Defesa abandona tribunal e juiz cancela júri do caso dos PMs acusados de matar delator do PCC

Embate entre defesa e acusação levou os advogados dos réus a abandonar o plenário do júri depois de um dia marcado por discussões sobre as provas contra os policiais acusados do crime

22 jun 2026 - 20h07
(atualizado às 20h16)

O julgamento dos três policiais militares acusados de matar o empresário Antonio Vinicius Gritzbach, de 35 anos, e o motorista de aplicativo Celso Araújo Sampaio de Novais, de 41 anos, foi cancelado às 19 horas desta segunda-feira, 22, por decisão do juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo, da Vara do Júri de Guarulhos, depois de a defesa dos réus abandonar o plenário.

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A decisão causou revolta nos familiares das vítimas do crime. "Pra que isso? Só eu sei a luta que estou tendo nesse caso. Eu tenho três filhos, meu filho de 15 anos está doente. Só eu sei o que eu estou passando", afirmou a agente de saúde Simone Dionízio Fernandes Novais, viúva do motorista de aplicativo. Celso deixou a viúva e três filhos, hoje com 22, 15 e 5 anos.

Esquema de segurança reforçado no Fórum de Guarulhos para o julgamento do 'caso Gritzbach'.
Esquema de segurança reforçado no Fórum de Guarulhos para o julgamento do 'caso Gritzbach'.
Foto: Taba Benedicto/Estadão / Estadão

A defesa dos réus decidiu abandonar o plenário do júri depois de 11 horas de julgamento marcado por discussões com a promotoria em torno dos depoimentos das testemunhas de acusação. Os advogados alegaram que estavam sendo desrespeitados e já haviam ameaçado no meio da tarde a deixar o tribunal. "Ele começou a atacar a advocacia e nós reagimos", afirmou o criminalista Claudio Dalledone Júnior.

Com o cancelamento do júri, uma nova data para o julgamento será marcada. "Parece que desde o começo a ideia era essa", afirmou o promotor Rodrigo Merli. De acordo com ele, "quando os advogados viram que tudo ruiu, fizeram isso". Para ele, tudo o que aconteceu no plenário "foi causado pela advocacia 'Tiktok'". Ou seja, por uma defesa mais interessada em lacrar do que em discutir as provas do processo. "Mais uma vez, correram do plenário."

Os réus - o soldado Ruan Silva Rodrigues e o cabo Denis Antônio Martins, apontados como os atiradores, e o tenente Fernando Genauro da Silva, acusado de conduzir a dupla de carro até o local dos crimes, o Aeroporto Internacional de Guarulhos - permanecerão presos. A defesa pretende entrar com novo habeas corpus para soltá-los.

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Cena do crime chocou o País

Denis Antônio Martins e Ruan Silva Rodrigues são denunciados pelos homicídios consumados qualificados de Gritzbach e Novais, e também pelas tentativas de homicídio de Willian Souza Santos e Samara Lima de Oliveira, que sobreviveram após o ataque.

Seriam eles os dois homens encapuzados que avançaram sobre Gritzbach naquela tarde de sexta, em cena que chocou o País. Imagens de câmeras de segurança mostram o terminal 2, um dos mais movimentados do País, tomado por correria com os disparos.

Conforme sentença de pronúncia, o tenente Fernando Genauro da Silva teria recebido a tarefa de conduzir um Volkswagen Gol preto até o local e propiciar a fuga aos atiradores após o crime.

Qual foi a motivação do crime

Assinada pelo juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo, da Vara do Júri de Guarulhos, a sentença de pronúncia aponta que Gritzbach, que atuava no ramo imobiliário, foi agregado por membros do PCC para atuar como gestor financeiro, adquirindo imóveis em nome de "laranjas" (terceiros normalmente sem rastros criminais) e investindo o dinheiro do tráfico de drogas em criptoativos.

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Segundo as investigações, o problema começou quando membros da facção, os chamados "irmãos", passaram a questionar a ausência de liquidez das criptomoedas e a desconfiar que Gritzbach desviava grande parte do dinheiro em proveito próprio.

Como mostrou o Estadão, Gritzbach teria contratado Noé Alves Schaum para matar Anselmo Bechelli Santa Fausta, o Cara Preta, e Antonio Corona Neto, o Sem Sangue, segurança do traficante. O crime aconteceu em 27 de dezembro de 2021.

Conforme as investigações, Schaum foi capturado pelo PCC em janeiro de 2022, julgado pelo "tribunal do crime" (espécie de Justiça paralela do crime organizado) e esquartejado. Apesar de poupado em um primeiro momento, Gritzbach também entrou na mira da facção, e buscou recursos para se proteger.

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