Policiais civis de São Paulo foram alvos de uma operação deflagrada nesta quinta-feira, 5, por equipes do Ministério Público do Estado (MP-SP), da Polícia Federal e da Corregedoria da Polícia Civil.
Batizada de Operação Bazaar, a ação teve por objetivo cumprir mandados de prisão e de busca e apreensão contra investigados por envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro que contou com o pagamento de propina para policiais, com o objetivo de manipular investigações e proteger a rede criminosa.
Ao todo, 11 pessoas foram presas - seis policiais foram alvos da operação. Veja a seguir o que se sabe até agora sobre o caso.
O que foi a Operação Bazaar e por que ela foi deflagrada?
A Operação Bazaar foi deflagrada de forma conjunta pela Polícia Federal, pelo Ministério Público de São Paulo e pela Corregedoria da Polícia Civil paulista. A ação mirou um esquema de corrupção tratado como "sistêmico", que incluía lavagem de dinheiro envolvendo departamentos da Polícia Civil de São Paulo.
No total, foram cumpridos 25 mandados de busca e apreensão, além de 11 mandados de prisão e seis mandados de intimação relativos a medidas cautelares diversas da prisão, direcionados a integrantes da organização criminosa, advogados e policiais civis.
Como o esquema criminoso funcionava?
A investigação que levou à Operação Bazaar começou depois que o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) recebeu da Polícia Federal um relatório que analisava o material apreendido em poder de um dos integrantes da organização criminosa investigada no âmbito da Operação Recidere.
Essa operação havia sido deflagrada pela PF em 22 de novembro de 2023, em Campinas, no interior de São Paulo.
O objetivo inicial era desarticular um núcleo de doleiros especializado em lavar dinheiro por meio da simulação de importações, com remessas ao exterior, e da criação de inúmeras empresas de fachada. No entanto, segundo os promotores, o inquérito identificou "diversos atos de corrupção policial praticados de forma reiterada".
O grupo seria comandado por Leonardo Meirelles, Cleber Azevedo dos Santos e Paulo Rogério Silva, conhecido como Paulo Barão, e seria composto por alguns dos "maiores doleiros do país", segundo o Ministério Público de São Paulo (MP-SP). O Estadão tenta contato com as defesas dos citados. O espaço segue aberto.
Entre as ações do grupo estavam controlar pessoas jurídicas abertas em nome de "laranjas", obter habilitação para operar no comércio exterior e fechar contratos de câmbio com base em faturas comerciais falsificadas. "Tudo de modo a ocultar remessas de terceiros interessados em manter anonimato e driblar controles estatais", afirmam os promotores.
Segundo o Ministério Público, a Operação Recidere demonstrou que a organização criminosa possuía ampla capacidade de recomposição e se manteve operando mesmo após ações ostensivas, por meio da reorganização das empresas, da substituição de "laranjas" e da criação de novas contas bancárias.
De acordo com os investigadores, o caso expôs um sistema profissionalizado de evasão de divisas que funcionava havia anos, com alto volume financeiro e elevado grau de especialização técnica.
No entanto, esse crime era apenas um dos ramos de atuação dos investigados. De acordo com os promotores, parte considerável das atividades criminosas consistia na lavagem de dinheiro por meio da compra e venda de créditos de tickets de alimentação.
Como a polícia participava do esquema?
Os promotores indicam que o inquérito identificou "diversos atos de corrupção policial praticados de forma reiterada" no esquema, incluindo o recebimento de vantagens indevidas para manipular investigações, como a destruição de provas de inquéritos policiais.
Para o MP-SP, os seis policiais alvos da operação (veja quem são abaixo) transformaram as unidades policiais em um "balcão de negócios" - o esquema teria movimentado, pelo menos, R$ 33 milhões em propinas.
"É certo que o intuito dos corruptores foi atingido, já que, apesar de seus atos criminosos serem amplamente conhecidos pelos policiais civis responsáveis pelas investigações, jamais se promoveu sua responsabilização", anotou o juiz Paulo Fernando Deroma de Mello, da 2ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores.
Quais delegacias foram revistadas?
Por ordem judicial, foram revistadas as seguintes unidades:
- 1ª Delegacia de Lavagem de Dinheiro e a Divisão de Crimes contra a Fazenda, que pertencem ao Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC);
- 3ª Delegacia da Divisão de Investigações Gerais (DIG);
- 4ª Delegacia de Crimes Cibernéticos, ambas do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic);
- 35º Distrito Policial, na Vila Guarani/Jabaquara, na zona sul da capital.
Policiais foram alvos da operação?
Sim. A ação mirou os seguintes integrantes da Polícia Civil:
- Delegado João Eduardo da Silva (35º DP);
- Escrivão Ciro Borges Magalhães Ferraz (35º DP);
- Rogério Cione, que trabalha na assistência da divisão do DPPC;
- Jayme Emílio Tavares Júnior, do Deic;
- Rogério Coichev Teixeira, do Serviço Aerotático (SAT);
- Roldnei Eduardo dos Reis Baptista, da 1ª Delegacia de Combate à Corrupção.
O Estadão busca contato com a defesa de todos os investigados. O espaço está aberto.
Algum deles foi alvo de mandado de prisão preventiva?
Sim. Quatro policiais foram alvo de prisão preventiva: o delegado João Eduardo da Silva, o escrivão Ciro Borges Ferraz e os investigadores Roldnei Eduardo dos Reis e Rogério Coichev Teixeira.
Quem é o delegado preso?
Entre os presos nesta quarta-feira está o delegado João Eduardo da Silva. As investigações apontam que ele teria recebido propina para frear investigações e proteger a rede criminosa. Na época, ele estava lotado no 16º Distrito Policial, na Vila Clementino. Atualmente, trabalhava no 35º DP, na Vila Guarani, na zona sul da capital. A defesa de Silva não foi localizada, mas o espaço segue aberto para manifestação.