Como sangue escondido desmentiu versão de tenente-coronel suspeito de feminicídio em SP

Manchas foram identificadas com uso de luminol em roupa e no apartamento onde soldado foi morta. Laudo ainda aponta que cena do crime foi alterada para forjar suicídio. Geraldo Neto nega ter matado a mulher

19 mar 2026 - 22h21

O sangue de Gisele Alves Santana foi determinante para a Polícia Civil concluir que a soldado da Polícia Militar foi vítima de feminicídio. O marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, virou réu pelo assassinato e por fraude processual. Ele foi preso nesta quarta-feira, 18.

De acordo com relatório final da investigação do caso feito pela Polícia Civil, e obtido pelo Estadão, a perícia encontrou evidências por meio do sangue de Gisele de que o tenente-coronel não apenas alterou a cena do crime, como também mexeu no corpo da vítima antes de acionar o resgate.

Publicidade

"Trata-se de prova que confirma, simultaneamente, a autoria do feminicídio e a prática da fraude processual", afirma a Polícia Civil.

Sangue encontrado com luminol

As manchas foram identificadas com o uso de luminol. As reações de quimioluminescência foram constatadas na bermuda, no interior do box do banheiro, nos registros de água, na parede, no chão e também em uma toalha de rosto que estava sobre uma cadeira na varanda do apartamento.

Segundo Geraldo, Gisele teria cometido suicídio após uma conversa em que ele teria manifestado o desejo de se separar. O disparo, de acordo com o militar, ocorreu enquanto ele tomava banho e, em diferentes momentos, ele afirmou não ter tocado no corpo de Gisele nem na arma utilizada no crime.

Sangue de Gisele Alves foi encontrado no no banheiro e na bermuda do tenente-coronel Geraldo Neto.
Sangue de Gisele Alves foi encontrado no no banheiro e na bermuda do tenente-coronel Geraldo Neto.
Foto: Polícia Civil/Reprodução / Estadão

O caso chegou a ser registrado inicialmente como suicídio, mas relatos de familiares de Gisele — que apontaram um histórico de comportamento agressivo de Neto — levaram a polícia a reclassificar a ocorrência como morte suspeita.

Publicidade

Conforme laudo, o tiro foi efetuado de cima para baixo, atingindo o lado direito da têmpora de Gisele. No entanto, a análise de fotos feitas por socorristas indica que o sangue escorreu pelo corpo da vítima em "diagonal descendente", "correndo sobre o busto em direção à mama esquerda".

Segundo a investigação, essa trajetória é "radicalmente incompatível com a posição em que Gisele foi encontrada pelos socorristas".

"Se as manchas se formaram enquanto Gisele sangrava em pé ou próxima à vertical, ela não poderia ter caído, por ação própria, na posição em que foi encontrada e produzido aquela trajetória no busto", afirma o relatório.

Gisele Alves Santana, de 32 anos, foi morta em 18 de fevereiro com um tiro na cabeça disparado pelo marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53
Foto: Reprodução / Estadão

Para a polícia, a única explicação técnica compatível com as evidências é que "o corpo de Gisele foi movido de sua posição original após o disparo, tendo sido reposicionado na cena por terceiro". Em depoimento, o tenente-coronel afirmou que ninguém tocou na vítima até a chegada do socorro.

"A análise hemodinâmica do laudo é, portanto, prova técnica direta de que o investigado adulterou a cena do crime, removendo e reposicionando o corpo da vítima antes de acionar o socorro", acrescenta o documento.

Publicidade
Polícia encontrou sangue de Gisele em locais do banheiro, contradizendo versão do tenente-coronel Geraldo Neto.
Foto: Polícia Civil/Divulgação / Estadão

Segundo a polícia, essas evidências indicam "que o investigado teve contato físico com o sangue de Gisele antes de tomar banho, contradizendo tudo o que disse até agora". Em sua versão, Geraldo Neto afirmou que não tocou nem chegou a menos de dois metros do corpo e da arma "em momento algum".

"Se essa afirmação fosse verdadeira, seria impossível explicar a presença de material hemático no interior do box, em superfícies que somente o investigado utilizou", aponta o relatório.

"A única explicação tecnicamente compatível com a presença de sangue nos registros de água, na parede, no chão do box e em sua bermuda é que o investigado entrou no banheiro já impregnado de sangue e o lavou sob o chuveiro antes de receber qualquer equipe de socorro, em conduta deliberada de destruição de evidências", acrescenta o documento.

A polícia também destacou o padrão das manchas de sangue na bermuda de Geraldo Neto, considerado "tecnicamente decisivo para a compreensão da dinâmica do evento".

Publicidade

As análises indicam que o sangue apresenta "características morfológicas de gotejamento", e não de arrasto ou de contato com superfícies manchadas.

Segundo a investigação, a única explicação compatível para esse padrão na perna esquerda da bermuda é que o investigado estava em "posição estática ou quase estática, com a perna exposta abaixo de uma fonte de sangue ativo, no momento em que Gisele sangrava".

"Essa dinâmica exige a presença física do investigado no raio imediato do corpo da vítima durante o sangramento ativo, condição absolutamente incompatível com sua versão de que não manteve qualquer tipo de contato com a vítima", diz outro trecho.

"O gotejamento não mente: ele documenta, com a objetividade física da gravidade, que gotas individuais de sangue de Gisele percorreram uma trajetória descendente e atingiram a perna do investigado enquanto o ferimento sangrava ativamente", diz a polícia.

Na conclusão da análise, a Polícia Civil afirma que os exames residuográfico e de luminol positivo provam que tenente-coronel teve contato com o corpo de Gisele durante o disparo ou imediatamente após, impregnou-se do sangue dela e tomou banho para eliminar os vestígios de sua participação no crime.

Publicidade
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações