas.
Cansaço e descanso em acostamento
O acionamento da Fundação Florestal ocorreu após um alerta inicial de atropelamento que foi descartado pela equipe técnica assim que o felino foi avaliado no local. Devido ao cansaço, a onça se deitou no acostamento. A Polícia Militar rodoviária parou o tráfego e tentou direcionar o animal para as estruturas de cercamento e passagens de fauna instaladas no trecho da via.
A diretora de Biodiversidade da Fundação, Andréa Pires, diz ter reconhecido 'Theodoro' assim que o viu. "Monitoramos essa onça-pintada desde 2021. Ele estava muito cansado, então todo o trabalho das equipes foi feito com cuidado, respeitando o tempo do animal e buscando a forma mais segura de conduzi-lo de volta à área protegida", diz.
Como o acesso principal ao parque ficava a dois quilômetros do local e o felino permanecia imóvel pela exaustão, a operação foi reforçada com o apoio da brigada de incêndio, de equipes do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) e de quatro militares do Corpo de Bombeiros, além de vigilantes do parque.
Garoa improvisada
Para incentivar a movimentação do animal sem provocar estresse, os bombeiros improvisaram uma garoa com água de seu caminhão. No entanto, como o felino voltou a se deitar em decorrência do cansaço acumulado na jornada, a equipe técnica da Fundação adotou uma estratégia alternativa de abrir uma passagem no alambrado de proteção próximo ao ponto onde a onça repousava e, assim, criar um acesso direto para o seu retorno imediato à mata nativa, que foi bastante comemorado.
Sem dardo com anestésico
Andréa explica que a intervenção adequada para este tipo de ocorrência exige a condução e o direcionamento do animal de volta ao seu habitat natural ou corredor ecológico, sem o uso de sedação química, já que o uso de dardo com anestésicos em um felino de grande porte sob estresse e cansaço extremo representa altos riscos à saúde e pode retardar a sua recuperação.
Por esse motivo, a única conduta segura adotada pelos especialistas foi acompanhar o ritmo de Theodoro e criar acessos facilitados para que ele retornasse por conta própria à área de conservação.
Impressão digital na pele
A identificação individual de exemplares da espécie, através do programa Monitora BioSP da Fundação, é feita pelas rosetas da pelagem, que possuem um padrão único para cada indivíduo, funcionando de forma equivalente a uma impressão digital. No Morro do Diabo são 40 armadilhas fotográficas ativas 24 horas por dia. Os registros geram dados científicos contínuos sobre a distribuição, ocorrência e uso do habitat pelas espécies, subsidiando as estratégias de manejo e conservação da fauna.
Conforme a diretora, o Theodoro faz parte de uma das últimas populações residentes de onça-pintada no Estado de São Paulo. "Essa ocorrência mostra, na prática, a importância do monitoramento, dos corredores florestais e das estruturas de passagem de fauna para a conservação da espécie", diz.
Atualmente, o Parque Estadual Morro do Diabo possui cerca de 10 indivíduos identificados. Porém, os dados não correspondem a números exatos, já que essas onças transitam por uma área grande entre o rio Paranapanema e o rio Paraná. Já no Estado de São Paulo, o MonitoraBioSP tem cerca de 1.540 registros de onças pintadas.
A onça-pintada é um dos mamíferos mais ameaçados de extinção no Brasil, sendo classificada como vulnerável em todo o País, inclusive na Amazônia, segundo o Instituto Chico Mendes (ICMBio). No Estado de São Paulo, o animal é considerado como criticamente em perigo.