Escutar música boa sempre foi algo considerado "descolado", não importa a mídia: fita-cassete, CD, ipod ou streaming. Recentemente, os discos de vinil voltaram a ganhar protagonismo, especialmente com a geração Z. De acordo com relatório da Futuresource Consulting, cerca de 60% desses jovens afirmam comprar seus bolachões.
O apelo retrô e vintage do vinil contribui para a tal economia da nostalgia, uma estratégia de marketing que usa memórias afetivas e ícones do passado para impulsionar o consumo nos dias atuais. Nesse nicho entram os chamados listening bars que, aos poucos, estão aparecendo na cidade de São Paulo.
O que são os listening bars?
Lá pelos anos 1920, surgiu no Japão o conceito de jazz kissa, no qual bares e cafés tocavam jazz em sistemas de áudio de alta qualidade para que as pessoas realmente ouvissem — e não apenas tivessem música ambiente.
A ideia ganhou força nas décadas de 1950 e 1960, já que esses espaços ofereciam aos jovens audiófilos um local para ouvir discos extremamente raros. A popularidade foi caindo com o surgimento dos CDs, mas o conceito da escuta ativa, com foco intimista, permaneceu.
Não à toa, bares com essa mesma proposta passaram a surgir de Nova York a Hong Kong, passando por Londres e São Paulo, com a ideia radical de que música boa merece ser ouvida. No Japão, o mantra dos bares de audição é "fale menos, escute mais".
"Pouca gente conhece o conceito de fato porque muitos confundem com o que antigamente a gente falava que era baladinha, e com a viralização mundial tudo virou listening bar", opina Guga Roselli, sócio do Elevado Conselheiro, na Bela Vista.
Segundo ele, para ser um listening bar é preciso que a casa tenha cinco características essenciais:
- Ter um sistema de som de alta qualidade (e geralmente analógico);
- Ter uma boa curadoria musical (que pode ser bem ampla);
- Ter um ambiente controlado acusticamente;
- Ser de fato um bar, com coquetelaria boa e iluminação intimista;
- "E, principalmente, respeitar o som, colocá-lo como protagonista. Ter uma dinâmica que evite as conversas altas e não ter um espaço para danças, para assim permitir que o ambiente dê a experiência igual para todos", avalia.
Em vez de música estourada ou conversa sobreposta, os listening bars monitoram o volume em tempo real com relógios de decibéis, controlam certas reverberações do público e são altamente críticos quanto à qualidade musical. A ideia é que a música esteja presente, limpa e confortável, quase como um antídoto ao ruído urbano.
Caos urbano
Em São Paulo, a proposta parece quase subversiva. Aqui não se trata de silêncio absoluto, mas de aprender a ouvir de verdade, mesmo em meio ao barulho da cidade.
"Aqui no Brasil a gente não tem essa cultura do silêncio, muito pelo contrário. A gente grita muito e tal, mas essas regras ajudam bastante", diz Roselli. De acordo com ele, não existe proibição de nada, mas você não convida o cliente a fazer determinadas coisas.
O Kotchi, no Jardim Paulista, levou essa lógica ao extremo: pistas de dança foram vetadas desde o início, e existe um salão de eventos separado do principal justamente para evitar cantorias de parabéns. Não por rigidez, mas por projeto. "As pessoas estão buscando mais profundidade em tudo que elas fazem e isso casa com o momento de sair à noite; elas querem conversar, querem se divertir de forma mais substancial com música de qualidade, bons drinques e ótima culinária", resume Marcos Campos, sócio da casa.
Apesar de a falta de conversa total ser quase impossível, a percepção do ambiente é diferente do que conhecemos como bar. Quando estão sentados, os clientes conversam em tom mais baixo, sem competir com o som. E quando há espaço para dança, como no Formosa Hi-Fi, no centro da cidade, é possível perceber uma adoração ao DJ, como se estivessem em uma espécie de transe.
O resultado é uma mudança gradual de comportamento. "As pessoas estão espalhando mais esse respeito da escuta, indo em diferentes espaços desse tipo e entendendo mais o conceito", observa Roselli.
Música de qualidade
No Formosa Hi-Fi, a acústica é levada tão a sério que o projeto foi assinado pela empresa Acústica & Sônica, responsável também pela Sala São Paulo, o Teatro Cultura Artística e o Lincoln Center, em Nova York. "É a primeira vez que eles fazem um projeto para música popular e, junto com esse tratamento acústico, temos um sistema de som que cria bolhas de estéreo, o que faz com que você escute o volume na mesma altura em qualquer lugar da casa", conta Alê Youssef, produtor cultural e um dos fundadores da Formosa Hi-Fi.
O sobrenome da casa, aliás, vem de High Fidelity, alta fidelidade em português, que refere-se ao fato de ser extremamente fiel ao som original da gravação. "A gente é diferente por acreditar na qualidade da seleção feita pelo arbítrio humano e pelas músicas serem tocadas em sua versão original, para garantir a melhor qualidade sonora", diz ele.
O espaço ocupa a Galeria Formosa, galeria subterrânea abandonada sob o Viaduto do Chá que foi concebida por Mário de Andrade nos anos 1930, quando o escritor modernista dirigiu o Departamento de Cultura da cidade. Vale mencionar que Elis Regina chegou a ensaiar ali nos anos 1970.
"Ele pensou em um projeto de extensão do Teatro Municipal para as artes plásticas, e o Formosa se inspira no Mário em vários aspectos, especialmente nessa vontade de fazer um lugar de celebração e de encontro", explica Youssef.
O lugar de celebração, aliás, reflete bem esses outros modelos de listening bars. O Domo Bar, na Vila Buarque, por exemplo, surgiu justamente porque os sócios costumavam sair para comer e beber e nunca conseguiam fazer tudo ao mesmo tempo: ou a música era secundária ou era alta demais para conversas. "Graças à acústica planejada, no Domo é possível jantar, beber e ouvir música com a mesma qualidade, sem que uma coisa atrapalhe a outra", conta Flávio Seixlack, sócio da casa.
Assim, há aqueles que preferem ir em grupos para um happy hour ou aqueles que vão sozinhos para ouvir música. "Existe uma coisa da contemplação e um quase isolamento do resto do mundo quando estamos ali, pelo fato de o imóvel ser longe da rua e acusticamente isolado dos barulhos externos", reflete Seixlack.
Outros nomes famosos nessa onda são o Matiz, localizado no topo do Edifício Carlos Rusca, no centro histórico, e o Sala Bar, em Pinheiros, que se descreve como um "boteco de discos". O Lágrima, na República, por outro lado, segue a proposta de bar de audição raiz: introspectivo e com ambientes na penumbra.
Descanso auditivo
A ideia de introspecção coletiva via música se conecta à nova tendência dos clubes de leitura. Seja em Nova York, no Uruguai ou na Argentina, leitores têm se reunido para ler na companhia de desconhecidos.
A ideia veio do Reading Rhythms, comunidade que se define não como um clube do livro, mas como "uma festa da leitura", com mais de 320 eventos em 20 cidades diferentes. A proposta: compartilhar um momento de silêncio com um estranho.
A música aqui também faz parte do ritual. Um piano ou violino ambiente acompanha a leitura como trilha suave. A diferença é que em uma ela é a protagonista e, na outra, plano de fundo.
Seja como for, o movimento é o mesmo: redescobrir o valor do silêncio.
Serviço
- Elevado Conselheiro
Endereço: R. Conselheiro Ramalho, 800 - Bela Vista. Horário: de terça a quinta, das 19h à 0h. Sexta, das 19h à 1h. Sábado, das 13h à 1h. Mais informações: www.instagram.com/conselheiro.listeningbar
- Domo Bar
Endereço: R. Maj. Sertório, 452 - Vila Buarque. Horário: de terça a sábado, das 19h à 0h. Mais informações: www.instagram.com/domobarsp/
- Kotchi
Endereço: R. Padre João Manuel, 1.231 - Cerqueira César. Horário: de segunda a quarta, das 18h à 0h. Quinta, das 18h à 1h. Sexta e sábado, das 18h às 2h. Mais informações: www.instagram.com/kotchibar/
- Formosa Hi-fi
Endereço: Rua Coronel Xavier de Toledo, 23 - Galeria Formosa - Centro. Horário: terça e quarta, das 19h à 0h. Quinta, das 19h à 1h. Sexta e sábado, das 19h às 2h. Mais informações: www.instagram.com/formosahifi/